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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Gênesis 46-47


José pede para que seu pai Jacó tome um banho, por favor.


Há quem diga que a família tem que estar perto o suficiente pra não precisar vir de mala, mas longe o suficiente pra não vir de chinelo. O superintendente do Egito, José, agora franzia a testa pensando se foi uma boa idéia convidar o seu pai Jacó e o resto da família pra morar com ele. Entre filhos, noras, genros, gatos, cachorros, chinchilas e papagaios, eram mais de setenta pessoas. Haja puxadinho pra toda essa gente.

Durante a viagem, o Povo Escolhido resolveu fazer um pit-stop em Bersabéia, pra esticar as pernas, fazer xixi e comprar aquele doce de leite em cubinhos que parece que só tem em parada de estrada. O velho Jacó, depois de horas caminhando no deserto com o sol fritando-lhe a moranga, teve uma alucinação febril. Ou, como os cristãos gostam de dizer, Deus lhe apareceu. "Jacó! Jacó!", bradou Javé numa voz trovejante e com aqueles ecos vagabundos de karaokê. "Eu sou Deus, o Deus de teu pai. Não temas descer ao Egito, porque ali farei de ti uma grande nação. Descerei contigo ao Egito, e eu mesmo te farei de novo subir de lá. José fechar-te-á os olhos"
(Gênesis 46:2-4). O bom Deus vem prometendo esse papo de “grande nação” desde os tempos de Abraão. Até agora eu só vi merda, mas vamos lá.

No Egito, José os esperava na cidade Gessém. Quando viu o velho Jacó, se jogou nos braços dele e caiu no choro. "Agora posso morrer, porque vi o teu rosto, e vives ainda!" (Gênesis 46:30). Óun, mimimi. José disse que ia avisar ao Faraó da chegada de sua numerosa e incômoda família, e que era melhor que eles arreassem as malas aqui em Gessém mesmo, “porque os egípcios têm aversão aos pastores" (Gênesis 46:34) (Olha que coincidência, eu também tenho aversão à pastores. Chega a dar coceira). Se foi uma desculpa que José inventou pra manter a família a certa distância eu não sei, mas colou.

E tão logo o povo escolhido se assentou em Gessém, uma terrível falta de pão começou a assolar o Egito. Filas e quebra-quebra nos supermercados e padarias. Não tinha pão de forma, pão de cachorro-quente, bisnaguinha nem baguete. Só uma casa do Egito tinha uma fartura de pães, bolos e biscoitos: A casa do Faraó! Ah, filhadaputa. O superintendente José havia estocado trigo e agora era tanto pão que até sobrava pra fazer rabanada. O povo esfomeado, que não tinha dinheiro para comprar o trigo do Faraó, juntou-se na porta de José para mendigar. “Dá-nos pão. Por que morreremos na tua presença por falta de dinheiro?" (Gênesis 47:15). O escroto do José apareceu na sacada, degustando lentamente uma rosca glaceada ainda quentinha. Ele olhou o populacho faminto com desdém e gritou: “Vocês estão pensando que aqui é a fila da sopa pra mendigo, porra? Onde já se viu pão de graça? Heim, bando de vagabundo?”. Que pulha. "Trazei vossos animais,” continuou “se não tendes dinheiro, e dar-vos-ei pão em troca" (Gênesis 47:16).

E assim o fizeram. José se apropriou de mulas, camelos, cabras, cavalos e até um guaxinim. E em troca o povo ganhou pão velho, já com as bordinhas fungando. Mas, ao contrário de cabras, pão não tem filhote, e logo acabou. O povo, sem o mel nem a cabaça, foi mendigar novamente na porta de José que, dessa vez, apareceu acariciando uma linda ovelhinha no colo. “O que foi agora, bando de desdentado? Acabou pão? Nhá-há!”. Ao que o povo respondeu “Compra-nos a nós e a nossas terras em troca de pão, e nós e nossas terras seremos escravos do faraó. Dá-nos sementes, para que vivamos e não morramos, e não seja desolado o nosso solo" (Gênesis 47:19).

E assim José, o herói bíblico do momento, o escolhido por Javé, o exemplo a ser seguido, escravizou todo um povo quando ele estava mais vulnerável. Pudera os cristãos serem tão bons de negócio  hoje em dia. E caso você esteja se perguntando, José não escravizou sua própria família. Essa já estava por cima da carne seca em Gessém. A Glória!

Mas nem tudo eram flores e escravos na vida de José. Seu pai Jacó estava com cento e quarenta e sete anos (parece mentira, né?) e um pé na cova. O velho chamou seu filho para o leito de morte e disse: “Se achei graça diante de teus olhos, mete, rogo-te, tua mão debaixo de minha coxa e promete-me, com toda a bondade e fidelidade, que não me enterrarás no Egito” (Gênesis 47:29). De novo esse papo de meter a mão embaixo da coxa. Que fetiche bizarro. E o último desejo do velho era não ser enterrado nessa terra de gente estrangeira. Ica! José respondeu “claro, papai”, mas pensando “porra, não dava pra pedir algo mais fácil? Tipo tocar Michel Teló no funeral… ou enterrar ele com sua guitarra favorita… sei lá”.

E foi isso. Ao que tudo indicava, era o fim do velho Jacó. Tá triste?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Genesis 39


José encrencado no xilindró!

Erguei as mãos, infiéis! Erguei as mãos! Vocês lembram da história de José? Nem eu. Mas trocando em miúdos, José era o xodó do pai Israel e, por isso mesmo, o desafeto de todos o seus outros irmãos. Num belo de um balaio de gato, José acabou sendo comprado como escravo pelo eunuco Putifar, ex-ator pornô e atual chefe da guarda do Faraó Egípcio. E é assim que começa nosso capítulo, com Zezinho residindo e trabalhando na casa do patrão.

Mas José era um cara que tinha nascido com a bunda virada pra lua. “O Senhor estava com José, e tudo lhe prosperava” (Gênesis 39:2). E o Faraó percebeu que José era um cara ponta firme e confiou-lhe todos os seus bens e empreendimentos. E “o Senhor abençoou a casa do egípcio, por causa de José: a bênção do Senhor desceu sobre tudo o que lhe pertencia, na casa como nos campos” (Gênesis 39:5). Até o sinal do celular ficou mais forte e a internet parou de cair. Quando a benção do Senhor desce, desce com tudo!

A coisa ia muito bem até o surgimento de um fator complicante: A mulher do Faraó (não, a Bíblia não se dá ao trabalho de dar um nome à ela) resolveu que queria dar para José. Aí, meu caro, o caldo engrossou. Uma bela noite ela se aproximou de José vestindo uma toga pra lá de provocante e disse: “Dorme comigo.” (Gênesis 39:7). “Dorme comigo, seu pedaço de mau caminho!”. Mas nosso herói não queria furar o zóio de seu patrão e resistiu ao lânguido flerte da primeira-dama. “Como poderia eu cometer um tão grande crime e pecar contra Deus?” (Gênesis 39:9). E logo correu para o banheiro pra tomar aquela ducha gelada. Mas as investidas da mulher-do-Faraó continuaram diariamente e José se esquivava como podia. A mulher queria dar de qualquer jeito. Dava pra assar um espetinho de carne no calor que saía debaixo daquela toga! Misericórdia! Quando ela não se agüentava mais, agarrou José pelo manto e deu um ultimato: “Me possua, seu lindo!” Mas José era de ferro (ou a mulher era muito broaca mesmo) e saiu correndo, deixando-a com o manto na mão. E esse foi seu erro.

A mulher-do-Faraó, enfurecida por ter sido rejeitada como um tomate xoxo na feira, levou o manto para seu marido e disse: “O escravo hebreu que nos trouxeste, veio à minha procura para abusar de mim. Mas, pondo-me a gritar, deixou o seu manto ao meu lado e fugiu" (Gênesis 39:17-18). Filha da puta! Isso é calúnia! Tá lá no Código Penal, Artigo 138, confere? Mas o Faraó não quis saber. O seu escravo favorito, a quem lhe havia confiado até as cabras, meteu-lhe uma bola nas costas assim, sem dó? “Cadeia nele!”, bradou o Faraó, “Cadeia nele!”, e saiu batendo portas e chutando cadeiras. José foi enquadrado pela guarda faraônica, “teje preso!”, e imediatamente encaminhado para o presídio. Ô castigo, viu?

Mas como você bem sabe, amigo leitor, José era um dos predestinados, um dos sorteados na loteria cósmica do nosso Bom Javé. E onde ele ia, a benção divina ia atrás. Não demorou muito para que o carcereiro-chefe percebesse que Zé era o cara: gente fina, boa pinta e cheio de tereco-teco. Logo, José foi promovido de prisioneiro a ajudante de carcereiro, ficou responsável por todos os prisioneiros e nunca mais teve que abaixar para pegar o sabonete no banho coletivo. Ninguém soltava um pum que não tivesse o aval de José. Glória ao povo de Javé!

Que enrascadas será que aguardam nosso herói na sua nova vida no presídio?

domingo, 12 de junho de 2011

Gênesis 36-37


"Desce, filhadaputa!"


A Glória! A Glória, pois é com a graça de Javé que nossa história continua. Não são poucos os capítulos das Sagradas Escrituras Sagradas que são uma longa e entediante lista de descendentes de algum personagem notável. No trigésimo sexto capítulo de Gênesis, conhecemos as gerações de Esaú, irmão de Jacó, bruto, peludo, e que cozinha um guisado que só ele. Alguns nomes já são uma piada pronta, como Elifaz ou Amaleque. Outros são bons para quando você não sabe como batizar seu cágado de estimação, como Zibeão ou Husão. Mas a verdade é que esses capítulos servem para drenar a vontade de alguém ler a Bíblia de cabo a rabo. Melhor deixar pro pastor ou padre escolher e interpretar as partes importantes pra mim, não é? Nananina-não! Aqui não, Zibeão! Nós vamos até o fim!

