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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Gênesis 25


"Pintura pequena, escura e confusa" de Benjamin West. Óleo sobre tecido.


O velho Abraão era um homem abençoado pelo Deus Altíssimo e ainda dava no couro, mesmo nos seus cento-e-cachorro-lascou-a-boca anos de idade. E como prova disso, após Sara ter passado dessa para uma melhor, ele se casou com uma mulher chamada Cetura. E ainda teve filhos que ele amaldiçoou com os nomes Zamrã, Jecsã, Madã, Madiã, Jesboc e Sué. E, como se esses nomes não fosses sacanagem suficiente, Abraão deixou toda a herança somente para Isaac. Velho filhadaputa. “Quanto aos filhos de suas concubinas (não é possível... o velho devia tomar catuaba e Caracu com ovo na veia!), só lhes deu presentes, e despediu-os, ainda vivo, mandando-os para longe de seu filho Isaac, para a terra do oriente.” (Gênesis 25:6). E, aos 175 anos de idade, Abraão vai a óbito e seu presunto é enterrado na mesma caverna em que Sara também foi enterrada. Ficou triste? Nem eu.

O primogênito de Abraão, Ismael, gerou doze filhos que foram chefes de doze tribos (isso, tribos. A Bíblia é um livro de uma era tribal. Pudera alguns conceitos estarem ultrapassados). Ismael também empacota, só que na flor da idade, com apenas 137 anos. E agora? Nem uma lágrima?

Já com Isaac o buraco foi mais embaixo. “Isaac rogou ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu-o e Rebeca, sua mulher, concebeu.” (Gênesis 25:21). Ué! Que fácil! “Senhor”, “Sim, Isaac?”, “Minha mulher é estéril. Dá pra quebrar meu galho?”, “Demorô, véi!”, SHAZAM! Mas, apesar do bom Senhor ter agraciado Rebeca com gêmeos, a gravidez não foi tranqüila e saudável. Enquanto grávidas normais sentem o rebento dando chutinhos e se acomodando, Rebeca sentia que seus dois fetos estavam praticando o Vale-Tudo. Se na época houvesse ultra-som, os médicos tribais veriam soco, pontapé, chave-de-braço, tesoura-voadora, dedo-no-olho, fisgada e até o temido suplex-alemão. Ou talvez fossem só gases.

Mas, apesar da ausência da ultra-sonografia, Rebeca podia se consultar com o Guru da Obstetrícia Neo-Natal, o inventor de todo o sistema, Dr. Javé. "’Se assim é, por que me acontece isso?’ E ela foi consultar o Senhor, que lhe respondeu: ‘Tens duas nações no teu ventre; dois povos se dividirão ao sair de tuas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo.’” (Gênesis 25:22-23). Esse é o plano divino, mas Deus põe ele em prática dentro da barriga dos outros. Ó-quêi então.

E no dia do parto, surpresa! “O que saiu primeiro era vermelho, e todo peludo como um manto de peles, e chamaram-no Esaú” (Gênesis 25:25). Você leu certo, herege leitor. Vermelho e peludo. Se ainda duvida, clique aqui para ver uma fotografia de Esaú. “Saiu em seguida o seu irmão, segurando pela mão o calcanhar de Esaú, e deram-lhe o nome de Jacó.” (Gênesis 25:25). Há quem diga que Jacó, ao invés de chorar, nasceu dizendo “volta aqui, filhadaputa! Não vai escapar assim não!”. Enfim, Esaú cresceu e se tornou um destro caçador, um homem rústico, tosco, fino como apito de navio. “Jacó”, todavia, “era um homem pacífico, que morava na tenda.” (Gênesis 25:27). Leia-se frouxo. Obviamente, Isaac sempre gostou mais de Esaú, o bruto, enquanto Rebeca preferia Jacó.

Um dia, Jacó estava, de avental, preparando um saboroso guisado, cuja receita ele aprendeu no Mais Você. O peludo Esaú voltou do campo, sujo e com uma sovaqueira de derrubar o guarda, e disse “Deixa-me comer um pouco dessa coisa vermelha, porque estou muito cansado.” (Gênesis 25:30). Creio que Jacó não gostou nada que Esaú chamou seu Guisado à Moda Sul-Matogrossense de “coisa vermelha”. E ainda viu uma chance de passar a perna no seu obtuso irmão. "Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura." (Gênesis 25:31). Jacó não é flor que se cheire, e só daria um prato de sua iguaria se Esaú entregasse seus direitos de primogênito (lembrem-se que Jacó nasceu alguns segundos depois, atracado no calcanhar de seu irmão). Esaú, cuja fome se igualava a sua burrice, topou. "’Morro de fome, que me importa o meu direito de primogenitura?’ ‘Jura-mo, pois, agora mesmo’, tornou Jacó. Esaú jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.” (Gênesis 25:32-33). Caiu como um pato.

E assim termina nosso denso capítulo 25, com a morte de Abraão e Ismael, e o nascimento de irmãos gêmeos que se odeiam. Há novela melhor?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Gênesis 23-24


Celebrai! A boa notícia é que Gênesis 23 pode ser trocado em miúdos: Sara, a mulher-maçaneta (que todo mundo passou a mão), empacota aos 127 anos de idade. Abraão, querendo um bom jazigo para sua defunta, a enterra numa caverna na terra de Efrom. E fim.

A má notícia é que Gênesis 24 é um capítulo um pouco mais longo. Mas juntos chegaremos lá! Avante.

O velho Abraão chama seu mais antigo e fiel escravo e diz “Mete tua mão debaixo de minha coxa.” (Gênesis 24:2). Ó-quêi-pó-pará! Teria o velho ficado pervertido com a ausência de Sara? Mete a mão debaixo da coxa? E depois? Cheira? Ica. Mas não é nada disso, hereges pecadores da mente pútrida e pestilenta. Era desse jeito que se fazia uma promessa nos tempos bíblicos. “Quero que jures pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não escolherás para mulher de meu filho nenhuma das filhas dos cananeus, no meio dos quais habito; mas irás à minha terra, à minha parentela, e lá escolherás uma mulher para o meu filho Isaac." (Gênesis 24:3-4). Abraão quer que seu filho mantenha a tradição endogâmica familiar e não se misture com a gentalha que o cerca, por isso pede ao seu servo que vá buscar uma mulher em sua terra natal.

Mas o astuto escravo sabe que a coisa pode ser mais complicada: Um camelo vai para onde você puxar. O escravo, ao contrário de Abraão, sabe que uma mulher é um pouco diferente de um camelo, e indaga: “Talvez essa mulher não me quererá seguir a esta terra; nesse caso, poderei reconduzir o teu filho à terra de onde saíste?" (Gênesis 24:5). Abraão diz “Guarda-te bem de reconduzir para lá o meu filho! (ou, em bom Português, “o caralho que você vai reconduzir para lá o meu filho!”)(...) se ela não te quiser seguir, estarás desobrigado do juramento que te impus. Somente não reconduzas,de forma alguma, para lá o meu filho." (Gênesis 24:6-8). Ok, não precisa dar chilique. “Pôs, então, o servo sua mão debaixo da coxa de Abraão, seu senhor, e fez-lhe o juramento que ele pedia.” (Gênesis 24:9). Eu juro que não inventei essa história da mão na coxa.

