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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gênesis 42-45


Os irmãos de José são pegos com o dedo no mel.

Queima na Glória, leitor!

José, que agora era administrador do Egito, estava por cima da carne seca. Vivia de banho tomado, cabelo engomado, rái-bã e palito na boca. Já nas terras adjacentes ao Egito, inclusive onde viviam seus irmãos que há muito passaram-lhe a perna, a crise se abatia e não tinha trigo nem pra fazer sopa. Mesmo assim, os irmãos de José só queriam saber de acordar meio-dia e jogar videogame até de madrugada. Nenhum filhodeputa levava nem o lixo pra fora. O velho Jacó, que não era lá muito famoso pela paciência, já estava ficando puto. “Por que estais olhando uns para os outros, porra? Eu soube que há trigo no Egito. Descei lá e comprai-o para nós; poderemos assim viver e escaparemos à morte" (Gênesis 42:1-2). O único que se safou da viagem foi Benjamim, segundo mais novo e inventor do multiplicador de tomadas, que ficou por ordem do próprio Jacó. Vai entender a cabeça desse velho idiota.

Quando chegaram frente a José para comprar víveres, sequer o reconheceram, de tanto tempo que havia se passado e por causa do bigode falso, comprado na 25, que ele estava usando. Mas José os reconheceu e, escroto que era, resolveu fazer uma pegadinha. Dizem que o diálogo foi mais ou menos assim:

- “O que querem agora esses punheteiros à minha frente? De onde caralho vieram?”, disse José.
- “Da terra de Canaã, para comprar víveres.
- “Paus em vossos cus. Vocês são espiões, maconheiros e pederastas.”
- “Não, meu senhor, teus servos vieram comprar víveres. Somos todos filhos dum mesmo pai, somos gente honesta; teus servos não são espiões.”
- (José com os olhos fechados e dedos nos ouvidos:) “Lálálálálálá! Eu não tô ouvindo nadaaaaa!”
- "Somos doze irmãos, filhos dum mesmo pai, na terra de Canaã. O mais novo está agora em casa de nosso pai, o outro já não existe." (Gênesis 42:7-13)
- “LÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁlálálálálálálálálálálálá!”
Aos irmãos de José só restou olharem uns para os outros, com cara de ponto de interrogação.
- “Ok, basta dessa putaria”, disse José finalmente, “já ouvi o suficiente. Janjão!!!”. Um agrandalhado guarda-costas em típicos trajes egípcios entrou na câmara. “Jogue esses mãos-peludas no xilindró! E não os dê o pote de vaselina. Eles merecem conhecer a verdadeira hospitalidade egípcia... MUUAAAHAHAHAHAHA!”.

Que pulha que esse José se tornou, né? Mas depois de três dias, muita penetração anal e nenhuma gota sequer de vaselina, José resolveu fazer um acordo com seus prisioneiros. “Um de vocês punheteiros deve ficar aqui como refém, enquanto os outros podem voltar para Canaã levando a merda do trigo que vocês tanto querem. Tragam esse irmão mais novo, Benjamim, para a minha presença para provar que falam a verdade, e paro de comer-lhes o cu”. E assim o fizeram, deixando Simeão como refém e noivinha do presídio. Mas os ardis de José ainda não haviam terminado. Antes de partirem, José colocou o dinheiro de cada um dos irmãos de volta nos seus respectivos sacos de trigo, de modo que os víveres saíram de graça. Pegou? Nem eu.

Quando chegaram de volta a Canaã, na casa de seu pai Jacó-barra-Israel, os irmãos de José abriram seus sacos de trigo, encontraram seu dinheiro nas bocas dos sacos e ficaram sem entender bosta. Contaram o que havia se passado para seu pai, dizendo que deixaram Simeão como cheque-caução e que tinham que levar Benjamim para o Egito. O velho Jacó ficou de mimimi: “José já não existe, Simeão tampouco, e quereis me tomar ainda Benjamim!” (Gênesis 42:36). Mas papo foi, papo veio e Jacó se convenceu, ainda ordenando que levassem bens para puxar o saco de José. “Se assim é, tomai em vossas bagagens os melhores produtos da terra, e levai-os como presente a esse homem: um pouco de bálsamo, um pouco de mel, resina, láudano, nozes de pistácia e amêndoas” (Gênesis 43:11). Quem não gosta de resina, né?