Pois no capítulo seguinte conhecemos um importante personagem de nossa saga: José, filho favorito de Jacozito-Israel. “E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice (leia-se ‘filho da catuaba selvagem com amendoim); e fez-lhe uma túnica de várias cores” (Gênesis 37:3). Gente, que fashion! Israelito era um velho antenado nas últimas tendências, e sabia que túnica multi-color voltou COM TUDO nessa coleção Outono-Inverno! Que melhor presente para Zezinho? A-rra-sou! Mas esse xodó de Jacó com José servia também para irritar seus ciumentos irmãos. Entre eles, diziam “Lá vem o cocozinho do José e sua túnica multi-colorida... e eu aqui com essa túnica cor de brim cru... tão coleção-passada!”. E como se não bastasse, José contou-lhes dois sonhos nada modestos que teve: “estávamos ligando feixes no campo, e eis que o meu feixe se levantou e se pôs de pé, enquanto os vossos o cercavam e se prostravam diante dele" (Gênesis 37:7). O feixe de José subindo rijo e teso e os feixes de seus irmãos descendo. Fálico, né? E no outro sonho “o sol, a lua e onze estrelas prostravam-se diante de mim” (Gênesis 37:9). Mas é muita cara de pau! Fritas acompanha?

Pois num tórrido e escaldante dia no Oriente-Médio, os irmãos mal-amados de José estavam nas terras de Siquém fazendo o que todo bom nômade do deserto faz de melhor: arrebanhando cabras, bodes, carneiros e ovelhas. Já no meio do expediente, José resolve dar o ar da graça. “Eis o sonhador que chega. Vamos, matemo-lo e atiremo-lo numa cisterna; diremos depois que uma fera o devorou; e então veremos de que lhe aproveitaram os seus sonhos” (Gênesis 37:19-20), disseram os irmãos de Zé. É isso mesmo! Resolveram dar um fim no folgado, desovar o presunto num poço e ainda por a culpa numa besta errante! E eu desafio qualquer um a falar “matemo-lo”com a boca cheia de pão! Mas um dos irmãos, Rubem, era da turma do deixa disso. “Não lhe tiremos a vida, não derrameis sangue. Jogai-o naquela cisterna, no deserto, mas não levanteis vossa mão contra ele” (Gênesis 37: 21-22). E assim o fizeram. Deram-lhe um cascudo, “despojaram de sua túnica, daquela bela túnica de várias cores que trazia, e jogaram-no numa cisterna velha, que não tinha água” (Gênesis 37:23-24), só de samba-canção.

Mas o infortúnio de José estava só começando. Após terem arremessado o inconveniente cisterna abaixo, os irmãos sentaram para fazer uma farofada. Tiraram o franguinho frito do isopor, abriram uma cervejinha, Rubem bombou o pagodinho no seu celular que toca mp3 e skitum, skitum, skitum- “peraí Rúbi!”, interrompeu um dos irmãos, “Ô Rúbi! RÚBI, caráio! Desliga essa porra aí!”. Rubens cortou o som e “eis que, levantando os olhos, viram surgir no horizonte uma caravana de ismaelitas vinda de Galaad” (Gênesis 37:25). Ismaelitas, tradicionais comerciantes madianitas que varavam o deserto em seus camelos, oferecendo produtos a preços imbatíveis. Pois um dos irmãos, Judá, viu ali a chance de tirar um trocado: Por que não vender o enjoadinho do José como escravo para os Ismaelitas? “E, quando passaram os negociantes madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos Ismaelitas, que o levaram para o Egito” (Gênesis 37:28). Ca-tchin!

Os irmãos mataram um cabrito e usaram o sangue para empapar a bela túnica de José. E ainda deram um regaço, ralando no chão, cuspindo em cima e esfregando no racho da bunda para arrebentar o tecido. Que bando de arruaceiros! Quando levaram o trapo para o velho Jacó, ele despirocou de vez. “É a túnica de meu filho! Uma fera o devorou! José foi estraçalhado!" (Gênesis 37:33). Pobre Jacó! Estava certo de que seu favorito já tinha virado bosta uma hora dessas, “e, rasgando as vestes, cobriu-se de um saco, e chorou o seu filho por muito tempo” (Gênesis 37:34). Que figura mais ridícula, chorando enrolado num saco velho. Mas a verdade é que José não tinha virado bosta coisa alguma. “Os madianitas venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do faraó e chefe da guarda” (Gênesis 37:36). Sorte de José que esse tal de Putifar era eunuco porque, se bem me lembro, ele estava de samba-canção.

O que será de José, agora vendido como um escravo para o Faraó? A resposta você só encontra aqui, n’A Bíblia com Limão e Gelo! (Ou na bíblia de verdade também, claro.)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Gênesis 34



A Santíssima Sagrada Bíblia Sagrada Santíssima está repleta de lindas histórias, dignas de serem recitadas como contos de ninar ao leito de rebentos inquietos. Verdadeiras lições de vida. E assim, meu caro, é Gênesis 34. Me acompanhe.

Em nossa saga, a privilegiada família de Jacozito havia recém mudado de volta para a terra de Canaã. Diná, uma de suas filhas, saltitava inocentemente pela nova vizinhança quando foi avistada pelo príncipe Siquém (Si-quem?), filho do governante local e inventor da pomada para hemorróidas, rei Hemor. Siquém, playboy filhadaputa que era, ao avistar a tetéia da Diná, não teve dúvida: “raptou-a e dormiu com ela, violentando-a” (Gênesis 34:2). Seqüestro seguido de estupro, caro leitor. Mas o meliante tinha um lado fofinho. “Ele amou a jovem, e soube falar-lhe ao coração” (Gênesis 34:3). Chorei.

Siquém (Si-quando?) choramingou para seu papai que queria casar com Diná. Hemor, que não sabe dizer não para seu pequeno campeão, foi ter com Jacó. "Meu filho Siquém está enamorado de vossa filha; dai-a por mulher, eu vos peço” (Gênesis 34:8). O problema nisso tudo, é que os irmãos de Diná, Simeão e Levi, não estavam nada satisfeitos com essa avacalhação de seqüestro e estupro. Porra! Nem levou a menina pra um cineminha antes! "Dar nossa irmã a um incircunciso,” disseram os irmãos, “é uma coisa que não podemos fazer, porque isto seria desonroso para nós. Só acederemos ao vosso desejo à condição de que vos torneis como nós, e que todos vossos varões sejam circuncidados” (Gênesis 34:14-15). Calma que eu explico. Caso você não se lembre, o Senhor Javé resolveu que iria marcar o seu povo xodó pelo pinto. Dentre todas as marcas que poderiam ser, uma tattoo, um corte de cabelo moicano, um aperto de mão maneiro, Deus declarou que todos descendentes do povo escolhido deveriam ser circuncidados. Ele não gosta do bilau parecendo o pescoço de uma tartaruga. E para que Simeão e Levi aceitassem que sua irmã se misturasse com a gentalha de Hemor e Siquém, todos os homens do reino, não importando se varões, varinhas ou varetas, deveriam ser circuncidados. Mas o que Hemor não sabia, é que esse era a primeira etapa de um terrível plano de retaliação dos Irmãos Chapeleta. Tremei.

E assim foi feito. A primeira fez tchan, a segunda fez tchun e todos os homens do reino foram circuncidados. Era pele de pinto suficiente para matar a fome de um exército. Ica. E falando em exército, isso era uma coisa que o reino de Hemor não tinha. Todos os homens estavam de cama, com seus varões latejantes e doloridos, e essa era a deixa para início da segunda etapa do genial plano de Simeão e Levi. “Tomaram cada um sua espada, penetraram na cidade, que de nada desconfiava, e mataram todos os varões. Passaram ao fio de espada também Hemor e Siquém (Si-fudeu, né?), seu filho” (Gênesis 34:25-26). Foi faca na caveira. E de quebra “tomaram suas ovelhas, seus bois, seus jumentos e tudo o que havia na cidade como nos campos. E levaram como espólio todos os seus bens, seus filhos, suas mulheres e tudo o que se encontrava em suas casas” (Gênesis 34:28-29). Assassinaram, pilharam e levaram crianças e mulheres como escravos. Esse sim é o povo de Javé que eu conheço!

Agora, herege leitor, imagine que você é um humilde camponês no reino de Hemor. Você labuta como um condenado, sob o escaldante sol do deserto, para que você, sua esposa e seus filhos tenham o que comer. Um belo dia, seu rei decreta que todos os homens devem tirar a pele da chapeleta. Isso te parece mórbidamente estranho, mas você é um cara tranqüilo, que não quer confusão com as autoridades, e se submete à circuncisão. Procedimento, perceba, feito com todo o avanço médico que a Idade do Bronze oferece: Um gole de pinga como anestesia e um facão enferrujado como bisturi. Mas borá lá! Enquanto se recupera da mutilação, um estranho entra com o pé na porta da sua casa e você, incapacitado pelo inchaço peniano, é assassinado. De brinde, sua mulher e filhos são levados como escravos! Putaquetepariu! Não fazer parte do Povo Escolhido é uma merda, heim? Mas me perdoe, estou divagando.

O patriarca Jacó/Israel, que estava mais por fora que cotovelo de caminhoneiro, ficou puto quando soube do genocídio. “Só tenho comigo alguns homens e, quando toda essa gente se congregar contra mim para me ferir, perecerei com minha família" (Gênesis 34:30). Os Irmãos Chapeleta, para justificar as atrocidades, disseram: “Porventura, devíamos deixar tratar nossa irmã como uma prostituta?" (Gênesis 34:31). Poxa, eles tem razão, né? Não foi nada desproporcional essa retaliação. A mensagem é que você deve pensar duas vezes antes de tentar sacanear os descendentes de Abraão. Que linda historinha! O que ninguém lembrou foi de perguntar a Diná o que ela achava disso tudo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gênesis 30 (parte 2) - 31


Labão, o arameu, e seus irmãos cruzam o deserto em busca de Jacó.

Jacozinho há muito vivia de parasita na casa do duplo-sogro e tio Labão. E como se não bastasse ter abocanhado duas filhas e duas escravas, resolveu que ia se apossar de uma parte do rebanho de ovelhas que ele ajudou a criar. Para isso, Jacó sugeriu que ele ficasse com os animais malhados e deixasse os brancos para Labão. "Está bem, seja como dizes" (Gênesis 30:34), disse tio Labs. O que ele não sabia era que seu genro/sobrinho queria lhe sacanear, passar a perna, apunhalar pela costas. 171 mesmo. Digno de um descendente direto de Abraão. Jacó, orientado pelos anjos de Javé, selecionou repetidamente cabras fortes e saudáveis para cruzar com fêmeas malhadas, e cabras raquíticas e mal nutridas para cruzar com fêmeas brancas. Dessa forma, ele deixou Labão com um rebanho de bosta.