E assim partiu o escravo para Nacor, levando camelos, ouro e toda sorte de eletro-eletrônicos, em busca de um pitéuzinho para Isaac. Já nos arredores da cidade de Nacor, nosso amigo resolveu parar sua comitiva num poço para dar um relax. E aproveitou para pedir uma ajuda ao Senhor na sua missão: “Senhor, Deus de Abraão, meu senhor, fazei-me encontrar hoje o que desejo, e manifestar vossa bondade para com meu senhor Abraão. Eis-me aqui, de pé, junto desta fonte onde as filhas dos habitantes da cidade virão buscar água. Portanto, a donzela a quem eu disser: ‘Inclina o teu cântaro, por favor, para que eu beba’ -, e me responder: ‘Bebe, e darei de beber também aos teus camelos’ -, essa seja a que destina ao vosso servo Isaac. Por isto conhecerei que manifestais vossa bondade para com meu senhor." (Gênesis 24:14). Improvável, né?

Mas Deus é pai e foi tiro e queda! Surgiu imediatamente uma jovem chamada Rebeca com um cântaro nos ombros. “A jovem era extremamente bela, virgem, e homem algum a havia possuído.” (Gênesis 24:16). Extremamente bela e extremamente virgem. E quando o escravo pediu água, a jovem seguiu o script direitinho: "Bebe, meu senhor. Vou buscar água também para os teus camelos, para que todos bebam." (Gênesis 24:18-19). Bingo! Para impressionar a moça, o escravo saca um anel e dois braceletes de ouro e pergunta: “Haveria na casa de teu pai um lugar para passarmos a noite?" (Gênesis 24:23). Eu responderia: “Alguém que anda com anéis e braceletes de ouro a dar com pau, não tem dinheiro para se hospedar num hotel, ó nobre estrangeiro?”. Mas Rebeca não é ranzinza e rude como o autor que vos escreve, e responde: “Há em nossa casa palha e forragem em abundância, e também lugar para passar a noite.” (Gênesis 24:25).

Rebeca voltou saltitando para sua humilde residência e, tilintando o ouro que acabara de ganhar, contou o ocorrido para sua família. Seu irmão, Labão (me pergunto se esse era o nome dele mesmo, ou se era um apelido em virtude do tamanho do... ah, deixa pra lá), vê no abonado estrangeiro uma chance para amarrar seu burrinho na sombra. "Vem, bendito do Senhor, disse ele, por que permaneces aí fora? Preparei a casa e um lugar para os camelos." (Gênesis 24:31). E, na mesa do jantar, o servo de Abraão resolveu abrir o jogo: “Eu sou escravo de Abraão. (...) O meu senhor fez-me jurar que eu não escolheria para o seu filho uma mulher entre as filhas dos cananeus, em cuja terra ele mora, mas que viria à casa de seu pai, à sua família, para aí escolher uma mulher para o seu filho.” (Gênesis 24:34-38). Labão e o pai de Rebeca, Batuel, não hesitaram em entregar a moça ao escravo estrangeiro. “Eis aí Rebeca: toma-a e parte. Que ela seja a mulher do filho de teu senhor, como o Senhor disse." (Gênesis 24:51). E para deixar todo mundo feliz, o escravo encheu Rebeca e sua família de fabulosos presentes, como perfumes importados, iPods® e calçados Nike®.

Na manhã seguinte, quando o escravo estava se preparando para sair e levar sua mulher-troféu de volta para casa, Labão e a mãe de Rebeca disseram: “Fique a jovem ainda conosco alguns dias, ao menos dez dias; depois disto partirá." (Gênesis 24:55). Aí fodeu. Estava tudo certinho, no esquema: o escravo voltando para casa com uma mulher para Isaac, e todo mundo feliz cheio de presentes. E aí vem Labão e a velha com esse papo de “veja bem”? Nananina, o escravo não gostou nada dessa quebra de contrato. “Não me retenhais, tornou ele: pois que o Senhor fez bem-sucedida a minha viagem, deixai-me partir e voltar para o meu senhor." (Gênesis 24:56). E agora? Como resolver esse angu de caroço? “Chamemos a jovem, disseram eles, e perguntemos-lhe o seu parecer." (Gênesis 24:57). O que?!? Eles vão perguntar para Rebeca o que ela acha?!? Glória, Senhor! Ao ser questionada se queria partir com o escravo, Rebeca disse “sim” (Gênesis 24:58)! E assim ela partiu, “juntamente com sua ama-de-leite, com o servo de Abraão e seus companheiros.” (Gênesis 24:59).

Isaac viu de longe a comitiva se aproximando, e Rebeca também viu Isaac. “Ela disse ao servo de Abraão: ‘Quem é aquele homem que vem ao nosso encontro no campo?’ É o meu senhor’, respondeu ele. E ela tomou depressa o véu e cobriu-se.” (Gênesis 24:65). Seria o véu um embrulho de presente? “E Isaac introduziu (em) Rebeca na tenda de Sara, sua mãe. Desposou-a, e ela tornou-se sua mulher muito amada. E desse modo Isaac consolou-se da morte de sua mãe.” (Gênesis 24:67). Peraí! Quer dizer que o escravo, eu e você passamos por tudo isso para que Isaac se consolasse da morte da mãe? Me poupe.

Me parece que as histórias bíblicas estão mudando um pouco. Convenhamos que foi um avanço a opinião da jovem Rebeca ser levada em consideração. Deus também parece estar agindo de forma mais indireta. Estou até com saudades do velho Javé que mandava chuvas de fogo e enxofre quando estava entediado. Me pergunto se ele vai voltar. Mas a mensagem é que o velho Abraão não queria seu filho se misturando com outro povo/etnia/religião. Soa familiar?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gênesis 22


"Abraão prepara uma picanha" de Caravaggio. Óleo sobre tela.

Pelo jeito Deus estava quase tão entediado quanto você, fiel leitor, pois ele chegou para seu único amigo e disse: “’Abraão!’ ‘Eis-me aqui’, respondeu ele. ‘Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar.’" (Gênesis 22:1-2). Ou, trocando em miúdos: “Abraão, você pode fazer um churrasco do seu próprio filho, só para celebrar como eu sou fodão?”. Só se for agora!

Abraão, com uma obediência canina, partiu com dois servos, lenha e seu filho Isaac rumo ao monte indicado pelo bondoso Deus. Chegando lá, disse aos servos: “Ficai aqui com o jumento, eu e o menino vamos até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós." (Gênesis 22:5). Enquanto subiam a pirambeira, o pequeno Isaac já percebeu que tinha gato nessa tuba. “’Meu pai!’ ‘Que há, meu filho?’ Isaac continuou: ‘Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto?’”(Gênesis 22:7). Abraão não queria dizer que o próprio Isaac era o prato principal do menu. ‘Deus,’ respondeu-lhe Abraão, ‘providenciará ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho.’" (Gênesis 22:8).

Abraão fez uma pilha de lenha, amarrou seu filho Isaac em cima e sacou a peixeira para começar o serviço de açougueiro. “O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: ‘Abraão! Abraão!’ ‘Eis-me aqui!’ ‘Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único’ (único o caralho!, diria Ismael)” (Gênesis 22:12). É claro, amigo leitor! O bondoso Deus não queria que Abraão matasse de fato seu filho. Ele queria somente testar se Abraão era obediente mesmo! Não consta na versão oficial das escrituras, mas o anjo do Senhor ainda disse: “Abraão, olha praquela câmera ali atrás da moita! Dá tchauzinho, porque você está na Pegadinha do Senhor!”. Sério. “Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos; e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho.” (Gênesis 22:13). Agora pergunta se o cordeiro achou graça nessa história.