E assim os irmãos montaram em seus jumentos e rumaram de volta para o Egito. Quando José viu que seus irmãos cumpriram com o prometido, mandou preparar-lhes um almoço digno. “Faze entrar estes chupa-rolas na casa, mata uma vaca, um carneiro ou sei lá o caralho que a gente cria, e prepara-o, pois comerão comigo ao meio-dia”. Mas os irmãos ainda estavam com o cu na mão, temendo o que José iria fazer achando que eles haviam levado o dinheiro de volta. “Desculpa, meu senhor,” disseram eles, cagando-se todos, ao intendente de José, Janjão, “viemos já uma vez comprar víveres. Quando chegamos à estalagem e abrimos nossos sacos, o dinheiro de cada um se encontrava na boca de seu saco: era o peso exato do dinheiro. Tornamos a trazê-lo conosco; e trazemos, ao mesmo tempo, outro dinheiro para comprar víveres. Não sabemos quem tenha metido nosso dinheiro em nossos sacos". Ao que Janjão respondeu “ficai tranqüilos, nada temais, relaxa senão não encaixa. É o vosso Deus, o Deus de vossos pais, quem vos pôs um tesouro em vossos sacos; o vosso dinheiro me foi entregue” (Gênesis 43:20-23). Quer dizer então que esse tal de “vosso Deus” faz brotar dinheiro em saco, é? Só que não, porque quem colocou o dinheiro foi o escroto do José.

Durante o almoço, José perguntou para seus irmãos (que ainda não o reconheciam, lembrem-se) sobre seu pai. "Vosso velho pai, do qual me falastes, vai bem? Ou vive babando e se cagando?”. “Teu servo, nosso pai, está passando bem, e vive ainda” (Gênesis 43:28), responderam numa mesura. José se emocionou. Mas enfim, almoçaram, conversaram, riram e dizem até que rolou um carteado, uma mãozinha de buraco, se é que você me entende.

Pensa que acabou? Pensou errado, incauto leitor. José ainda tinha mais uma falcatrua reservada para seus irmãos e disse para seu fiel intendente: “Enche de trigo, pão dinheiro e o cacete a quatro os sacos destes homens, tanto quanto possam conter. Mas só pra foder com a cabeça deles mais uma vez, porás minha taça de prata na boca do saco do mais novo. Seguirás eles pelo deserto para pegá-los com a boca na butija! Uahá! Glu-glu! Pegadinha do José!” Mas que filho de uma puta esse José, heim? E assim foi feito. Quando Janjão enquadrou os irmãos, que não haviam roubado nada, eles tinham certeza que só podia ser um engano. “Pó-pará, seo intendente! Que aquele dos teus servos com quem for encontrada a taça morra, e, ao mesmo tempo, nós nos tornemos escravos do meu senhor" (Gênesis 44:9). Quando foram levados de volta (é... de novo...) para José, lá estava a taça de prata no saco do jovem Benjamim. Póta-quéu-paréu, pensaram os irmãos enquanto rasgavam as próprias vestes inconformados. O pulha do José não perdeu tempo para dar um esculacho. “Que bonito, heim, seu bando de filhos de putas! Que bonito! Vamos fazer assim: Benjamim, que foi encontrado com a taça e que tem a bundinha mais tenra [plim! piscadela!], será meu escravo. Vocês outros, voltem para suas casas e suas vidinhas ridículas na Terra de Canaã.” Mas Judá, um dos irmãos, sabia que, se o velho Jacó perdesse Benjamim, era piripaque na certa. “Rogo-te, pois,” implorou ele para José, “aceita que teu servo fique escravo de meu senhor em lugar do menino, para que este possa voltar com seus irmãos” (Gênesis 44:33).