O que é mais irônico é que, o que Jacó fez, se chama seleção artificial. Se ele tivesse pensado sobre o assunto mais um pouquinho, ele poderia ter formulado A Teoria da Evolução! Quantos problemas isso teria evitado! Hoje não teríamos psicóticos fundamentalistas falando de criacionismo e nem psicóticos fundamentalistas disfarçados de cientistas falando de design inteligente! E Darwin poderia ter dedicado sua vida exclusivamente para colecionar besouros, que é o que ele gostava. Droga.

Mas estou divagando. A verdade é que a situação na casa de Labão se tornara insuportável. Ele estava puto com Jacó por ter fodido com o rebanho dele. Suas filhas Raquel e Lia também estavam desgostosas com o pai. “Não nos tratou ele como estrangeiras, vendendo-nos e devorando o nosso dinheiro?” (Gênesis 31:15). (estrangeiras que Jacó aceitou de bom grado, aliás). Imaginem o silêncio constrangedor na mesa do jantar. Labão, Jacó, Raquel, Lia, Bala, Zelfa e 13 filhos. O som de talheres e mastigação interrompido por um ocasional, seco e sarcasticamente polido “passe o sal”. Que clima! De saco cheio, Jacó, suas mulheres e sua prole resolveram fugir na calada da noite, escondidos de Labão, rumo a Canaã. Raquel, na hora da fuga ainda surrupiou os terafim de seu pai (sim, eu também tive que procurar no Google o que são terafim. São, pasmem, bonequinhos de divindades. Algo tão ridículo quanto imagens de santos. Mas que também serviam de vale-herança naqueles tempos. Capisce?).

Três dias depois, soube Labão da fuga de Jacó” (Gênesis 31:22). O velho era astuto como uma raposa! Só três dias! Pois tio Labs e seus irmãos montaram em suas motocicletas e saíram em disparada pelo deserto, seguindo o rastro do traiçoeiro Jacó. “Deus, porém, apareceu num sonho noturno a Labão, o arameu, e disse-lhe: ’Guarda-te de dizer algo a Jacó’”(Gênesis 31:24). Em outras palavras, “mesmo ele tendo te sacaneado, deixa pra lá porque ele é meu queridinho”. Foda, viu?

Nas montanhas de Galaad, Labão alcançou o cabra-safado do Jacó. “Que fizeste? Tu me enganaste, e conduziste minhas filhas como prisioneiras de guerra! Por que fugiste dessa forma, e me lograste em lugar de me avisar? Eu te teria despedido com manifestações de júbilo e com cânticos, ao som do tamborim e da harpa” (Gênesis 31:26-27). O imbecil do Jacó perdeu uma festa com tamborim e harpa! Mas o que Labão estava puto mesmo era com o sumiço dos seus bonequinhos. “Por que roubaste os meus deuses?" (Gênesis 31:30). E, então, pôs-se a revistar as tendas do bando de Jacó. Chegou à tenda de Raquel que, num ato de desespero (e talvez de necessidade), sentou em cima dos roliços terafim. E ainda disse "Não se irrite o meu senhor, se não posso levantar-me em sua presença, pois acho-me agora com a indisposição que costuma vir às mulheres" (Gênesis 31:35). Não é um jeito ótimo de se dizer menstruação? A-indisposição-que-costuma-vir-às-mulheres. E nem ouse levantar-se na presença de seu pai, ok?

Mas, voltando à nossa história, Labão estava puto e, agora, Jacó também estava puto por estar sendo acusado de ladrão de bonequinhos. Como eles poderiam resolver esse impasse? Simples, meu ávido leitor: Eles ergueram um monumento de pedra em homenagem àquele que adora ser homenageado: Javé! E voilá, estava resolvido. Jacó “ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer” (Gênesis 31:54). Uma pilha de pedras e um churrasco. Que jeito mais idiota de se acabar uma história que já estava ruim.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Gênesis 30 (parte 1)



Raquel, a esposa #1 de Jacó, estava puta da vida por ser estéril, enquanto Lia, esposa #2 e irmã mais velha, já tinha parido mais do que uma coelha. De mão na cintura e batendo o pézinho, bradou para Jacó: “Dá-me filhos, senão morro!” (Gênesis 30:1). Jacó, como um verdadeiro cavalheiro, respondeu: “Acaso posso eu pôr-me no lugar de Deus que te recusou a fecundidade?” (Gênesis 30:2). Jacó sabia que O Bom Senhor tinha murchado os ovários dela. Na Bíblia, mulher boa cala a boca e pare filhos, e #1 não estava fazendo nada disso. Mas ela mesma tinha a solução. “Eis minha serva Bala: toma-a. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos e assim, por ela, terei também filhos.” (Gênesis 30:3). A escrava Bala, a doce, agora seria promovida a #3 para gerar rebentos. Soa familiar ? Eu só não consigo visualizar como #3 dará à luz sobre os joelhos de #1 e como isso vai fazer com que o filho seja de #1. Pra mim, só vai dificultar o serviço do obstetra. Mas enfim, foi com esse esquema pornô-escravagista que nasceram Dã (dizem que ele aprendeu a falar o próprio nome com apenas 2 semanas de vida!) e Neftali.

Enquanto isso, observando tudo de cima, O Bom Senhor estava entediado. E, da mesma forma que uma criança mimada cutuca seus hamsters, Javé desativou os ovários de Lia, a #2. Ela já sabia o protocolo e, sem pestanejar, entregou sua escrava Zelfa para Jacó bimbar. Essa é a #4, caso você também esteja contando. E assim nasceram Gad e Aser. Javé bocejou de novo e shazam!, reativou a oogênese de #2, que pariu Issacar, Dina e, a cereja no bolo de nomes horríveis, Zabulon.

Acha que acabou? “Lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e tornou-a fecunda.” (Gênesis 30:17). Mas como assim “lembrou-se”? O fidiputa não é onisciente? E todo o sofrimento de #1 foi porque Javé tinha esquecido dela? Ele perdeu a ficha dela na bagunça da escrivaninha? Sério, pelas barbas de Abraão, viu! Enfim, finalmente fecunda, #1 embuchou e pariu. E como não tinha tanto apreço por nomes estrambólicos, chamou seu rebento de José.

Trocando em miúdos, foram quatro parideiras, um exército de filhos e o Bom Senhor embaralhando as cartas ligando e desligando ovários. Como se já não estivesse claro o suficiente, essa parábola reforça o papel da mulher na Santíssima Bíblia Sagrada: uma parideira cujo valor é medido por quantos filhos ela consegue gerar. Some isso as já familiares poligamia e escravidão e você tem um livro que não só é confuso e repetitivo, mas que insiste em dar os mesmos maus exemplos. Eu não sei você, mas eu estou com dor de cabeça de acompanhar essa história. Por isso dividirei esse capítulo em dois, visto que a segunda parte tem pouca conexão com as peripécias poligâmicas de Jacózinho. Glória!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Gênesis 29


"Europeus branquinhos que não tem nada a ver com nossa fábula do Oriente Médio" - William Dyce, óleo sobre tela.

Erguei as mãos e dai glória a Deus! Se você chegou agora à Bíblia Cítrica, não tema infiel! Tamanha é a minha misericórdia, que recapitularei o que você precisa saber para pegar o camelo andando. Jacó é o herói do momento. Descendente de Abraão e figurão do povo escolhido pelo Senhor, ele saiu numa jornada pelo deserto, rumo à casa de seu tio Labão. Lá, ele pretende escolher uma prima para desposar, no intuito de não se misturar e afinar o sangue com a gentalha que não foi escolhida por Javé. Gentalha, gentalha, gentalha. Tá comigo? Então vamos em frente.

Nos arredores de Harã, cidade onde vivia o tio Labs, havia um poço para ovelhas beberem água. E, tampando esse poço, uma puta de uma pedra pesada pra caralho. Quantos pastores já não rasgaram um pum ao tentar erguê-la sob o sol escaldante de meu Deus! "Conheceis porventura Labão, filho de Nacor?" (Gênesis 29:5), disse o forasteiro Jacó, tentando puxar um papo com os locais. “Sim”, respondeu um pastor sorrindo com seus quatro valiosos dentes, “e eis justamente sua filha Raquel que vem com o rebanho.” (Gênesis 29:6). Putaqueopariu! Que sorte! Jacó viu a oportunidade perfeita para impressionar sua prima: Erguer a tampa do poço com seus braços fortes, viris e abençoados por Javé! Entretanto, por algum motivo, a coisa descamba. Veja. “Logo que Jacó viu Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, aproximou-se, rolou a pedra de cima da boca do poço e deu de beber às ovelhas de Labão”. Boa Jacózinho! Tá indo bem! “Depois beijou Raquel e pôs-se a chorar.” (Gênesis 29:10-11). Má-como?!? Que porra é essa de lascar um beijo assim sem pedir licença? E depois cai no choro? Comestes cocô, Jacó? Talvez, mas funcionou.

Depois desse papelão, Raquel levou Jacó para sua casa eles contaram tudo para o tio Labão. "Sim, tu és de meus ossos e de minha carne.” (Genesis 29:14), disse o velho numa brilhante constatação. De olho na prata da casa, Jacózinho foi ficando de hóspede e ajudando na labuta diária. Passado um mês, tio Labs, temendo ser pego por leis trabalhistas, disse: "Acaso, porque és meu parente, servir-me-ás (percebam o certeiro uso da mesóclise) de graça? Dize-me que salário queres." (Gênesis 29:15). Jacó não queria salário, vale refeição nem o dinheiro do busão. Jacó queria Raquel! “Eu te servirei sete anos por Raquel tua filha mais nova." (Gênesis 29:18). Labão refletiu por um minuto, coçando sua enorme laba, e topou o negócio. “Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha.” (Genesis 29:20). Lindo, né? Mas o romantismo acaba por aí. A pornochanchada bíblica que tanto gostamos começa agora.