Abraão chamou a este lugar Javé-yiré” (Gênesis 22:14), que significa ‘Deus-sacana-e-engraçadinho’. Então o Senhor disse "Juro por mim mesmo (ele não pode dizer ‘juro por Deus’, né?): pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha voz.” (Gênesis 22:16-18). Será que Deus também vai pagar as sessões de análise para a criança que foi amarrada em cima de uma pilha de lenha pelo próprio pai?

Que lição devemos tirar desta bela história? Se o bom Senhor mandar você enfiar a cabeça na privada e dar a descarga, faça-o, pois ele vai te ajudar e multiplicar sua posteridade. Mas, para a maioria de nós, Deus fala através de padres, pastores, rabinos e gurus, e nunca diretamente. Portanto, se algum deles disser para você entregar seu dinheirinho a Deus, por mais sem sentido que isso pareça, lembre-se da história de Abraão. Conveniente?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Gênesis 21


"Agar fica mucho loca" de Guercino.

O bom Deus Todo Poderoso, em sua glória, criou o universo e todas as leis da física, planetas, estrelas, nebulosas, organismos vivos (com uma complexidade que parece fruto de milhões de anos de evolução) e, entre eles, o maravilhoso ser humano, um macaco capaz de cutucar o nariz e assistir TV ao mesmo tempo. Mas isso não foi demonstração suficiente do poder de Javé! Não, pobre mortal! Ele resolveu se superar com o milagre supremo: Fazer a benga de um homem de 99 anos subir e engravidar uma mulher quase tão velha. E assim o fez com Abraão e sua esposa e meia-irmã Sara.

O Senhor visitou Sara, como ele tinha dito, e cumpriu em seu favor o que havia prometido. Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” (Gênesis 21:1-2). Eu não gosto sair acusando as pessoas (ou deuses), mas o Senhor visitou Sara e ela engravidou. Entenda como quiser. Mas enfim, Sara concebeu e amamentou um rebento que “Abraão pôs o nome de Isaac” (Gênesis 21:3). E “No dia em que foi desmamado, Abraão fez uma grande festa” (Gênesis 21:8) e todos dançaram ao som de “Mamãe Eu Quero” e outras marchinhas.

Mas nem tudo são flores na infância do pequeno Isaac. Se vocês não se recordam, em Gênesis 16, Abraão, atendendo a um pedido de sua esposa Sara (!), teve um filho chamado Ismael com a escrava Agar. Ismael não tinha televisão, videogame nem acesso à internet e, como passatempo, resolveu maltratar o rebento Isaac. Sara fica emputecida e resolve buzinar na senil orelha de Abraão: “Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac." (Gênesis 21:10). Abraão pensou “putaqueopariu, agora mais essa?” e não ficou nada feliz, pois ele gostava do jovem Ismael e não queria expulsá-lo de sua casa. “Mas Deus”, sempre com a solução para seus problemas, “disse-lhe: ‘Não te preocupes com o menino e com a tua escrava. Faze tudo o que Sara te pedir, pois é de Isaac que nascerá a posteridade que terá o teu nome. Mas do filho da escrava também farei um grande povo, por ser de tua raça.’" (Gênesis 21:12-13) Ah bom! Agora sim!

Abraão, após ser aconselhado pelo Senhor, deu um pão, um odre de água e um pé na bunda para Agar e Ismael, que saíram errantes pelo deserto. Sob o sol escaldante do Oriente Médio e com nenhuma loja de conveniência aberta, não demorou muito para que os dois caíssem moribundos, sem água e sem comida. “Ô castigo”, bradou Agar, “quem poderá nos salvar? Quem? Quem?”. O bom Senhor! Aleluia! Apesar de não poder comparecer pessoalmente, ele enviou um anjo que apareceu para Agar (perceba que esta visão não foi uma alucinação decorrente do fato de Agar estar desidratada e o sol do deserto fritando sua caixola. De jeito nenhum! Foi um anjo mesmo, ok?). E o anjo disse: “Que tens, Agar? Nada temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar onde está. Levanta-te, toma o menino e tem-no pela mão, porque farei dele uma grande nação." (Gênesis 21:18). E, quando Agar ergueu sua cabecinha cheia de vozes dentro, viu um poço de água que miraculosamente havia aparecido ali. E assim, ela e Ismael sobreviveram a mais esta provação. “Ele cresceu, habitou no deserto e tornou-se um hábil flecheiro. E habitou no deserto de Farã, e sua mãe tomou para ele uma mulher egípcia.” (Gênesis 21: 20:21). Glória!

Enquanto isso, nosso conhecido de capítulos anteriores, Rei Abimelec resolveu fazer um tratado de paz com Abraão. Abimelec de bobo só tinha o nome. Ele sabia que Abraão era protegido de um Deus que, quando está enfurecido/entediado, mata mesmo. E todo mundo sabe (exceto este autor que vos escreve) que é melhor ser amigo do que inimigo dessa gente. “Mas Abraão queixou-se a Abimelec por causa de um poço (será o mesmo poço que salvou Agar e Ismael?) que os seus homens lhe tinham tirado à força.” (Gênesis 21:25). Abimelec disse que iria averiguar a ocorrência e eles fizeram aliança de paz. Para selar o tratado, Abraão deu bois e ovelhas para o rei mas, num ato curioso, separou sete ovelhas do rebanho. “Que significam estas sete ovelhinhas que puseste à parte?” (Gênesis 21:29), perguntou o rei intrigado. "Aceitarás de minhas mãos estas sete ovelhinhas, respondeu Abraão, como testemunho de que fui eu que cavei este poço" (Gênesis 21:29). Hã? Teria Abraão fumado crack? Abimeleca, que preferiu não questionar o velho gagá, aceitou as tais das ovelhinhas. Certo então. E assim “Abraão habitou muito tempo na terra dos filisteus.” (Gênesis 21:34). E fim!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Gênesis 20

Sugiro que você pegue agora seu exemplar da Bíblia Sagrada, que certamente está ao alcance de sua mão, e consulte Gênesis 12. Se, por algum infortúnio do destino, sua bíblia não está com você agora (por exemplo, seu cônjuge pode estar usando-a para orar fervorosamente em algum outro local da casa), consulte a bíblia online em nossa lista de links. Mas nem pense em consultar os arquivos deste blog, visto que ele apresenta uma versão deturpada e desrespeitosa das escrituras. Enfim, em Gênesis 12, Abraão, que ainda se chamava Abrão, disse para um faraó que sua mulher Sara, que ainda se chamava Sarai, era sua irmã. Por motivos que até Deus duvida, Sara acabou sentando no colinho do faraó e Abraão foi agraciado com muitos presentes. Lembrou?