Minha gente, que bololô, não é? Nem José podia mais levar adiante aquela farsa, aquele teatro, aquela pantomima macabra e doentia! “BASTA!!!”, gritou José arrancando seu bigode falso e caindo num choro descontrolado, “Baaaaasta desta putaria louca!!! Eu sou José! EU SOU JOSÉ, caralho!!!”. Os irmãos ficaram de queixo no chão. Não podiam acreditar no que estavam vendo. O irmão caçula que há anos atrás eles chuncharam dentro de um poço para dar um fim, era o administrador do Egito esse tempo todo. José finalmente havia tirado o peso da mentira das costas e agora estava mais calmo, disposto a perdoar. “Deus, o fodão dos fodões, enviou-me adiante de vós para que subsista um resto de vossa raça na terra, e para vos conservar a vida por uma grande libertação. Apressai-vos em voltar para junto de meu pai e trazei todo mundo para o Egito. Trazei suas esposas, filhos, netos, cachorro, papagaio e o cacete. Habitarás na terra de Gessém, bem perto de mim, e terão tudo de bom e do melhor do Egito: apartamento com varanda, churrasqueira, piscina e quadra poli-esportiva! Glória!!!”. E assim o fizeram. Voltaram para Canaã e contaram tudo para o velho Jacó que, tá justo, não podia acreditar. “José, meu filho, vive ainda. Irei e o verei antes de morrer" (Gênesis 45:28). E todos fizeram as malas para mudarem-se para o Egito e viver a vida boa.

Pois é, herege leitor. Era tudo um plano do Bom Javé® para manter a raça de Abraão viva durante os anos de penúria. Fodam-se todos os outros que não são do povo escolhido. Vimos que José, fazendo jus às outras figuras patriarcais do Cristianismo (e Judaísmo... e Islamismo), é um belo de um filho da puta e não vale seu peso em merda de camelo. Manipulou seus irmãos como marionetes. Foi um vai e vem do Egito, abre o saco, fecha o saco, prende, solta... e pra quê? Pra nada! Só pra torrar a minha e a sua paciência.

A história de José ainda não acabou. Porra. Mas falta pouco.

sábado, 6 de agosto de 2011

Gênesis 38 - Parte II


"Judá indaga Tamar sobre o preço do boquete" - Escola de Rembrant, óleo sobre tela.

Tamar viu os anos passarem enquanto esperava que o terceiro irmão, Sela, crescesse um bigodinho e pudesse desposá-la. Mas parece que, enquanto Sela ficava mais alto, as tetas de Tamar ficavam mais baixas, porque o menino não quis saber de negócio e a viúva ficou esperando. Que bela bosta. Mas um belo dia, seu sogro Judá vinha subindo o morro em que morava Tamar, e ela resolveu dar o troco. Tirou o maldito traje de viúva e se vestiu de quenga. “Judá, vendo-a, julgou tratar-se de uma prostituta, porque tinha o rosto coberto” (Gênesis 38:15). O rosto coberto, a bota 7/8 de vinil e o bustiê de veludo zebrado. Bem observado, Judá!

Pois o velho Judá achou o produto interessante e perguntou:

- Quanto é o programa?
- Depende... - respondeu Tamar fazendo uma expressão libidinosa, mas que ninguém viu, dado que tinha o rosto coberto.
- Cabelo, barba e bigode.
- Ah, aí vai te custar um camelo e duas galinhas.
- Um camelo e duas galinhas?!? - espantou-se Judá - A senhora só pode estar brincando, né? Te dou um porco e uma galinha.
- Então boa tarde, senhor.
- Peraí, peraí, peraí... ok, um cabrito, dos bons. E é minha oferta final.
- ...
- Negócio fechado?
- Negócio fechado. Nota fiscal paulista?

E assim Judá, sem saber, passou a vara na mulher que foi sua nora duas vezes (pra você que achava que a Santa Bíblia já tinha esgotado seu repertório de sexo bizarro). Mas, como o pagamento, o cabrito, teria que ser trazido no dia seguinte, a cortesã queria uma garantia. “Que penhor queres que eu te dê?", perguntou Judá. "Teu anel, teu cordão e o bastão que tens na mão." (Gênesis 38:18), respondeu a disfarçada Tamar. Judá ainda estava com o bastão na mão e já estavam falando de negócios. Mas assim o fizeram.