Após sete anos na punheta, finalmente chegou o grande dia em que Jacó iria se casar com Raquel, e titio Labão convidou a cidade inteira para um grande banquete, com três ambientes (eletrônica, pop-rock e flashback), sushi bar e manobrista. Mas Labão tinha um plano secreto para pôr em prática: Acabado o bacubufo do caterefofo, ele iria conduzir sua filha Raquel à suíte de Jacó mas, ao invés disso, conduziu a irmã mais velha de Raquel, Lia! E, talvez por uma soma do quarto escuro com o porre da festa, Jacó traçou Lia! Carái véi! Pela manhã, Jacó acordou de ressaca e percebeu que havia acertado a bola na caçapa errada. "Que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Por que me enganaste?", bradou para Labão, que respondeu: “Aqui não é costume casar a mais nova antes da mais velha. Acaba a semana com esta, e depois te darei também sua irmã, na condição que me sirvas ainda sete anos." (Gênesis 29:25-27). Jacó topou na hora. E de quebra, Labão ainda deu uma escrava chamada Zelfa como brinde por ele ter traçado Lia. Como aquelas promoções que, comprando um xampú, vem um condicionador de graça. E uma semana depois, Jacó finalmente desposou sua amada Raquel e, como a promoção ainda estava valendo, levou a escrava Bala de brinde (dizem que ela era um doce!).

E adivinha quem entra em cena para cagar em cima do que já estava fedendo? Ele! Javé! Não sei você, mas eu estava com saudades dos caprichos do Senhor. Ele viu que Jacó gostava mesmo de Raquel e só usava Lia como uma boneca inflável, e não gostou nada disso. Então ele estendeu sua poderosa mão em direção a Lia e shazam! “tornou-a fecunda enquanto Raquel permanecia estéril” (Gênesis 29:31). O Senhor, em sua glória e onipotência, gosta de intervir na vida mundana ligando e desligando os ovários das mulheres. É difícil de levar a sério um personagem desses. Jacó, apesar de amar mesmo Raquel, não acanhou-se de passar repetidamente a vara em Lia, que pariu os rebentos Rubem, Simeão, Levi (o inventor da calça jeans) e Judá.

O capítulo acaba aqui, mas o show de horrores na família poligâmica de Jacó não. Você não perde por esperar!

sábado, 19 de junho de 2010

Gênesis 27

"Ah safado!" de Govert Flinck. Óleo sobre tela.

Isaac estava mais velho que andar pra frente e cego como uma toupeira. Enjoado de escutar seu radinho AM, resolveu pentelhar a vida de Esaú, seu filho favorito. “Tu vês, estou velho e não sei quando vou morrer”, disse o velho gagá. Quando alguém começa a conversa com uma chantagem emocional, é porque vai pedir coisa. Veja. “Toma as tuas armas, tua aljava e teu arco, vai ao campo e mata-me uma caça. Prepara-me depois um prato suculento, como sabes que gosto, e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra." (Gênesis 27:2-4). É na base do toma lá - dá cá. O velho dá a benção se Esaú encher a barriguinha enrugada dele.

Rebeca, esposa de Isaac, devia estar cansada de enxugar baba e brincar de “pra-que-lado-cai?” com a benga do velho. Por isso resolveu sacaneá-lo e, de quebra, ajudar Jacó, irmão de Esaú e queridinho da mamãe. Ela escutou por detrás da porta quando Isaac alugou Esaú, e foi logo correndo para Jacó: “Ouve-me, pois, meu filho, e faze o que te vou dizer. Vai ao rebanho e traze-me dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato suculento para o teu pai, como ele gosta, tu lho levarás e ele comerá, a fim de que te abençoe antes de morrer." (Gênesis 27:8-10). A víbora quer que Jacó se passe por Esaú para roubar essa tão cobiçada benção. Se fosse por mim, Isaac podia enfiar essa benção no rabo. Enfim. Mas Jacó, que se depila toda quinta com cera marroquina, questiona: “Mas Esaú, meu irmão, é peludo, enquanto eu sou de pele lisa. Se meu pai me tocar, passarei aos seus olhos por um embusteiro e atrairei sobre mim uma maldição em lugar de bênção." (Gênesis 27:11-12). Jacozinho fica relutante não por princípios, mas por medo do tiro sair pela culatra. É filho da mãe mesmo! Mas Rebeca não bate prego sem estopa, e já tinha pensado nesse problema da hipertricose de Esaú.

Em seu plano maquiavélico, Rebeca preparou o prato com os cabritos, “escolheu as mais belas vestes de Esaú, seu filho primogênito, que tinha em casa, e revestiu com elas Jacó, seu filho mais novo. Cobriu depois suas mãos, assim como a parte lisa do pescoço, com a pele dos cabritos” (Gênesis 27:15-16). Ó-quêi-pó-pará! Esse é o plano genial de Rebeca? Cobrir a pele de Jacó com pele de cabritos para ele ficar peludo como Esaú? Sério, ou Esaú é tão, mas tão peludo que faz o Tony Ramos parecer uma rã; ou esse plano vai dar muito errado; ou, ainda, Isaac está mais gagá do que a gente imagina. E assim foi Jacó, fantasiado de cabrito fantasiado de Esaú, levar o prato para Isaac. Que papelão.

Jacó entrou no quarto e acordou o velho. "Meu pai!" "Eis-me aqui!”, balbuciou Isaac. “Quem és, meu filho?". Jacó, na cara dura respondeu: “Eu souCOF! [engrossa a voz] Eu sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me pediste. Levanta-te, assenta-te e come de minha caça, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:18-19). E o Oscar vai para… “Como encontraste caça tão depressa, meu filho?", perguntou Isaac, desconfiando que havia algo de podre no ar. "É que o Senhor, teu Deus, fez que ela se apresentasse diante de mim." Sei, sei! O velho parece não estar completamente convencido: "Aproxima-te, então, meu filho, para que eu te apalpe e veja se, de fato, és o meu filho Esaú." (Gênesis 27:20-21). Heim?!? “Para que eu te apalpe”?!? Ica! Deus me livre! Mas enfim, agora a gente vai ver se os efeitos especiais de Rebeca funcionam mesmo. Isaac ‘apalpou’ Jacó e sentiu pelos dignos de um cabrito (porque eram mesmo) em suas mãos. “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú." (Gênesis 27:22). Então, concluiu o velho gagá, é Esaú. O curioso é que Deus, que faz os ovários de uma mulher estéril funcionar, não devolve a visão a Isaac. Nem manda um anjo para dar um tapa na nuca de Isaac e dizer “acorda, velho idiota!” Não. Ele não faz nada. Talvez porque ele não dê a mínima e já esteja de saco cheio dessa história, como eu e você.

Mas enfim, Isaac finamente resolve dar essa tal de benção para o falso Esaú. “Aproxima-te, meu filho, e beija-me." E sentindo sovaqueira emanando das roupas de Esaú que Jacó vestia disse: “Sim. O odor de meu filho é como o odor de um campo que o Senhor abençoou.” Tamanho era o fedor das vestes de Esaú que Isaac não percebeu o cheiro de laquê e pó-de-arroz de Jacó. “Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, uma abundância de trigo e de vinho! Sirvam-te os povos e prostrem-se as nações diante de ti! Sê o senhor dos teus irmãos, e curvem-se diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar!" (Gênesis 27:26-29). Linda benção, né? “Que você seja rico e poderoso e quem for contra você que tome no cu”. Bem no espírito bíblico.

Pois tão logo Jacó tinha picado a mula, chegou o coitado do Esaú, peludo e vermelho, trazendo o prato que lhe foi encomendado. “Levanta-te, meu pai, e come da caça do teu filho, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:31). “Mas será o caralho?” pensou o velho Isaac, “fiquei gagá de vez? Eu não acabei de abençoar esse f...”. E então, a ficha caiu. Isaac foi ludibriado e por isso ficou puto. “Quem é, pois, aquele fidiputa que foi à caça e me trouxe o prato que eu comi antes que tu voltasses? Eu o abençoei, e ele será bendito." (Gênesis 27:33). Esaú soltou um grito cheio de amargura, mais ou menos assim: “Mmmmmmuuuuuhhuuuuéééééénnnhhéééé… é…” e disse: “Abençoa-me também a mim, meu pai!" "Teu irmão, respondeu-lhe Isaac, veio, fraudulentamente, tomar a tua bênção." (Gênesis 27:34-35). Esaú já estava farto de Jacózinho puxando seu tapete! Porra! Assim não dá! "Será porque ele se chama Jacó que me suplantou já duas vezes? (hã?) Tirou-me meu direito de primogenitura, e eis que agora me rouba minha bênção! Não reservaste, porventura, uma bênção também para mim?" (Gênesis 27:36). E Esaú pôs-se a chorar. Mimimimi.

Isaac poderia dizer “Deus te abençoe, meu fi” e resolver o problema. Pronto, todo mundo iria pra casa feliz. Mas não, ao invés disso ele resolve fazer uma profecia. "Eis que a tua habitação será desprovida da gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás de tua espada, servindo o teu irmão, mas, se te libertares, quebrarás o seu jugo de cima do teu pescoço." (Gênesis 27:39-40). Traduzindo, “o seu irmão mentiroso quis roubar sua benção. Eu sou gagá e idiota e deixei. Agora você vai se foder como escravo dele, a não ser que você mate ele, ok?”. E no cu, não vai nada? Esaú, amassando furiosamente uma latinha de cerveja, disse “Virão os dias do luto de meu pai, e matarei meu irmão Jacó." (Gênesis 27:41). Tenso. Rebeca, para proteger seu neném Jacó, manda-o para tirar umas férias na casa o tio Labão (aquele da laba grande), até que Esaú esqueça da mágoa. E do jeito que Esaú é abestalhado, é capaz que esqueça mesmo. E, ufa, acabou.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Gênesis 23-24


Celebrai! A boa notícia é que Gênesis 23 pode ser trocado em miúdos: Sara, a mulher-maçaneta (que todo mundo passou a mão), empacota aos 127 anos de idade. Abraão, querendo um bom jazigo para sua defunta, a enterra numa caverna na terra de Efrom. E fim.

A má notícia é que Gênesis 24 é um capítulo um pouco mais longo. Mas juntos chegaremos lá! Avante.