Pois bem, neste capítulo, Abraão, depois do show de horrores que foi a destruição de Sodoma e Gomorra, resolveu peregrinar para o reino de Gerara, onde Abimalec era rei. E, quem diria, resolveu aplicar o golpe do trace-minha-esposa-porque-ela-é-minha-irmã de novo! “Ele dizia de Sara, sua mulher, que ela era sua irmã. Abimelec, rei de Gerara, arrebatou-lha (mesmo ela tendo já seus noventa e cacetada).” (Gênesis 20:2). Mas antes que o rei arrebatasse de fato Sara, o Deus Altíssimo lhe aparece num sonho e ameaça: “Vais morrer, por causa da mulher que roubaste, porque é casada.” (Gênesis 20:3). Abimeleca, como qualquer pessoa sensata, acha que Deus é um imbecil e questiona: “Senhor, fareis perecer mesmo inocentes? (ah, se vossa majestade soubesse quantos inocentes o bom Deus já ceifou...) Não me disse ele que ela era sua irmã? E ela mesma me disse: É meu irmão. É na simplicidade de meu coração e com as mãos puras que fiz isso.” (Gênesis 20:5). Meio sem jeito, o Todo Poderoso responde: “Sei que é na simplicidade do teu coração que agiste assim; por isso, preservei-te de pecar contra mim, e não deixei que a tocasses.” (Gênesis 20:5). Curiosamente, ele não teve esse cuidado quando o faraó, de Gênesis 12, caiu no mesmo golpe. “Devolve agora a mulher deste homem, que é profeta (com mulher de profeta não se mexe, pelo jeito), e ele rogará por ti para que conserves a vida. Mas, se não a devolveres, sabes que morrerás seguramente, tu e todos os teus.” (Gênesis 20:7). E assim, o Rei Abimoleque, ameaçado de morte, não encosta um dedinho sequer na Miss Velho Testamento, Sara.

Mas o nosso amigo rei, com razão, quer saber por que Abraão aprontou essa porra para cima dele, e pergunta: “Que nos fizeste? Em que te ofendi para que nos expusesses, a mim e ao meu reino, ao castigo de um tão grande pecado. Fizeste-me o que não devias fazer. Que tiveste em vista agindo assim?” (Gênesis 20:9-10). Abraão, na maior cara de pau, responde: “Eu pensava comigo que não havia certamente nenhum temor a Deus nesta terra (preconceituoso, né?), e que me matariam por causa de minha mulher (repito: de mais de 90 anos!).” (Gênesis 20:11). Ou seja, o exemplar patriarca Abraão não tem problemas em fazer Abimalec e companhia serem massacrados injustamente pelo bondoso Deus para salvar o próprio traseiro.

Mas o melhor vem agora. Abraão, como nas melhores novelas mexicanas, solta a bomba: “Aliás, ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, mas não de minha mãe; ela tornou-se minha mulher.” (Gênesis 20:12). Exatamente, Abraão é meio-irmão de Sara. O que faz dele meio-mentiroso, meio-incestuoso e um completo imbecil. Mas, depois dos casos de incesto escabrosos que já vimos neste fabuloso livro de valores, isso nem é tão surpreendente. E Abraão continua: “Quando Deus me tirou da casa de meu pai, eu disse-lhe: Faze-me esta graça: onde quer que formos, dirás de mim que sou teu irmão.” (Gênesis 20:13). Traduzindo: “És muito gostosa. Portanto, onde formos, dirás que sou teu irmão e darás o bumbunzinho para qualquer um. Dessa forma nunca serei morto por sua causa e de quebra ainda posso ganhar uns presentinhos”.

E, novamente, foi tiro e queda. “Tomou então Abimelec ovelhas, bois, servos e servas, e deu-os a Abraão, ao mesmo tempo que lhe devolvia Sara, sua mulher.” (Gênesis 20:14). Abraão, feliz da vida, “intercedeu junto de Deus, que curou Abimelec, sua mulher e suas servas, e deram novamente à luz.” (Gênesis 20:17). Não sabia que Abimolenga e suas mulheres estavam com problemas para engravidar? Nem eu. “Porque o Senhor tinha ferido de esterilidade todas as mulheres da casa de Abimelec, por causa de Sara, mulher de Abraão.” (Gênesis 20:18). Aaah bom, agora entendi. Olha, eu não sou nenhum exemplo de escritor, mas esse livro é mal escrito pracaralho, heim?

Agora falando sério (mas não muito), essa não é a primeira vez e nem será a última que histórias vão se repetir na Sagrada Bíblia. Peço desculpas pelas histórias manjadas e piadas repetitivas. Mas vamos juntos segurar na mão de Deus e ir em frente!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gênesis18-19


"Deus botando para foder" de John Martin, óleo sobre tela.

Tremei, infiéis. O episódio a seguir não é para os fracos de estômago. Teremos mortes aos baldes, sexo incestuoso e um caso de desidratação extrema. Se você acha que simplesmente não agüenta o tranco, clique aqui. Se resolveu ficar, não me ligue no meio da noite reclamando que não consegue dormir, ok?

Nossa história começa com, adivinha, Deus aparecendo para Abraão enquanto ele sentava na sua varanda “no maior calor do dia (coincidência?)” (Gênesis 18:1). Mas dessa vez, a visão é acompanhada de três viajantes que estavam passando e Abraão oferece sua hospitalidade. Na verdade, é cortesia com o chapéu dos outros (o chapéu de Sara, para ser mais preciso): “Abraão foi depressa à tenda de Sara: ‘Depressa, disse ele, amassa três medidas de farinha e coze pães.’" (Gênesis 18:6). “Amassa você, velho preguiçoso!” deve ter pensado Sara. E ainda ordenou que um criado preparasse um novilho (Abraão mesmo não fez porra nenhuma).

Os viajantes, enquanto fazem uma boquinha, profetizam que voltariam em um ano e, então, Sara teria um filho. Ela, que escutava escondida, “pôs-se a rir secretamente: ‘Velha como sou, disse ela consigo mesma, conhecerei ainda o amor? E o meu senhor também é já entrado em anos.’ (entrado em anos = broxa)" (Gênesis 18:12). O Senhor não achou graça nenhuma nas risadinhas de Sara. “Será isso porventura uma coisa muito difícil para o Senhor?” (Gênesis 18:14), disse Javé emputecido. “Sara protestou: ‘Eu não ri’, disse ela, pois tinha medo (de ser pulverizada pelo bom Deus). Mas o Senhor disse-lhe: "Sim, tu riste." (Gênesis 18:15). Seria ótimo se eles ficassem mais uns dez versículos num ping-pong de “não ri!”, “riu sim!”. Mas isso não acontece. Droga.

Deus então resolve abrir o jogo para Abraão do que vem por aí. “É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. Eu vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, eu o saberei." (Gênesis 18:20-21). O povo de Sodoma e Gomorra vivia entregue a putaria. Era todo mundo de abadá atrás do trio elétrico dia e noite, e Deus não gosta desta avacalhação (curiosamente ele, em sua onipotência, tem que descer para ver se as fofocas são verdade ou não). Abraão já sente pelo tom na voz do Senhor que vem massacre por aí e, num (aparente) surto de bondade, questiona: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (Gênesis 18: 23-24). Imagine se o bom Deus, que já afogou toda a humanidade num dilúvio, iria cometer uma injustiça dessas! “Se eu encontrar em Sodoma cinqüenta justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles." (Gênesis 18:26). É ou não é bondoso? Só que mais bondoso ainda é Abraão, que retruca: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza (hã?). Se porventura faltarem cinco aos cinqüenta justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cincos?" (Gênesis 18:28). E esse jogo de penchincha, no estilo “quer-pagar-quanto?”, continua até Deus respondendo "Não a destruirei por causa desses dez." (Gênesis 18:32).