No dia seguinte, Judá mandou um colega levar o cabrito e pegar o anel, o cordão e o bastão de volta. "Onde está aquela prostituta que estava em Enaim, à beira do caminho?", e os transeuntes fizeram cara de interrogação: “Não há prostituta nesse lugar!" (Gênesis 38:21). Pois é, não havia sinal da garota de programa. O que Tamar fez é o que na balada chamam de “dar um perdido”. A menina fala “vou lá no bar pegar uma Smirnoff e já volto, tá gatinho?” e puf!, some numa nuvem de glitter e perfume barato para todo o sempre. Enfim. O amigo de Judá trouxe o cabrito de volta e disse que não tinha prostituta nenhuma não sinhô. "Guarde ela o meu penhor, respondeu Judá, não nos tornemos ridículos!” (Gênesis 38:23). Judá resolveu varrer essa história pra debaixo do tapete. Mal sabia ele que tinha caído como um pato na armadilha de Tamar.

Três meses depois, o fofoqueiro da vila disse a Judá: “Tamar, tua nora, conduziu-se mal: vê-se que está grávida". Má-quê! "Tirai-a para fora, que ela seja queimada!" (Gênesis 38:24), bradou Judá. Tenha a santa paciência também. Tamar teve dois maridos pulverizados pelo Bom Senhor. Ela se manteve casta e fantasiada de viúva por anos, esperando um terceiro marido que nunca veio. E agora, porque engravidou, ela merece ser queimada? Mas Tamar ainda tinha uma carta, e era o zap! "Concebi do homem a quem pertence isto: examine bem, ajuntou ela, de quem são este anel, este cordão e este bastão". Truco, marreco! “Judá, reconhecendo-os, exclamou: ‘Ela é mais justa do que eu; pois que não a dei ao meu filho Sela.’ E não a conheceu (meteu) mais” (Gênesis 38:25-26). Convenhamos que Judá sabe reconhecer uma derrota.

Meses depois, Tamar sentiu as dores do parto e, obviamente, eram gêmeos. Quando a mãozinha do primeiro saiu, a parteira amarrou um fio vermelho no pulso, tamanha era a importância da primogenitura para esse povo primitivo. Mas, provavelmente incomodado pela parteira amarrando uma porcaria no pulso, o bebê embirocou de volta para Tamar. E nessa, o outro saiu, emputecendo a parteira. "Que brecha fizeste! exclamou a parteira: Que a brecha esteja sobre ti!" (Gênesis 38:29). Hã? Brecha? A brecha já estava feita e, eu suponho, doendo pra cacete! E não seria superestimar as intenções de um recém-nascido? Será que o bebê não está mais preocupado em inflar seus pulmões do que em quem vai herdar a bosta do rebanho de cabritos? Enfim. Este se chamou Farés e o irmão, com a pulseirinha vermelha, Zara.

E assim termina. Os mais devotos defendem que, mesmo nessas confusas porno-chanchadas bíblicas, há sempre uma lição. Não sei o que deveríamos tirar dessa história. Sempre andar com um cabrito para poder pagar uma eventual prostituta no ato? Não sei, mas os comentários estão abertos. E que a brecha esteja sobre todos vocês!

domingo, 12 de junho de 2011

Gênesis 36-37


"Desce, filhadaputa!"


A Glória! A Glória, pois é com a graça de Javé que nossa história continua. Não são poucos os capítulos das Sagradas Escrituras Sagradas que são uma longa e entediante lista de descendentes de algum personagem notável. No trigésimo sexto capítulo de Gênesis, conhecemos as gerações de Esaú, irmão de Jacó, bruto, peludo, e que cozinha um guisado que só ele. Alguns nomes já são uma piada pronta, como Elifaz ou Amaleque. Outros são bons para quando você não sabe como batizar seu cágado de estimação, como Zibeão ou Husão. Mas a verdade é que esses capítulos servem para drenar a vontade de alguém ler a Bíblia de cabo a rabo. Melhor deixar pro pastor ou padre escolher e interpretar as partes importantes pra mim, não é? Nananina-não! Aqui não, Zibeão! Nós vamos até o fim!