O velho Abraão chama seu mais antigo e fiel escravo e diz “Mete tua mão debaixo de minha coxa.” (Gênesis 24:2). Ó-quêi-pó-pará! Teria o velho ficado pervertido com a ausência de Sara? Mete a mão debaixo da coxa? E depois? Cheira? Ica. Mas não é nada disso, hereges pecadores da mente pútrida e pestilenta. Era desse jeito que se fazia uma promessa nos tempos bíblicos. “Quero que jures pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não escolherás para mulher de meu filho nenhuma das filhas dos cananeus, no meio dos quais habito; mas irás à minha terra, à minha parentela, e lá escolherás uma mulher para o meu filho Isaac." (Gênesis 24:3-4). Abraão quer que seu filho mantenha a tradição endogâmica familiar e não se misture com a gentalha que o cerca, por isso pede ao seu servo que vá buscar uma mulher em sua terra natal.

Mas o astuto escravo sabe que a coisa pode ser mais complicada: Um camelo vai para onde você puxar. O escravo, ao contrário de Abraão, sabe que uma mulher é um pouco diferente de um camelo, e indaga: “Talvez essa mulher não me quererá seguir a esta terra; nesse caso, poderei reconduzir o teu filho à terra de onde saíste?" (Gênesis 24:5). Abraão diz “Guarda-te bem de reconduzir para lá o meu filho! (ou, em bom Português, “o caralho que você vai reconduzir para lá o meu filho!”)(...) se ela não te quiser seguir, estarás desobrigado do juramento que te impus. Somente não reconduzas,de forma alguma, para lá o meu filho." (Gênesis 24:6-8). Ok, não precisa dar chilique. “Pôs, então, o servo sua mão debaixo da coxa de Abraão, seu senhor, e fez-lhe o juramento que ele pedia.” (Gênesis 24:9). Eu juro que não inventei essa história da mão na coxa.

E assim partiu o escravo para Nacor, levando camelos, ouro e toda sorte de eletro-eletrônicos, em busca de um pitéuzinho para Isaac. Já nos arredores da cidade de Nacor, nosso amigo resolveu parar sua comitiva num poço para dar um relax. E aproveitou para pedir uma ajuda ao Senhor na sua missão: “Senhor, Deus de Abraão, meu senhor, fazei-me encontrar hoje o que desejo, e manifestar vossa bondade para com meu senhor Abraão. Eis-me aqui, de pé, junto desta fonte onde as filhas dos habitantes da cidade virão buscar água. Portanto, a donzela a quem eu disser: ‘Inclina o teu cântaro, por favor, para que eu beba’ -, e me responder: ‘Bebe, e darei de beber também aos teus camelos’ -, essa seja a que destina ao vosso servo Isaac. Por isto conhecerei que manifestais vossa bondade para com meu senhor." (Gênesis 24:14). Improvável, né?

Mas Deus é pai e foi tiro e queda! Surgiu imediatamente uma jovem chamada Rebeca com um cântaro nos ombros. “A jovem era extremamente bela, virgem, e homem algum a havia possuído.” (Gênesis 24:16). Extremamente bela e extremamente virgem. E quando o escravo pediu água, a jovem seguiu o script direitinho: "Bebe, meu senhor. Vou buscar água também para os teus camelos, para que todos bebam." (Gênesis 24:18-19). Bingo! Para impressionar a moça, o escravo saca um anel e dois braceletes de ouro e pergunta: “Haveria na casa de teu pai um lugar para passarmos a noite?" (Gênesis 24:23). Eu responderia: “Alguém que anda com anéis e braceletes de ouro a dar com pau, não tem dinheiro para se hospedar num hotel, ó nobre estrangeiro?”. Mas Rebeca não é ranzinza e rude como o autor que vos escreve, e responde: “Há em nossa casa palha e forragem em abundância, e também lugar para passar a noite.” (Gênesis 24:25).

Rebeca voltou saltitando para sua humilde residência e, tilintando o ouro que acabara de ganhar, contou o ocorrido para sua família. Seu irmão, Labão (me pergunto se esse era o nome dele mesmo, ou se era um apelido em virtude do tamanho do... ah, deixa pra lá), vê no abonado estrangeiro uma chance para amarrar seu burrinho na sombra. "Vem, bendito do Senhor, disse ele, por que permaneces aí fora? Preparei a casa e um lugar para os camelos." (Gênesis 24:31). E, na mesa do jantar, o servo de Abraão resolveu abrir o jogo: “Eu sou escravo de Abraão. (...) O meu senhor fez-me jurar que eu não escolheria para o seu filho uma mulher entre as filhas dos cananeus, em cuja terra ele mora, mas que viria à casa de seu pai, à sua família, para aí escolher uma mulher para o seu filho.” (Gênesis 24:34-38). Labão e o pai de Rebeca, Batuel, não hesitaram em entregar a moça ao escravo estrangeiro. “Eis aí Rebeca: toma-a e parte. Que ela seja a mulher do filho de teu senhor, como o Senhor disse." (Gênesis 24:51). E para deixar todo mundo feliz, o escravo encheu Rebeca e sua família de fabulosos presentes, como perfumes importados, iPods® e calçados Nike®.

Na manhã seguinte, quando o escravo estava se preparando para sair e levar sua mulher-troféu de volta para casa, Labão e a mãe de Rebeca disseram: “Fique a jovem ainda conosco alguns dias, ao menos dez dias; depois disto partirá." (Gênesis 24:55). Aí fodeu. Estava tudo certinho, no esquema: o escravo voltando para casa com uma mulher para Isaac, e todo mundo feliz cheio de presentes. E aí vem Labão e a velha com esse papo de “veja bem”? Nananina, o escravo não gostou nada dessa quebra de contrato. “Não me retenhais, tornou ele: pois que o Senhor fez bem-sucedida a minha viagem, deixai-me partir e voltar para o meu senhor." (Gênesis 24:56). E agora? Como resolver esse angu de caroço? “Chamemos a jovem, disseram eles, e perguntemos-lhe o seu parecer." (Gênesis 24:57). O que?!? Eles vão perguntar para Rebeca o que ela acha?!? Glória, Senhor! Ao ser questionada se queria partir com o escravo, Rebeca disse “sim” (Gênesis 24:58)! E assim ela partiu, “juntamente com sua ama-de-leite, com o servo de Abraão e seus companheiros.” (Gênesis 24:59).

Isaac viu de longe a comitiva se aproximando, e Rebeca também viu Isaac. “Ela disse ao servo de Abraão: ‘Quem é aquele homem que vem ao nosso encontro no campo?’ É o meu senhor’, respondeu ele. E ela tomou depressa o véu e cobriu-se.” (Gênesis 24:65). Seria o véu um embrulho de presente? “E Isaac introduziu (em) Rebeca na tenda de Sara, sua mãe. Desposou-a, e ela tornou-se sua mulher muito amada. E desse modo Isaac consolou-se da morte de sua mãe.” (Gênesis 24:67). Peraí! Quer dizer que o escravo, eu e você passamos por tudo isso para que Isaac se consolasse da morte da mãe? Me poupe.

Me parece que as histórias bíblicas estão mudando um pouco. Convenhamos que foi um avanço a opinião da jovem Rebeca ser levada em consideração. Deus também parece estar agindo de forma mais indireta. Estou até com saudades do velho Javé que mandava chuvas de fogo e enxofre quando estava entediado. Me pergunto se ele vai voltar. Mas a mensagem é que o velho Abraão não queria seu filho se misturando com outro povo/etnia/religião. Soa familiar?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Gênesis 21


"Agar fica mucho loca" de Guercino.

O bom Deus Todo Poderoso, em sua glória, criou o universo e todas as leis da física, planetas, estrelas, nebulosas, organismos vivos (com uma complexidade que parece fruto de milhões de anos de evolução) e, entre eles, o maravilhoso ser humano, um macaco capaz de cutucar o nariz e assistir TV ao mesmo tempo. Mas isso não foi demonstração suficiente do poder de Javé! Não, pobre mortal! Ele resolveu se superar com o milagre supremo: Fazer a benga de um homem de 99 anos subir e engravidar uma mulher quase tão velha. E assim o fez com Abraão e sua esposa e meia-irmã Sara.

O Senhor visitou Sara, como ele tinha dito, e cumpriu em seu favor o que havia prometido. Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” (Gênesis 21:1-2). Eu não gosto sair acusando as pessoas (ou deuses), mas o Senhor visitou Sara e ela engravidou. Entenda como quiser. Mas enfim, Sara concebeu e amamentou um rebento que “Abraão pôs o nome de Isaac” (Gênesis 21:3). E “No dia em que foi desmamado, Abraão fez uma grande festa” (Gênesis 21:8) e todos dançaram ao som de “Mamãe Eu Quero” e outras marchinhas.

Mas nem tudo são flores na infância do pequeno Isaac. Se vocês não se recordam, em Gênesis 16, Abraão, atendendo a um pedido de sua esposa Sara (!), teve um filho chamado Ismael com a escrava Agar. Ismael não tinha televisão, videogame nem acesso à internet e, como passatempo, resolveu maltratar o rebento Isaac. Sara fica emputecida e resolve buzinar na senil orelha de Abraão: “Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac." (Gênesis 21:10). Abraão pensou “putaqueopariu, agora mais essa?” e não ficou nada feliz, pois ele gostava do jovem Ismael e não queria expulsá-lo de sua casa. “Mas Deus”, sempre com a solução para seus problemas, “disse-lhe: ‘Não te preocupes com o menino e com a tua escrava. Faze tudo o que Sara te pedir, pois é de Isaac que nascerá a posteridade que terá o teu nome. Mas do filho da escrava também farei um grande povo, por ser de tua raça.’" (Gênesis 21:12-13) Ah bom! Agora sim!

Abraão, após ser aconselhado pelo Senhor, deu um pão, um odre de água e um pé na bunda para Agar e Ismael, que saíram errantes pelo deserto. Sob o sol escaldante do Oriente Médio e com nenhuma loja de conveniência aberta, não demorou muito para que os dois caíssem moribundos, sem água e sem comida. “Ô castigo”, bradou Agar, “quem poderá nos salvar? Quem? Quem?”. O bom Senhor! Aleluia! Apesar de não poder comparecer pessoalmente, ele enviou um anjo que apareceu para Agar (perceba que esta visão não foi uma alucinação decorrente do fato de Agar estar desidratada e o sol do deserto fritando sua caixola. De jeito nenhum! Foi um anjo mesmo, ok?). E o anjo disse: “Que tens, Agar? Nada temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar onde está. Levanta-te, toma o menino e tem-no pela mão, porque farei dele uma grande nação." (Gênesis 21:18). E, quando Agar ergueu sua cabecinha cheia de vozes dentro, viu um poço de água que miraculosamente havia aparecido ali. E assim, ela e Ismael sobreviveram a mais esta provação. “Ele cresceu, habitou no deserto e tornou-se um hábil flecheiro. E habitou no deserto de Farã, e sua mãe tomou para ele uma mulher egípcia.” (Gênesis 21: 20:21). Glória!