Talvez você, como eu, tenha caído no golpe de que Abraão estava realmente preocupado com os inocentes que iriam se foder na mão de Deus. Mas o que nosso amigo estava preocupado mesmo era com seu sobrinho Lot, que vivia em Sodoma. Isso se chama nepotismo, a propósito.

Pois em Sodoma chegaram dois anjos e Lot ofereceu sua hospitalidade. “Lot preparou-lhes um banquete, mandou cozer pães sem fermento (desses que faz uma pelota na boca que você mastiga, mastiga e o bicho não desce, sabe?) e eles comeram.” (Gênesis 19:3). Mas a população de Sodoma viu que tinha carne nova no pedaço e cercou a casa de Lot. “Onde estão, disseram-lhe, os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos." (Gênesis 19:5). Se você acompanha o blog desde o começo, já sabe que “conhecer” na bíblia significa “passar a vara”. Ou seja, a população de Sodoma queria mesmo as bundinhas dos anjos para... é, sodomizar. Lot sai para tentar acalmar o rebuliço. "Suplico-vos, meus irmãos, não cometais este crime. Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra do meu teto." (Gênesis 19:7-8). Você leu certo, filho de Deus. Lot, querendo concorrer ao troféu de pai do ano, ofereceu suas duas filhas virgens para a multidão violar a vontade, desde que deixassem os anjinhos do Senhor em paz. Lindo, né?

Mas a turba enfurecida não quer saber de acordo! Qualquer coisa que faz sombra eles querem meter o bilau, e os anjinhos estão no topo da lista! Mas eis que um milagre se sucedeu: Os sodomitas tentaram entrar a força na casa de Lot, mas os anjos, numa sagaz manobra, puxaram Lot para dentro, fecharam a porta e SHAZAM! “feriram de cegueira os homens que estavam fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão por reencontrar a porta.” (Gênesis 19:11). Lot celebrou com uma dancinha da vitória e ainda tirou um sarro: “Uhu! Toma essa! Quero ver achar buraco de cu agora, bando de fidiputa!” (não, ele não fez isso... mas poderia).

Os dois homens disseram a Lot: ‘Tens ainda aqui alguns dos teus? Genros, ou filhos, ou filhas, todos os que são teus parentes na cidade, faze-os sair deste lugar, porque vamos destruir este lugar, visto que o clamor que se eleva dos seus habitantes é enorme diante do Senhor, o qual nos enviou para exterminá-los.’" (Gênesis 19:13). Estava com saudades daquele Deus que atira primeiro e pergunta depois? Que extermina aqueles que não se encaixam no seu modelo de “justo”? Ele voltou! E lembra daquele papo de “perdoarei a cidade toda se houverem justos entre os ímpios”? O bom Deus achou uma brecha na lei e enviou os anjos a Sodoma para avisar Lot. Assim ele poderia satisfazer sua vontade de massacrar uma cidade inteira, e ainda salvar os “justos” (leia-se: parentes de Abraão). Gênio!

Lot então saiu para avisar seus genros e filhas desposadas que o bom Deus iria transformar a cidade em migalhas, “mas seus genros julgaram que ele (tinha exagerado na aguardente e) gracejava” (Gênesis 19:14). Na manhã seguinte, os anjos conduziram Lot, sua mulher e suas duas filhas (que, não graças a Lot, ainda eram virgens) para os limites da cidade e disseram “Pernas pra que te quero, Lot e companhia!”. Mas havia um porém: “Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície; mas foge para a montanha senão perecerás." (Gênesis 19:17). Mas Lot não queria ficar nas montanhas, sem TV a cabo, internet e essas coisas, e pediu que os anjos não destruíssem uma cidade próxima, que tinha um hotelzinho maneiro. “Concedo-te ainda esta graça: não destruirei a cidade a favor da qual me pedes.” (Gênesis 19:21).

Finalmente, nosso bom e misericordioso Deus manda um bombardeio de enxofre e fogo sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, para cortar o mal da putaria e avacalhação pela raiz. “E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo.” (Gênesis 19:25). Erguei as mãos e dai glória a Deus! Pensa que acabou? A esposa de Lot, ao escutar o som de uma cidade sendo destruída, cometeu o gravissíssimo e imperdoável pecado de olhar para trás. O Senhor, para reforçar o argumento de que ele mata mesmo, transformou a mulher numa coluna de sal.

Ok, ok, agora acabou, certo? Errado, infiel! Nosso amigo Lot ficou com a pulga atrás da orelha e resolveu se mudar para uma caverna na montanha com suas duas filhas. “A mais velha disse à mais nova: ‘Nosso pai está velho, e não há homem algum na região com quem nos possamos unir, segundo o costume universal. Vem, embriaguemos nosso pai e durmamos com ele, para que possamos nos assegurar uma posteridade.’" (Gênesis 19:32). Simples assim, amigo leitor. As filhas de Lot resolvem que vão transar com o próprio pai, já que o bom Senhor pulverizou os outros homens da região. “Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite. Então a mais velha entrou e dormiu com ele; ele, porém, nada notou, nem quando ela se aproximou dele, nem quando se levantou.” (Gênesis 19:33). A quantidade de vinho foi exata para fazer o velho não perceber nada e ao mesmo tempo não perder a... tenacidade, se é que você me entende. Que precisão! E na noite seguinte foi repeteco com a filha mais nova. Dessa forma, Lot se tornou ao mesmo pai e avô de duas crianças chamadas Moab e Ben-Ami.

Uma família em que as duas filhas embriagam o próprio pai para transar com ele, está de acordo com os preceitos de Deus, e merece ser poupada do massacre que ele fez. Serei eu antiquado? Ufa, agora acabou, irmãos e irmãs. Amém!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Gênesis 17



Glória, irmãos, glória!

Abrão já surfava nos seus 99 anos de vida, quando Deus lhe aparece em mais uma visão. Cá pra nós, a aparição do Senhor, com sua voz grave e reverberante, acompanhada pelo canto de mil querubins e trombetas, deve ser muito impressionante na primeira vez. Mas pela centésima vez, Abrão deve ter pensado “lá vem ele de novo...”. E ele disse: “Eu sou o Deus Todo-poderoso (que modéstia, não?). Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência.” (Gênesis 17:1-2). Sério, quem ainda agüenta esse papo de “aliança” e “multiplicar a descendência”? Eu que não.

E Javé continua: “De agora em diante não te chamarás mais Abrão, e sim Abraão, porque farei de ti o pai de uma multidão de povos.” (Gênesis 17:5). Uepa, pó-pará! Deus vai fazer de Abrão o pai de uma multidão de povos e dá de presente uma letra “a” para o nome dele?!? Não um cajado maneiro, ou um megafone, ou uma conta no twitter. Não. Um “a”. Desculpe, mas isso Abrão poderia ter feito sozinho. Eu admito que Abraão soa mais musical, tem mais ritmo. Abra-ão. Parece que escorrega da língua. Mas só. E o Senhor continua: “Darei a ti e a teus descendentes depois de ti a terra em que moras como peregrino, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o teu Deus." (Gênesis 17:8). É a danada da Terra Prometida.