Pois no capítulo seguinte conhecemos um importante personagem de nossa saga: José, filho favorito de Jacozito-Israel. “E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice (leia-se ‘filho da catuaba selvagem com amendoim); e fez-lhe uma túnica de várias cores” (Gênesis 37:3). Gente, que fashion! Israelito era um velho antenado nas últimas tendências, e sabia que túnica multi-color voltou COM TUDO nessa coleção Outono-Inverno! Que melhor presente para Zezinho? A-rra-sou! Mas esse xodó de Jacó com José servia também para irritar seus ciumentos irmãos. Entre eles, diziam “Lá vem o cocozinho do José e sua túnica multi-colorida... e eu aqui com essa túnica cor de brim cru... tão coleção-passada!”. E como se não bastasse, José contou-lhes dois sonhos nada modestos que teve: “estávamos ligando feixes no campo, e eis que o meu feixe se levantou e se pôs de pé, enquanto os vossos o cercavam e se prostravam diante dele" (Gênesis 37:7). O feixe de José subindo rijo e teso e os feixes de seus irmãos descendo. Fálico, né? E no outro sonho “o sol, a lua e onze estrelas prostravam-se diante de mim” (Gênesis 37:9). Mas é muita cara de pau! Fritas acompanha?

Pois num tórrido e escaldante dia no Oriente-Médio, os irmãos mal-amados de José estavam nas terras de Siquém fazendo o que todo bom nômade do deserto faz de melhor: arrebanhando cabras, bodes, carneiros e ovelhas. Já no meio do expediente, José resolve dar o ar da graça. “Eis o sonhador que chega. Vamos, matemo-lo e atiremo-lo numa cisterna; diremos depois que uma fera o devorou; e então veremos de que lhe aproveitaram os seus sonhos” (Gênesis 37:19-20), disseram os irmãos de Zé. É isso mesmo! Resolveram dar um fim no folgado, desovar o presunto num poço e ainda por a culpa numa besta errante! E eu desafio qualquer um a falar “matemo-lo”com a boca cheia de pão! Mas um dos irmãos, Rubem, era da turma do deixa disso. “Não lhe tiremos a vida, não derrameis sangue. Jogai-o naquela cisterna, no deserto, mas não levanteis vossa mão contra ele” (Gênesis 37: 21-22). E assim o fizeram. Deram-lhe um cascudo, “despojaram de sua túnica, daquela bela túnica de várias cores que trazia, e jogaram-no numa cisterna velha, que não tinha água” (Gênesis 37:23-24), só de samba-canção.

Mas o infortúnio de José estava só começando. Após terem arremessado o inconveniente cisterna abaixo, os irmãos sentaram para fazer uma farofada. Tiraram o franguinho frito do isopor, abriram uma cervejinha, Rubem bombou o pagodinho no seu celular que toca mp3 e skitum, skitum, skitum- “peraí Rúbi!”, interrompeu um dos irmãos, “Ô Rúbi! RÚBI, caráio! Desliga essa porra aí!”. Rubens cortou o som e “eis que, levantando os olhos, viram surgir no horizonte uma caravana de ismaelitas vinda de Galaad” (Gênesis 37:25). Ismaelitas, tradicionais comerciantes madianitas que varavam o deserto em seus camelos, oferecendo produtos a preços imbatíveis. Pois um dos irmãos, Judá, viu ali a chance de tirar um trocado: Por que não vender o enjoadinho do José como escravo para os Ismaelitas? “E, quando passaram os negociantes madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos Ismaelitas, que o levaram para o Egito” (Gênesis 37:28). Ca-tchin!

Os irmãos mataram um cabrito e usaram o sangue para empapar a bela túnica de José. E ainda deram um regaço, ralando no chão, cuspindo em cima e esfregando no racho da bunda para arrebentar o tecido. Que bando de arruaceiros! Quando levaram o trapo para o velho Jacó, ele despirocou de vez. “É a túnica de meu filho! Uma fera o devorou! José foi estraçalhado!" (Gênesis 37:33). Pobre Jacó! Estava certo de que seu favorito já tinha virado bosta uma hora dessas, “e, rasgando as vestes, cobriu-se de um saco, e chorou o seu filho por muito tempo” (Gênesis 37:34). Que figura mais ridícula, chorando enrolado num saco velho. Mas a verdade é que José não tinha virado bosta coisa alguma. “Os madianitas venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do faraó e chefe da guarda” (Gênesis 37:36). Sorte de José que esse tal de Putifar era eunuco porque, se bem me lembro, ele estava de samba-canção.