Enquanto isso, nosso conhecido de capítulos anteriores, Rei Abimelec resolveu fazer um tratado de paz com Abraão. Abimelec de bobo só tinha o nome. Ele sabia que Abraão era protegido de um Deus que, quando está enfurecido/entediado, mata mesmo. E todo mundo sabe (exceto este autor que vos escreve) que é melhor ser amigo do que inimigo dessa gente. “Mas Abraão queixou-se a Abimelec por causa de um poço (será o mesmo poço que salvou Agar e Ismael?) que os seus homens lhe tinham tirado à força.” (Gênesis 21:25). Abimelec disse que iria averiguar a ocorrência e eles fizeram aliança de paz. Para selar o tratado, Abraão deu bois e ovelhas para o rei mas, num ato curioso, separou sete ovelhas do rebanho. “Que significam estas sete ovelhinhas que puseste à parte?” (Gênesis 21:29), perguntou o rei intrigado. "Aceitarás de minhas mãos estas sete ovelhinhas, respondeu Abraão, como testemunho de que fui eu que cavei este poço" (Gênesis 21:29). Hã? Teria Abraão fumado crack? Abimeleca, que preferiu não questionar o velho gagá, aceitou as tais das ovelhinhas. Certo então. E assim “Abraão habitou muito tempo na terra dos filisteus.” (Gênesis 21:34). E fim!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Gênesis 17



Glória, irmãos, glória!

Abrão já surfava nos seus 99 anos de vida, quando Deus lhe aparece em mais uma visão. Cá pra nós, a aparição do Senhor, com sua voz grave e reverberante, acompanhada pelo canto de mil querubins e trombetas, deve ser muito impressionante na primeira vez. Mas pela centésima vez, Abrão deve ter pensado “lá vem ele de novo...”. E ele disse: “Eu sou o Deus Todo-poderoso (que modéstia, não?). Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência.” (Gênesis 17:1-2). Sério, quem ainda agüenta esse papo de “aliança” e “multiplicar a descendência”? Eu que não.

E Javé continua: “De agora em diante não te chamarás mais Abrão, e sim Abraão, porque farei de ti o pai de uma multidão de povos.” (Gênesis 17:5). Uepa, pó-pará! Deus vai fazer de Abrão o pai de uma multidão de povos e dá de presente uma letra “a” para o nome dele?!? Não um cajado maneiro, ou um megafone, ou uma conta no twitter. Não. Um “a”. Desculpe, mas isso Abrão poderia ter feito sozinho. Eu admito que Abraão soa mais musical, tem mais ritmo. Abra-ão. Parece que escorrega da língua. Mas só. E o Senhor continua: “Darei a ti e a teus descendentes depois de ti a terra em que moras como peregrino, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o teu Deus." (Gênesis 17:8). É a danada da Terra Prometida.

Agora, amigo leitor, preste atenção, pois essa parte é do caralho: “Eis o pacto que faço entre mim e vós, e teus descendentes, e que tereis de guardar: Todo homem, entre vós, será circuncidado. Cortareis a carne de vosso prepúcio, e isso será o sinal da aliança entre mim e vós.” (Gênesis 17:10-11). Exatamente! Deus, em sua glória, decidiu que o sinal que marcaria seu povo escolhido seria ter a chapeleta cortada. O Senhor, por ser Todo-Poderoso, deve ter visão de raio-x, e pode ver a benga de qualquer homem quando bem entender. Para os homens se reconhecerem, entretanto, a coisa fica mais constrangedora: “Com licença, amigo. Podes levantar sua toga para que eu averigue se és um dos escolhidos?”. E tem mais. “Todo homem, no oitavo dia do seu nascimento, será circuncidado entre vós nas gerações futuras, tanto o que nascer em casa, como o que comprardes a preço de dinheiro de um estrangeiro qualquer, e que não for de tua raça.” (Gênesis 17:12). Ou seja, até escravos, comprados de um “estrangeiro qualquer”, entram na jogada. “Circuncidar-se-á tanto o homem nascido na casa como aquele que for comprado a preço de dinheiro. Assim será marcado em vossa carne o sinal de minha aliança perpétua (Deus gosta de se repetir, como já vimos). O varão (ou varinha! há!) incircunciso, do qual não se tenha cortado a carne do prepúcio, será exterminado de seu povo por ter violado minha aliança."(Gênesis 17:13-14). Não entendi muito bem esse “exterminado de seu povo”. Se “exterminar” é o mesmo verbo usado pelo Arnold Schwazenegger e por empresas de dedetização, então significa matar. O homem que tiver seu bilau encapuzado, como se não bastasse ter um maior risco de infecções genitais, ainda será jurado de morte pelo povo escolhido? Ô castigo!

Como reconhecer as mulheres, como sempre, não importa. Apesar de que, neste caso específico, acho que as mulheres se deram bem por serem esquecidas. Escaparam de rituais de mutilação numa época em que não havia bisturis e a anestesia era tomar um porre. Ufa!

O Senhor Javé, que parece que acordou com siricutico, continua a dar decretos: “Não chamarás mais tua mulher Sarai, e sim Sara. Eu a abençoarei, e dela te darei um filho. Eu a abençoarei, e ela será a mãe de nações e dela sairão reis." (Gênesis 15:16). Ótimo, Abra-a-ão ganhou uma letra e Sara-i perdeu uma. E que delicadeza, né? “Dela sairão reis”. Espero que não estejam usando coroa quando saírem.

Abraão, mesmo com seu novo nome, sabe que a pipa do vovô não sobe mais não segura a risada. “Abraão prostrou-se com o rosto por terra, e começou a rir (pf... pf, pf... pfahahahaha!), dizendo consigo mesmo: ‘Poderia nascer um filho a um homem de cem anos? Seria possível a Sara conceber ainda na idade de noventa anos?’" (Gênesis 17:17). Teria o Senhor Javé comido cocô? "Oxalá que Ismael viva diante de vossa face!" (Gênesis 17:18), disse Abraão. Mas a Deus tudo é possível, e não seriam meros casos de paumolecência e esterilidade que impediriam o plano divino de se concretizar! “Não, é Sara, tua mulher que dará à luz um filho, ao qual chamarás Isaac. Farei aliança com ele, uma aliança que será perpétua para sua posteridade depois dele. Eu te ouvirei também acerca de Ismael. Eu o abençoarei, torná-lo-ei fecundo e multiplicarei extraordinariamente sua descendência: ele será o pai de doze príncipes, e farei sair dele uma grande nação. Mas minha aliança eu a farei com Isaac, que Sara te dará à luz dentro de um ano, nesta mesma época." (Gênesis 17:19-21). Ou seja, amigo Abraão, assim que a piroca cicatrizar já pode começar a trabalhar na madeira, meu caro.

Abraão tomou então Ismael, seu filho, assim como todos os homens nascidos em sua casa e todos aqueles que tinha comprado a preço de dinheiro (que jeito mais chato de dizer “escravos”!), tudo o que havia de varões em sua casa, e circuncidou-se no mesmo dia, como Deus lhe havia ordenado.” (Gênesis 17:23). Abraão, com um cutelo enferrujado na mão: “Minha gente, todos com os varões pra fora! Ordens divinas!”. Assustador, heim? “(...) e todos os homens de sua casa, nascidos em sua casa ou comprados a preço de dinheiro a estrangeiros (argh!), foram circuncidados ao mesmo tempo.” (Gênesis 17:27). Sorte nossa que Abraão não resolveu fazer um churrasco em oblação ao Senhor com tanta carne sobrando. Eca.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Gênesis 16


'Abrão, Sarai e Agar fazem um bem-bolado' de Adriaen van der Werff

Gosta de pornografia na internet? Ótimo, porque você está no site certo! Nossa história andava um pouco confusa e entediante, mas parece que os roteiristas se tocaram que samba, suor e sacanagem dão ibope. “Sarai, mulher de Abrão, não lhe tinha dado filho; mas, possuindo uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a Abrão: ‘Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava, para ver se, ao menos por ela, eu posso ter filhos’”. Exatamente! “Abrão, por favor, trace esta escrava já que sou estéril, sim?”. O melhor é o desfecho destes dois versículos. “Abrão aceitou a proposta de Sarai.” (Gênesis 16:1-2). Ah vá! Sério? Pobre homem.

Eis que Abrão agasalhou seu croquete sem dó na escrava Agar, a egípcia, engravidando-a. Podemos acusar Abrão de muitas coisas, mas o velho dá no couro, viu? Consta que ele tinha seus 85 anos durante o ocorrido. Teriam os habitantes de Canaã acesso à Catuaba Selvagem? Cerveja Caracu batida com ovo e amendoim? Mistério.

Já “Agar, vendo que tinha concebido, começou a desprezar a sua senhora.” (Gênesis 16:4). Mudava de canal bem na hora da novela de Sarai, largava louça suja na pia, devolvia forma de gelo vazia no freezer e coisas do gênero. A vida a três ficara insuportável. “Então Sarai”, com o rolo de macarrão na mão, “disse a Abrão: ‘Caia sobre ti o ultraje que me é feito! Dei-te minha escrava, e ela, desde que concebeu, olha-me com desprezo. O Senhor seja juiz entre mim e ti!’” (Gênesis 16:5). Abrão, com uma covardia digna dos homens preferidos de Deus, responde: “Tua escrava está em teu poder, faze dela o que quiseres.". Ele lavou as mãos. A mulher na Bíblia é essencialmente uma boneca inflável que gera herdeiros, e Abrão estava cagando para Agar e o filho na barriga dela. Sarai aproveitou a luz verde e “maltratou-a de tal forma que ela teve de fugir.” (Gênesis 16:6).