Agora, amigo leitor, preste atenção, pois essa parte é do caralho: “Eis o pacto que faço entre mim e vós, e teus descendentes, e que tereis de guardar: Todo homem, entre vós, será circuncidado. Cortareis a carne de vosso prepúcio, e isso será o sinal da aliança entre mim e vós.” (Gênesis 17:10-11). Exatamente! Deus, em sua glória, decidiu que o sinal que marcaria seu povo escolhido seria ter a chapeleta cortada. O Senhor, por ser Todo-Poderoso, deve ter visão de raio-x, e pode ver a benga de qualquer homem quando bem entender. Para os homens se reconhecerem, entretanto, a coisa fica mais constrangedora: “Com licença, amigo. Podes levantar sua toga para que eu averigue se és um dos escolhidos?”. E tem mais. “Todo homem, no oitavo dia do seu nascimento, será circuncidado entre vós nas gerações futuras, tanto o que nascer em casa, como o que comprardes a preço de dinheiro de um estrangeiro qualquer, e que não for de tua raça.” (Gênesis 17:12). Ou seja, até escravos, comprados de um “estrangeiro qualquer”, entram na jogada. “Circuncidar-se-á tanto o homem nascido na casa como aquele que for comprado a preço de dinheiro. Assim será marcado em vossa carne o sinal de minha aliança perpétua (Deus gosta de se repetir, como já vimos). O varão (ou varinha! há!) incircunciso, do qual não se tenha cortado a carne do prepúcio, será exterminado de seu povo por ter violado minha aliança."(Gênesis 17:13-14). Não entendi muito bem esse “exterminado de seu povo”. Se “exterminar” é o mesmo verbo usado pelo Arnold Schwazenegger e por empresas de dedetização, então significa matar. O homem que tiver seu bilau encapuzado, como se não bastasse ter um maior risco de infecções genitais, ainda será jurado de morte pelo povo escolhido? Ô castigo!

Como reconhecer as mulheres, como sempre, não importa. Apesar de que, neste caso específico, acho que as mulheres se deram bem por serem esquecidas. Escaparam de rituais de mutilação numa época em que não havia bisturis e a anestesia era tomar um porre. Ufa!

O Senhor Javé, que parece que acordou com siricutico, continua a dar decretos: “Não chamarás mais tua mulher Sarai, e sim Sara. Eu a abençoarei, e dela te darei um filho. Eu a abençoarei, e ela será a mãe de nações e dela sairão reis." (Gênesis 15:16). Ótimo, Abra-a-ão ganhou uma letra e Sara-i perdeu uma. E que delicadeza, né? “Dela sairão reis”. Espero que não estejam usando coroa quando saírem.

Abraão, mesmo com seu novo nome, sabe que a pipa do vovô não sobe mais não segura a risada. “Abraão prostrou-se com o rosto por terra, e começou a rir (pf... pf, pf... pfahahahaha!), dizendo consigo mesmo: ‘Poderia nascer um filho a um homem de cem anos? Seria possível a Sara conceber ainda na idade de noventa anos?’" (Gênesis 17:17). Teria o Senhor Javé comido cocô? "Oxalá que Ismael viva diante de vossa face!" (Gênesis 17:18), disse Abraão. Mas a Deus tudo é possível, e não seriam meros casos de paumolecência e esterilidade que impediriam o plano divino de se concretizar! “Não, é Sara, tua mulher que dará à luz um filho, ao qual chamarás Isaac. Farei aliança com ele, uma aliança que será perpétua para sua posteridade depois dele. Eu te ouvirei também acerca de Ismael. Eu o abençoarei, torná-lo-ei fecundo e multiplicarei extraordinariamente sua descendência: ele será o pai de doze príncipes, e farei sair dele uma grande nação. Mas minha aliança eu a farei com Isaac, que Sara te dará à luz dentro de um ano, nesta mesma época." (Gênesis 17:19-21). Ou seja, amigo Abraão, assim que a piroca cicatrizar já pode começar a trabalhar na madeira, meu caro.

Abraão tomou então Ismael, seu filho, assim como todos os homens nascidos em sua casa e todos aqueles que tinha comprado a preço de dinheiro (que jeito mais chato de dizer “escravos”!), tudo o que havia de varões em sua casa, e circuncidou-se no mesmo dia, como Deus lhe havia ordenado.” (Gênesis 17:23). Abraão, com um cutelo enferrujado na mão: “Minha gente, todos com os varões pra fora! Ordens divinas!”. Assustador, heim? “(...) e todos os homens de sua casa, nascidos em sua casa ou comprados a preço de dinheiro a estrangeiros (argh!), foram circuncidados ao mesmo tempo.” (Gênesis 17:27). Sorte nossa que Abraão não resolveu fazer um churrasco em oblação ao Senhor com tanta carne sobrando. Eca.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Gênesis 16


'Abrão, Sarai e Agar fazem um bem-bolado' de Adriaen van der Werff

Gosta de pornografia na internet? Ótimo, porque você está no site certo! Nossa história andava um pouco confusa e entediante, mas parece que os roteiristas se tocaram que samba, suor e sacanagem dão ibope. “Sarai, mulher de Abrão, não lhe tinha dado filho; mas, possuindo uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a Abrão: ‘Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava, para ver se, ao menos por ela, eu posso ter filhos’”. Exatamente! “Abrão, por favor, trace esta escrava já que sou estéril, sim?”. O melhor é o desfecho destes dois versículos. “Abrão aceitou a proposta de Sarai.” (Gênesis 16:1-2). Ah vá! Sério? Pobre homem.

Eis que Abrão agasalhou seu croquete sem dó na escrava Agar, a egípcia, engravidando-a. Podemos acusar Abrão de muitas coisas, mas o velho dá no couro, viu? Consta que ele tinha seus 85 anos durante o ocorrido. Teriam os habitantes de Canaã acesso à Catuaba Selvagem? Cerveja Caracu batida com ovo e amendoim? Mistério.

Já “Agar, vendo que tinha concebido, começou a desprezar a sua senhora.” (Gênesis 16:4). Mudava de canal bem na hora da novela de Sarai, largava louça suja na pia, devolvia forma de gelo vazia no freezer e coisas do gênero. A vida a três ficara insuportável. “Então Sarai”, com o rolo de macarrão na mão, “disse a Abrão: ‘Caia sobre ti o ultraje que me é feito! Dei-te minha escrava, e ela, desde que concebeu, olha-me com desprezo. O Senhor seja juiz entre mim e ti!’” (Gênesis 16:5). Abrão, com uma covardia digna dos homens preferidos de Deus, responde: “Tua escrava está em teu poder, faze dela o que quiseres.". Ele lavou as mãos. A mulher na Bíblia é essencialmente uma boneca inflável que gera herdeiros, e Abrão estava cagando para Agar e o filho na barriga dela. Sarai aproveitou a luz verde e “maltratou-a de tal forma que ela teve de fugir.” (Gênesis 16:6).