O que será de José, agora vendido como um escravo para o Faraó? A resposta você só encontra aqui, n’A Bíblia com Limão e Gelo! (Ou na bíblia de verdade também, claro.)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Gênesis 34



A Santíssima Sagrada Bíblia Sagrada Santíssima está repleta de lindas histórias, dignas de serem recitadas como contos de ninar ao leito de rebentos inquietos. Verdadeiras lições de vida. E assim, meu caro, é Gênesis 34. Me acompanhe.

Em nossa saga, a privilegiada família de Jacozito havia recém mudado de volta para a terra de Canaã. Diná, uma de suas filhas, saltitava inocentemente pela nova vizinhança quando foi avistada pelo príncipe Siquém (Si-quem?), filho do governante local e inventor da pomada para hemorróidas, rei Hemor. Siquém, playboy filhadaputa que era, ao avistar a tetéia da Diná, não teve dúvida: “raptou-a e dormiu com ela, violentando-a” (Gênesis 34:2). Seqüestro seguido de estupro, caro leitor. Mas o meliante tinha um lado fofinho. “Ele amou a jovem, e soube falar-lhe ao coração” (Gênesis 34:3). Chorei.

Siquém (Si-quando?) choramingou para seu papai que queria casar com Diná. Hemor, que não sabe dizer não para seu pequeno campeão, foi ter com Jacó. "Meu filho Siquém está enamorado de vossa filha; dai-a por mulher, eu vos peço” (Gênesis 34:8). O problema nisso tudo, é que os irmãos de Diná, Simeão e Levi, não estavam nada satisfeitos com essa avacalhação de seqüestro e estupro. Porra! Nem levou a menina pra um cineminha antes! "Dar nossa irmã a um incircunciso,” disseram os irmãos, “é uma coisa que não podemos fazer, porque isto seria desonroso para nós. Só acederemos ao vosso desejo à condição de que vos torneis como nós, e que todos vossos varões sejam circuncidados” (Gênesis 34:14-15). Calma que eu explico. Caso você não se lembre, o Senhor Javé resolveu que iria marcar o seu povo xodó pelo pinto. Dentre todas as marcas que poderiam ser, uma tattoo, um corte de cabelo moicano, um aperto de mão maneiro, Deus declarou que todos descendentes do povo escolhido deveriam ser circuncidados. Ele não gosta do bilau parecendo o pescoço de uma tartaruga. E para que Simeão e Levi aceitassem que sua irmã se misturasse com a gentalha de Hemor e Siquém, todos os homens do reino, não importando se varões, varinhas ou varetas, deveriam ser circuncidados. Mas o que Hemor não sabia, é que esse era a primeira etapa de um terrível plano de retaliação dos Irmãos Chapeleta. Tremei.

E assim foi feito. A primeira fez tchan, a segunda fez tchun e todos os homens do reino foram circuncidados. Era pele de pinto suficiente para matar a fome de um exército. Ica. E falando em exército, isso era uma coisa que o reino de Hemor não tinha. Todos os homens estavam de cama, com seus varões latejantes e doloridos, e essa era a deixa para início da segunda etapa do genial plano de Simeão e Levi. “Tomaram cada um sua espada, penetraram na cidade, que de nada desconfiava, e mataram todos os varões. Passaram ao fio de espada também Hemor e Siquém (Si-fudeu, né?), seu filho” (Gênesis 34:25-26). Foi faca na caveira. E de quebra “tomaram suas ovelhas, seus bois, seus jumentos e tudo o que havia na cidade como nos campos. E levaram como espólio todos os seus bens, seus filhos, suas mulheres e tudo o que se encontrava em suas casas” (Gênesis 34:28-29). Assassinaram, pilharam e levaram crianças e mulheres como escravos. Esse sim é o povo de Javé que eu conheço!