A escrava Agar, a egípcia, pôs-se a vagar pelo deserto, com náuseas, pés inchados e desejos repentinos por bolo de chocolate, até se deparar com um anjo do Senhor! Isso, mesmo! Não era um louco usando asas de arame e algodão, nem uma alucinação por estar vagando pelo deserto. Era um anjo mesmo! E “disse-lhe: ‘Agar, escrava de Sarai, donde vens? E para onde vais?’ (desinformado esse anjo, né?) ‘Eu fujo de Sarai, minha senhora’, respondeu ela. ‘Volta para a tua senhora, tornou o anjo do Senhor, e humilha-te diante dela.’ E ajuntou: ‘Multiplicarei tua posteridade de tal forma, e será tão numerosa, que não se poderá contar.’” (Gênesis 16:8-10). Sério? Esse papo de “multiplicar a posteridade” de novo? Isso é o melhor que Deus tem a oferecer? “Você será uma escrava, vai servir de parideira para seu dono e vai ser maltratada pela sua dona. Mas vou multiplicar sua posteridade, ok?”. Uau! Obrigado Senhor, por esta graça! E na bundinha não vai nada?

Pois o anjo do Senhor ainda profetiza: "Estás grávida, e vais dar à luz um filho: dar-te-ás o nome de Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição (ouviu mesmo?). Este menino será como um jumento bravo: sua mão se levantará contra todos e a mão de todos contra ele, e levantará sua tenda defronte de todos os seus irmãos." (Gênesis 16:11-12). Opa! Todo mundo sabe que um menino como jumento bravo é encrenca! E se, além de bravo, também for esperto como um jumento, não podemos exigir notas altas no boletim do jovem.

Agar deu ao Senhor, que lhe tinha falado, o nome: Vós sois El-roí, ‘porque, dizia ela, não vi eu aqui mesmo o Deus que me via?’” (Gênesis 16:13). Explico: Agar chamou o anjo (“Senhor que lhe tinha falado”) o nome de El-roí, que significa “Deus que vê”. Deus (ou o anjo, ou sei lá quem) não viu Abrão usar e descartar a escrava Agar, nem viu Sarai a maltratar até ela não agüentar mais, e nem sabia de onde nem para onde ela ia. Mas mesmo assim ganhou o título de “Deus que vê”. Eu o chamaria de “Deus que está precisando de óculos”.

Enfim, Agar finalmente dá à luz ao rebento chamado Ismael. “Abrão tinha a idade de oitenta e seis anos quando Agar lhe deu à luz Ismael.” (Gênesis 16:16). Não falei que o velho ainda tinha bala na agulha?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gênesis 13-15

Depois do vexame que Abrão e banda deram no Egito, eles voltaram para Betel. “Abrão”, o narrador faz questão de salientar, “era muito rico em rebanhos, prata e ouro” (Gênesis 13:2), “graças ao bumbum empinadinho de Sarai”, o narrador faz questão de esconder. Mas o que importa é que Abrão e seu sobrinho Lot resolveram dividir essas terras de meu Deus, para que seus respectivos pastores pudessem pastorear à vontade. “Abrão fixou-se na terra de Canaã, e Lot nas cidades da planície, onde levantou suas tendas até Sodoma” (Gênesis 13:12).

Apesar de ainda faltar alguns capítulos para a história tratar de Sodoma e Gomorra, o narrador já nos adianta que “os habitantes de Sodoma eram perversos, e grandes pecadores diante do Senhor” (Gênesis 13:13). A putaria rolava solta. Era Festa do Coqueiro (pode trepar que não tem galho) toda noite. Aguardem os próximos capítulos e voltemos à nossa história.

Assim que Lot deixou seu tio sozinho (coincidência?), o amigo imaginário de Abrão (Deus) lhe aparece para revelar mais abobrinhas. Entre uma bobagem e outra, o Senhor diz que a descendência de Abrão será “tão numerosa como o pó da terra: se alguém puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar a tua posteridade” (Gênesis 13:16). Pó da terra. Não como as estrelas no firmamento, nem como as gotas no oceano ou algo mais poético. Como o pó mesmo. Acho que foi um elogio. Enfim. Abrão “veio fixar-se no vale dos carvalhos de Mambré, que estão em Hebron; e”, tava demorando, “ali edificou um altar ao Senhor” (Gênesis 13:18).

O que acontece depois, em Gênesis 14, é uma salada de reis e nações cujos nomes parecem doenças do couro cabeludo. Mas, como sempre, eu troco em miúdos para você. Os reis de Sodoma, Gomorra, entre outras nações, serviam a um rei chamado Cordo... Codorno... Codorlaomor (ufa!). Depois de 12 anos, o saco deles enchem e eles entram em guerra contra Comolargador (tá certo?) e companhia. Depois de muito quebra-pau, os reis de Sodoma e Gomorra perdem a batalha e, no meio da confusão, Lot, sobrinho de Abrão, é seqüestrado pela gangue de Cornolamastor (quem?). Abrão, juntamente com uma equipe da Swat, vai ao resgate de seu sobrinho, dá uma surra em Courola... (ah, foda-se, desisto!) e ainda recupera os bens saqueados na batalha.

Um dos reis vingados por Abrão, “Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, mandou trazer pão e vinho (ai, ai. A última vez que tinha vinho na jogada não acabou bem), e abençoou Abrão, dizendo: ‘Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra! Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos em tuas mãos!’ E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gênesis 14:20). É, meu caro. Esse papo de ‘dê o dízimo para o padre/pastor/sacerdote do Deus Altíssimo’ vem de longe. Se você acha que Abrão é exemplo a ser seguido, entregue sua mulher para o faraó também. E o desprendimento material de Abrão não acaba por aí. “O rei de Sodoma disse a Abrão: ‘Devolve-me os homens e guarda os bens’. ‘Levanto a minha mão para o Senhor Deus Altíssimo que criou o céu e a terra, respondeu Abrão, de tudo o que é teu, não tomarei sequer um fio nem um cordão de sandália, para que não digas: Enriqueci Abrão” (Gênesis 14:21-23). Abrão não quer saber de rabo preso nem ninguém esfregando favor na cara dele.

O tempo passa, e Abrão tem mais uma visão (leia-se “alucinação”) do Senhor Altissíssimo, em que ele diz "’Nada temas, Abrão! Eu sou o teu protetor; tua recompensa será muito grande’ Abrão respondeu: ‘Senhor Javé, que me dareis vós? Eu irei sem filhos, e o herdeiro de minha casa é Eliezer de Damasco.’" (Gênesis 15:1-2). Ok, vamos por partes. Aparentemente, o nome do Glorioso Senhor Altíssimo Criador Do Céu E Da Terra E De Tudo Que Tem O Sopro De Vida é... Javé. Meio decepcionante, né? Outros deuses tem nomes mais impactantes, como Zeus, Thor, Shiva! Mas Javé... sei lá... rima com “nhé”. Enfim, estou devaneando. Sobre a preocupação de Abrão, explico: Sarai era estéril (sorte dela que era gostosa, senão já teria sido trocada por um camelo), e por isso, o herdeiro de Abrão seria o escravo nascido em sua casa, Eliezer.

Mas o Senhor diz: "Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que vai sair de tuas entranhas. (...) Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz... Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência. (...) Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldéia para dar-te esta terra" (Gênesis 15:4-7). Abrão, que parece estar passando por uma crise de autoconfiança, choraminga: “O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?" (Gênesis 15-8).

Agora, amigo leitor, a história descamba para uma seqüência tão sem sentido que faria um hippie chapado em LSD fazer “heim?”. Vamos dar as mãos.

O Senhor diz a Abrão: "Toma uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho." (Gênesis 15:9). Isso, uma rola. Quando a piada já vem pronta, não me resta muito que fazer. Adiante. “Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves” (Gênesis 15:10). Peraí, Abrão! Deus só te disse para “tomar” esses animais! Onde você entendeu que era para esquartejá-los? Um cara desse só pode ser doido. Enfim. “Vieram as aves de rapina e atiraram-se sobre os cadáveres, mas Abrão as expulsou. E eis que, ao pôr-do-sol, veio um profundo sono a Abrão, ao mesmo tempo que o assaltou um grande pavor, uma espessa escuridão.” (Gênesis 15:11-12).

Depois desse ritual psicodélico, o Senhor Javé reaparece para Abrão com uma profecia: “Sabe que teus descendentes habitarão como peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante quatrocentos anos” (Gênesis 15:13), entre outras abobrinhas. E depois, “quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas.” (Gênesis 15:17). Hã?!? Para finalizar, Deus diz: “Eu dou, disse ele, esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates: a terra dos cineus, dos ceneseus, dos cadmoneus, dos heteus, dos ferezeus, dos amorreus, dos cananeus, dos gergeseus e dos jebuseus." (Gênesis 15: 18-21). O que o senhor gosta mesmo de fazer é dar terrenos para Abrão. E acabou.

Achou confuso, chato, complicado e sem sentido? Eu também. Vou tentar resumir estes três capítulos de forma rápida e rasteira:

- Abrão e seu sobrinho Lot dividiram as terras para seus pastores.
- Houve uma guerra, Lot foi seqüestrado e Abrão foi resgatá-lo.
- Nós, leitores, temos que dar o dízimo para o padre/pastor.
- Abrão fica preocupado que não vai ter descendentes. Deus dizer para ele relaxar e gozar. Mesmo.
- Abrão mata um bando de animais, inclusive uma rola, sem o menor propósito.
- Deus diz que os descendentes de Abrão vão ser escravizados por 400 anos. Fim.

Prometo que nos próximos capítulos a história fica mais divertida. Fiquem com Deus.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Gênesis 12

Nos próximos capítulos, vamos acompanhar as aventuras de um personagem muito importante chamado Abrão (isso, Abrão. Eu também achei que estava faltando um “a”, mas vocês não perdem por esperar). O número dele foi sorteado na loteria divina e o Senhor resolveu que, dali para frente, ele iria ajudar a ele e a quem o seguisse. Quem torcesse por outro time, Deus iria foder. Veja: “O Senhor disse a Abrão: ‘Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti’” (Gênesis 12:1-3).