A escrava Agar, a egípcia, pôs-se a vagar pelo deserto, com náuseas, pés inchados e desejos repentinos por bolo de chocolate, até se deparar com um anjo do Senhor! Isso, mesmo! Não era um louco usando asas de arame e algodão, nem uma alucinação por estar vagando pelo deserto. Era um anjo mesmo! E “disse-lhe: ‘Agar, escrava de Sarai, donde vens? E para onde vais?’ (desinformado esse anjo, né?) ‘Eu fujo de Sarai, minha senhora’, respondeu ela. ‘Volta para a tua senhora, tornou o anjo do Senhor, e humilha-te diante dela.’ E ajuntou: ‘Multiplicarei tua posteridade de tal forma, e será tão numerosa, que não se poderá contar.’” (Gênesis 16:8-10). Sério? Esse papo de “multiplicar a posteridade” de novo? Isso é o melhor que Deus tem a oferecer? “Você será uma escrava, vai servir de parideira para seu dono e vai ser maltratada pela sua dona. Mas vou multiplicar sua posteridade, ok?”. Uau! Obrigado Senhor, por esta graça! E na bundinha não vai nada?

Pois o anjo do Senhor ainda profetiza: "Estás grávida, e vais dar à luz um filho: dar-te-ás o nome de Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição (ouviu mesmo?). Este menino será como um jumento bravo: sua mão se levantará contra todos e a mão de todos contra ele, e levantará sua tenda defronte de todos os seus irmãos." (Gênesis 16:11-12). Opa! Todo mundo sabe que um menino como jumento bravo é encrenca! E se, além de bravo, também for esperto como um jumento, não podemos exigir notas altas no boletim do jovem.

Agar deu ao Senhor, que lhe tinha falado, o nome: Vós sois El-roí, ‘porque, dizia ela, não vi eu aqui mesmo o Deus que me via?’” (Gênesis 16:13). Explico: Agar chamou o anjo (“Senhor que lhe tinha falado”) o nome de El-roí, que significa “Deus que vê”. Deus (ou o anjo, ou sei lá quem) não viu Abrão usar e descartar a escrava Agar, nem viu Sarai a maltratar até ela não agüentar mais, e nem sabia de onde nem para onde ela ia. Mas mesmo assim ganhou o título de “Deus que vê”. Eu o chamaria de “Deus que está precisando de óculos”.

Enfim, Agar finalmente dá à luz ao rebento chamado Ismael. “Abrão tinha a idade de oitenta e seis anos quando Agar lhe deu à luz Ismael.” (Gênesis 16:16). Não falei que o velho ainda tinha bala na agulha?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gênesis 13-15

Depois do vexame que Abrão e banda deram no Egito, eles voltaram para Betel. “Abrão”, o narrador faz questão de salientar, “era muito rico em rebanhos, prata e ouro” (Gênesis 13:2), “graças ao bumbum empinadinho de Sarai”, o narrador faz questão de esconder. Mas o que importa é que Abrão e seu sobrinho Lot resolveram dividir essas terras de meu Deus, para que seus respectivos pastores pudessem pastorear à vontade. “Abrão fixou-se na terra de Canaã, e Lot nas cidades da planície, onde levantou suas tendas até Sodoma” (Gênesis 13:12).

Apesar de ainda faltar alguns capítulos para a história tratar de Sodoma e Gomorra, o narrador já nos adianta que “os habitantes de Sodoma eram perversos, e grandes pecadores diante do Senhor” (Gênesis 13:13). A putaria rolava solta. Era Festa do Coqueiro (pode trepar que não tem galho) toda noite. Aguardem os próximos capítulos e voltemos à nossa história.

Assim que Lot deixou seu tio sozinho (coincidência?), o amigo imaginário de Abrão (Deus) lhe aparece para revelar mais abobrinhas. Entre uma bobagem e outra, o Senhor diz que a descendência de Abrão será “tão numerosa como o pó da terra: se alguém puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar a tua posteridade” (Gênesis 13:16). Pó da terra. Não como as estrelas no firmamento, nem como as gotas no oceano ou algo mais poético. Como o pó mesmo. Acho que foi um elogio. Enfim. Abrão “veio fixar-se no vale dos carvalhos de Mambré, que estão em Hebron; e”, tava demorando, “ali edificou um altar ao Senhor” (Gênesis 13:18).

O que acontece depois, em Gênesis 14, é uma salada de reis e nações cujos nomes parecem doenças do couro cabeludo. Mas, como sempre, eu troco em miúdos para você. Os reis de Sodoma, Gomorra, entre outras nações, serviam a um rei chamado Cordo... Codorno... Codorlaomor (ufa!). Depois de 12 anos, o saco deles enchem e eles entram em guerra contra Comolargador (tá certo?) e companhia. Depois de muito quebra-pau, os reis de Sodoma e Gomorra perdem a batalha e, no meio da confusão, Lot, sobrinho de Abrão, é seqüestrado pela gangue de Cornolamastor (quem?). Abrão, juntamente com uma equipe da Swat, vai ao resgate de seu sobrinho, dá uma surra em Courola... (ah, foda-se, desisto!) e ainda recupera os bens saqueados na batalha.

Um dos reis vingados por Abrão, “Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, mandou trazer pão e vinho (ai, ai. A última vez que tinha vinho na jogada não acabou bem), e abençoou Abrão, dizendo: ‘Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra! Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos em tuas mãos!’ E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gênesis 14:20). É, meu caro. Esse papo de ‘dê o dízimo para o padre/pastor/sacerdote do Deus Altíssimo’ vem de longe. Se você acha que Abrão é exemplo a ser seguido, entregue sua mulher para o faraó também. E o desprendimento material de Abrão não acaba por aí. “O rei de Sodoma disse a Abrão: ‘Devolve-me os homens e guarda os bens’. ‘Levanto a minha mão para o Senhor Deus Altíssimo que criou o céu e a terra, respondeu Abrão, de tudo o que é teu, não tomarei sequer um fio nem um cordão de sandália, para que não digas: Enriqueci Abrão” (Gênesis 14:21-23). Abrão não quer saber de rabo preso nem ninguém esfregando favor na cara dele.

O tempo passa, e Abrão tem mais uma visão (leia-se “alucinação”) do Senhor Altissíssimo, em que ele diz "’Nada temas, Abrão! Eu sou o teu protetor; tua recompensa será muito grande’ Abrão respondeu: ‘Senhor Javé, que me dareis vós? Eu irei sem filhos, e o herdeiro de minha casa é Eliezer de Damasco.’" (Gênesis 15:1-2). Ok, vamos por partes. Aparentemente, o nome do Glorioso Senhor Altíssimo Criador Do Céu E Da Terra E De Tudo Que Tem O Sopro De Vida é... Javé. Meio decepcionante, né? Outros deuses tem nomes mais impactantes, como Zeus, Thor, Shiva! Mas Javé... sei lá... rima com “nhé”. Enfim, estou devaneando. Sobre a preocupação de Abrão, explico: Sarai era estéril (sorte dela que era gostosa, senão já teria sido trocada por um camelo), e por isso, o herdeiro de Abrão seria o escravo nascido em sua casa, Eliezer.

Mas o Senhor diz: "Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que vai sair de tuas entranhas. (...) Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz... Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência. (...) Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldéia para dar-te esta terra" (Gênesis 15:4-7). Abrão, que parece estar passando por uma crise de autoconfiança, choraminga: “O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?" (Gênesis 15-8).

Agora, amigo leitor, a história descamba para uma seqüência tão sem sentido que faria um hippie chapado em LSD fazer “heim?”. Vamos dar as mãos.

O Senhor diz a Abrão: "Toma uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho." (Gênesis 15:9). Isso, uma rola. Quando a piada já vem pronta, não me resta muito que fazer. Adiante. “Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves” (Gênesis 15:10). Peraí, Abrão! Deus só te disse para “tomar” esses animais! Onde você entendeu que era para esquartejá-los? Um cara desse só pode ser doido. Enfim. “Vieram as aves de rapina e atiraram-se sobre os cadáveres, mas Abrão as expulsou. E eis que, ao pôr-do-sol, veio um profundo sono a Abrão, ao mesmo tempo que o assaltou um grande pavor, uma espessa escuridão.” (Gênesis 15:11-12).

Depois desse ritual psicodélico, o Senhor Javé reaparece para Abrão com uma profecia: “Sabe que teus descendentes habitarão como peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante quatrocentos anos” (Gênesis 15:13), entre outras abobrinhas. E depois, “quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas.” (Gênesis 15:17). Hã?!? Para finalizar, Deus diz: “Eu dou, disse ele, esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates: a terra dos cineus, dos ceneseus, dos cadmoneus, dos heteus, dos ferezeus, dos amorreus, dos cananeus, dos gergeseus e dos jebuseus." (Gênesis 15: 18-21). O que o senhor gosta mesmo de fazer é dar terrenos para Abrão. E acabou.

Achou confuso, chato, complicado e sem sentido? Eu também. Vou tentar resumir estes três capítulos de forma rápida e rasteira:

- Abrão e seu sobrinho Lot dividiram as terras para seus pastores.
- Houve uma guerra, Lot foi seqüestrado e Abrão foi resgatá-lo.
- Nós, leitores, temos que dar o dízimo para o padre/pastor.
- Abrão fica preocupado que não vai ter descendentes. Deus dizer para ele relaxar e gozar. Mesmo.
- Abrão mata um bando de animais, inclusive uma rola, sem o menor propósito.
- Deus diz que os descendentes de Abrão vão ser escravizados por 400 anos. Fim.

Prometo que nos próximos capítulos a história fica mais divertida. Fiquem com Deus.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Gênesis 12

Nos próximos capítulos, vamos acompanhar as aventuras de um personagem muito importante chamado Abrão (isso, Abrão. Eu também achei que estava faltando um “a”, mas vocês não perdem por esperar). O número dele foi sorteado na loteria divina e o Senhor resolveu que, dali para frente, ele iria ajudar a ele e a quem o seguisse. Quem torcesse por outro time, Deus iria foder. Veja: “O Senhor disse a Abrão: ‘Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti’” (Gênesis 12:1-3).

Pois bem. Amanheceu, Abrão pegou a viola, botou na sacola, “tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã” (Gênesis 12:5), e foi viajar. Ele provavelmente “adquiriu” esses escravos numa bela promoção de queima-de-estoque e não podia deixá-los para trás. Chegando à terra de Canaã, “o Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: ‘Darei esta terra à tua posteridade.’ Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido”(Gênesis 12:7). (Nota do autor: Caso o Senhor “lhe apareça”, verifique se a maionese que você comeu no lanche estava na validade antes de edificar um altar. Especialmente se você estava peregrinando pelo deserto, onde maioneses estragam bem rápido).

Abrão seguiu viagem até depois de Betel, onde edificou mais um altar para puxar o saquinho do Senhor. O que parece que não adiantou muita coisa, pois, por causa da fome e da miséria que se abateu no local, Abrão teve que se mudar para o Egito, onde a coisa não estava tão feia. Mas Abrão, esperto que é (ou nem tanto, como veremos), se tocou que sua esposa Sarai era um pitéuzinho de parar o trânsito e disse: “Escuta, sei que és uma mulher formosa. Quando os egípcios te virem, dirão: 'É sua mulher', e me matarão, conservando-te a ti em vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que eu seja poupado por causa de ti, e me conservem a vida em atenção a ti." (Gênesis 12:13). Ah, mas foi tiro e queda! Os egípcios ficaram de queixo no chão com o decote generoso e o rebolar malemolente de Sarai. “Os grandes da corte, vendo-a, elogiaram-na diante do faraó, e a mulher foi introduzida no seu palácio (veja bem, quem introduziu mesmo foi o faraó). Por causa dela, Abrão foi bem tratado pelo faraó, e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos” (Gênesis 12:16). (Por que exatamente “servos e servas” aparece entre “jumentos” e “jumentas” eu não sei. Haveria alguma mensagem subliminar aqui?).

Você leu certo, fiel leitor. Enquanto Sarai brincava de pega-vareta e rolentrando com o faraó, Abrão reabasteceu sua fazendinha ambulante com presentes. Como se não estivesse absurdo o suficiente, Deus apareceu e “feriu com grandes pragas o faraó e a sua casa, por causa de Sarai, mulher de Abrão” (Gênesis 12:17)! Como assim?!? Abrão foi covarde e mentiroso, entregando a esposa como se entrega uma bicicleta velha, para salvar a própria pele. O faraó, por não ter poderes psíquicos, não adivinhou que Sarai era a esposa de Abrão, e passou a vara (ou seria o cetro?) na mulher. E quem Deus, em sua glória, resolveu foder com grandes pragas? O faraó!

Depois de muito bater o dedinho do pé com toda força no pé da mesa; depois de muitas vezes ter sua torrada caindo com a manteiga para baixo; depois de muitas vezes sair do banho e perceber que a toalha já estava molhada, a ficha do faraó caiu. Ele estava sofrendo as pragas do Senhor porque comeu a mulher de Abrão. Puto, e com razão, mandou chamar Abrão e disse: "’Que me levaste a fazer? Porque não me disseste que era tua mulher? Por que disseste que ela era tua irmã, levando-me e a tomá-la por esposa? Mas agora eis tua mulher: toma-a e vai-te (‘para a puta que te pariu’, eu teria adicionado)!’ Então, o faraó deu ordens aos seus para reconduzir Abrão e sua mulher com tudo o que lhe pertencia" (Gênesis 12:19-20). Aparentemente o faraó nem pediu os presentes de volta, tamanha era a pressa para não ter que ver a cara de Abrão. “E os presentes?” teria perguntado Abrão. “Enfia no rabo!” bradaria o faraó.

E essa foi a primeira aventura de nosso amigo Abrão. Agora, será que ele realmente precisaria ter entregado a mulher para o faraó? Não quero parecer repetitivo, mas não seria mais fácil se:

a) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas eu sou um protegido de Deus. Se você me matar e/ou tomá-la como esposa, pragas cairão sobre você!”?

b) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas está com doenças sexualmente transmissíveis que derrubariam um camelo. Coloca a piroca lá dentro e você vai ver o que é praga divina.”?

c) Sarai tivesse disfarçado sua formosura com um travesseiro na barriga, uma verruga falsa na cara ou algo do gênero?

Talvez Abrão não tenha escolhido nenhuma das alternativas porque ele, na verdade, achou ótimo ganhar ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos. Enfim. Acho que é isso.

P.S.: Não quero julgar Abrão por ter seus escravinhos. Essa história foi escrita há mais de 3000 anos atrás (aqui a expressão “mais antigo do que o rascunho da bíblia” se encaixa perfeitamente) e, se qualquer um de nós vivesse naquela época, iria achar a escravidão normal. Eu mesmo teria um escravo digitando este blog para mim. O que me revira o estômago, é que muitas pessoas acham que a Bíblia é uma fonte de valores para os dias de hoje. Mas, acho que já falei disso... obrigado e desculpe.