Pois bem. Amanheceu, Abrão pegou a viola, botou na sacola, “tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã” (Gênesis 12:5), e foi viajar. Ele provavelmente “adquiriu” esses escravos numa bela promoção de queima-de-estoque e não podia deixá-los para trás. Chegando à terra de Canaã, “o Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: ‘Darei esta terra à tua posteridade.’ Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido”(Gênesis 12:7). (Nota do autor: Caso o Senhor “lhe apareça”, verifique se a maionese que você comeu no lanche estava na validade antes de edificar um altar. Especialmente se você estava peregrinando pelo deserto, onde maioneses estragam bem rápido).

Abrão seguiu viagem até depois de Betel, onde edificou mais um altar para puxar o saquinho do Senhor. O que parece que não adiantou muita coisa, pois, por causa da fome e da miséria que se abateu no local, Abrão teve que se mudar para o Egito, onde a coisa não estava tão feia. Mas Abrão, esperto que é (ou nem tanto, como veremos), se tocou que sua esposa Sarai era um pitéuzinho de parar o trânsito e disse: “Escuta, sei que és uma mulher formosa. Quando os egípcios te virem, dirão: 'É sua mulher', e me matarão, conservando-te a ti em vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que eu seja poupado por causa de ti, e me conservem a vida em atenção a ti." (Gênesis 12:13). Ah, mas foi tiro e queda! Os egípcios ficaram de queixo no chão com o decote generoso e o rebolar malemolente de Sarai. “Os grandes da corte, vendo-a, elogiaram-na diante do faraó, e a mulher foi introduzida no seu palácio (veja bem, quem introduziu mesmo foi o faraó). Por causa dela, Abrão foi bem tratado pelo faraó, e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos” (Gênesis 12:16). (Por que exatamente “servos e servas” aparece entre “jumentos” e “jumentas” eu não sei. Haveria alguma mensagem subliminar aqui?).

Você leu certo, fiel leitor. Enquanto Sarai brincava de pega-vareta e rolentrando com o faraó, Abrão reabasteceu sua fazendinha ambulante com presentes. Como se não estivesse absurdo o suficiente, Deus apareceu e “feriu com grandes pragas o faraó e a sua casa, por causa de Sarai, mulher de Abrão” (Gênesis 12:17)! Como assim?!? Abrão foi covarde e mentiroso, entregando a esposa como se entrega uma bicicleta velha, para salvar a própria pele. O faraó, por não ter poderes psíquicos, não adivinhou que Sarai era a esposa de Abrão, e passou a vara (ou seria o cetro?) na mulher. E quem Deus, em sua glória, resolveu foder com grandes pragas? O faraó!

Depois de muito bater o dedinho do pé com toda força no pé da mesa; depois de muitas vezes ter sua torrada caindo com a manteiga para baixo; depois de muitas vezes sair do banho e perceber que a toalha já estava molhada, a ficha do faraó caiu. Ele estava sofrendo as pragas do Senhor porque comeu a mulher de Abrão. Puto, e com razão, mandou chamar Abrão e disse: "’Que me levaste a fazer? Porque não me disseste que era tua mulher? Por que disseste que ela era tua irmã, levando-me e a tomá-la por esposa? Mas agora eis tua mulher: toma-a e vai-te (‘para a puta que te pariu’, eu teria adicionado)!’ Então, o faraó deu ordens aos seus para reconduzir Abrão e sua mulher com tudo o que lhe pertencia" (Gênesis 12:19-20). Aparentemente o faraó nem pediu os presentes de volta, tamanha era a pressa para não ter que ver a cara de Abrão. “E os presentes?” teria perguntado Abrão. “Enfia no rabo!” bradaria o faraó.

E essa foi a primeira aventura de nosso amigo Abrão. Agora, será que ele realmente precisaria ter entregado a mulher para o faraó? Não quero parecer repetitivo, mas não seria mais fácil se:

a) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas eu sou um protegido de Deus. Se você me matar e/ou tomá-la como esposa, pragas cairão sobre você!”?

b) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas está com doenças sexualmente transmissíveis que derrubariam um camelo. Coloca a piroca lá dentro e você vai ver o que é praga divina.”?

c) Sarai tivesse disfarçado sua formosura com um travesseiro na barriga, uma verruga falsa na cara ou algo do gênero?

Talvez Abrão não tenha escolhido nenhuma das alternativas porque ele, na verdade, achou ótimo ganhar ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos. Enfim. Acho que é isso.

P.S.: Não quero julgar Abrão por ter seus escravinhos. Essa história foi escrita há mais de 3000 anos atrás (aqui a expressão “mais antigo do que o rascunho da bíblia” se encaixa perfeitamente) e, se qualquer um de nós vivesse naquela época, iria achar a escravidão normal. Eu mesmo teria um escravo digitando este blog para mim. O que me revira o estômago, é que muitas pessoas acham que a Bíblia é uma fonte de valores para os dias de hoje. Mas, acho que já falei disso... obrigado e desculpe.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Gênesis 9

Como já podemos perceber, a Bíblia Sagrada é um livro difícil de ler. Confuso, contraditório, com mais engasgos na trama que um filme do Tarantino. Desde a gênese (há!) deste blog, eu venho sumarizando e digerindo o texto para você, amigo leitor, que tem mais o que fazer da vida. Mas neste post, e somente neste, transcreverei o capítulo de cabo a rabo, versículo por versículo, para que você tenha a idéia do martírio que é ler esse livro. Vamos dar as mãos e enfrentar juntos esta provação.

1 Deus abençoou Noé e seus filhos: "Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei a terra.
Tome-lhe incesto e endogamia de novo. Mas esse assunto já apanhou demais. Basta.

2 Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se arrasta sobre o solo e todos os peixes do mar: eles vos são entregues em mão.
3 Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde.

Mais um lindo ensinamento deste livro. Todos os animais da terra são um mero alimento para o homem se deliciar. Tenho certeza de que tigres, tubarões-brancos e cia. pensam diferente. E, veja, Deus deu a erva verde para o homem. O que mais ele quer?

4 Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Opa, opa! Estava demorando para aparecer uma restrição. Canibalismo não pode!

5 Eu pedirei conta de vosso sangue, por causa de vossas almas, a todo animal; e ao homem {que matar} o seu irmão, pedirei conta da alma do homem.
6 Todo aquele que derramar o sangue humano terá seu próprio sangue derramado pelo
homem, porque Deus fez o homem à sua imagem.

O Senhor não tem dúvidas sobre a pena de morte. Matou, morreu.

7 Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente."
Que sensação de déjà vu, né?

8 Disse também Deus a Noé e as seus filhos:
9 "Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade,
10 assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra.
11 Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra."

Ueba! Deus não vai mais afogar tudo e todos! Teria ele ficado bonzinho?

12 Deus disse: "Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras:
13 Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra.

Ah, que lindo! Um arco-íris é algo tão fofinho que dá quase para esquecer da carnificina desenfreada que Deus fez algumas páginas atrás.

14 Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens,
15 e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura.

Ok, agora eu tenho certeza que eu já ouvi isso.

16 Quando eu vir o arco nas nuvens, eu me lembrarei da aliança eterna estabelecida entre Deus e todos os seres vivos de toda espécie que estão sobre a terra."
Sério, minha gente, alguém chama o suporte técnico, porque deu pau.

17 Dirigindo-se a Noé, Deus acrescentou: "Este é o sinal da aliança que faço entre mim e todas as criaturas que estão na terra."
“Acrescentou”? Sério? De onde eu venho, isso se chama “encher lingüiça”.

18 Os filhos de Noé que saíram da arca eram Sem, Cam e Jafet. Cam era o pai de Canaã.
19 Estes eram os três filhos de Noé. É por eles que foi povoada toda a terra.

Sim, eu também estou pensando em incesto, mas eu prometi que não ia comentar mais nada sobre isso. Desculpe.

Agora esse final numa paulada só, para ver se você cai da cadeira.
Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, o pai de Canaã, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus irmãos. Mas, Sem e Jafet, tomando uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois que tinham os seus rostos voltados.

Quando Noé despertou de sua embriaguez, soube o que lhe tinha feito o seu filho mais novo. "Maldito seja Canaã, disse ele; que ele seja o último dos escravos de seus irmãos!". E acrescentou : "Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo! Que Deus dilate a Jafet; e este habite nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo!". Noé viveu ainda depois do dilúvio trezentos e cinqüenta anos. A duração total da vida de Noé foi de novecentos e cinqüenta anos; e morreu.
(Gênesis 9:20-29)

Ok, pó-pará! Deixe-me ver se eu entendi direito. Sugiro que você tenha um bloco de notas aí do lado para fazer um esquema gráfico. Olha só. Noé toma todas e tira a roupa dançando cara-caramba cara-caraô. Cam presencia o vexame e resolve compartilhar com seus irmãos. Os irmãos de Cam vão salvar o velho do mico que ele está pagando. Sabiamente, eles não querem ver a piroca de um velho de 600 anos de idade balançando e fazem o resgate de ré. Quando o velho Noé acorda do porre, ele resolve transformar o filho de Cam, seu neto, em escravo dos próprios tios. Alguém pode me explicar a lógica disso? Qual é a moral dessa história? Sério, não é uma pergunta retórica. Alguém me explica que lição devemos tirar dessa parábola.

Imagine Canaã, filho de Cam, recebendo a notícia:

- Filhão...
- Oi pai!
- Você gosta do tio Sem e o tio Jafet?
- Sim, eles são supimpa!
- Que bom, porque você acaba de virar escravo deles.
- ...?!? C-c-como?!? P-p-por que?!? Peraí! Eu juro que aquela maconha na minha mochila é de um amigo! Eu só estava guardando pra ele!
- Não é por isso não, meu filho. É porque eu, ontem à noite, tive o desgosto de ver o seu avô dançando pelado. Por isso ele resolveu arruinar sua vida te transformando num escravo.
- Putaqueopariu! Como assim?
- Assim.

E lembrem-se que, recapitulando Gênesis 6:9, Noé “era um homem justo e perfeito”. Certo. Justo como colarinho de palhaço.

Aparentemente, as pessoas que viviam em tribos do Oriente Médio na idade do bronze (e que escreveram este best-seller) tinham um problema sério com ficar pelado, mas nenhum problema com incesto e escravidão intra-familiar. Vamos ver que surpresas nos aguardam nos capítulos vindouros. Amém.