Agora, herege leitor, imagine que você é um humilde camponês no reino de Hemor. Você labuta como um condenado, sob o escaldante sol do deserto, para que você, sua esposa e seus filhos tenham o que comer. Um belo dia, seu rei decreta que todos os homens devem tirar a pele da chapeleta. Isso te parece mórbidamente estranho, mas você é um cara tranqüilo, que não quer confusão com as autoridades, e se submete à circuncisão. Procedimento, perceba, feito com todo o avanço médico que a Idade do Bronze oferece: Um gole de pinga como anestesia e um facão enferrujado como bisturi. Mas borá lá! Enquanto se recupera da mutilação, um estranho entra com o pé na porta da sua casa e você, incapacitado pelo inchaço peniano, é assassinado. De brinde, sua mulher e filhos são levados como escravos! Putaquetepariu! Não fazer parte do Povo Escolhido é uma merda, heim? Mas me perdoe, estou divagando.

O patriarca Jacó/Israel, que estava mais por fora que cotovelo de caminhoneiro, ficou puto quando soube do genocídio. “Só tenho comigo alguns homens e, quando toda essa gente se congregar contra mim para me ferir, perecerei com minha família" (Gênesis 34:30). Os Irmãos Chapeleta, para justificar as atrocidades, disseram: “Porventura, devíamos deixar tratar nossa irmã como uma prostituta?" (Gênesis 34:31). Poxa, eles tem razão, né? Não foi nada desproporcional essa retaliação. A mensagem é que você deve pensar duas vezes antes de tentar sacanear os descendentes de Abraão. Que linda historinha! O que ninguém lembrou foi de perguntar a Diná o que ela achava disso tudo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gênesis 30 (parte 2) - 31


Labão, o arameu, e seus irmãos cruzam o deserto em busca de Jacó.

Jacozinho há muito vivia de parasita na casa do duplo-sogro e tio Labão. E como se não bastasse ter abocanhado duas filhas e duas escravas, resolveu que ia se apossar de uma parte do rebanho de ovelhas que ele ajudou a criar. Para isso, Jacó sugeriu que ele ficasse com os animais malhados e deixasse os brancos para Labão. "Está bem, seja como dizes" (Gênesis 30:34), disse tio Labs. O que ele não sabia era que seu genro/sobrinho queria lhe sacanear, passar a perna, apunhalar pela costas. 171 mesmo. Digno de um descendente direto de Abraão. Jacó, orientado pelos anjos de Javé, selecionou repetidamente cabras fortes e saudáveis para cruzar com fêmeas malhadas, e cabras raquíticas e mal nutridas para cruzar com fêmeas brancas. Dessa forma, ele deixou Labão com um rebanho de bosta.

O que é mais irônico é que, o que Jacó fez, se chama seleção artificial. Se ele tivesse pensado sobre o assunto mais um pouquinho, ele poderia ter formulado A Teoria da Evolução! Quantos problemas isso teria evitado! Hoje não teríamos psicóticos fundamentalistas falando de criacionismo e nem psicóticos fundamentalistas disfarçados de cientistas falando de design inteligente! E Darwin poderia ter dedicado sua vida exclusivamente para colecionar besouros, que é o que ele gostava. Droga.

Mas estou divagando. A verdade é que a situação na casa de Labão se tornara insuportável. Ele estava puto com Jacó por ter fodido com o rebanho dele. Suas filhas Raquel e Lia também estavam desgostosas com o pai. “Não nos tratou ele como estrangeiras, vendendo-nos e devorando o nosso dinheiro?” (Gênesis 31:15). (estrangeiras que Jacó aceitou de bom grado, aliás). Imaginem o silêncio constrangedor na mesa do jantar. Labão, Jacó, Raquel, Lia, Bala, Zelfa e 13 filhos. O som de talheres e mastigação interrompido por um ocasional, seco e sarcasticamente polido “passe o sal”. Que clima! De saco cheio, Jacó, suas mulheres e sua prole resolveram fugir na calada da noite, escondidos de Labão, rumo a Canaã. Raquel, na hora da fuga ainda surrupiou os terafim de seu pai (sim, eu também tive que procurar no Google o que são terafim. São, pasmem, bonequinhos de divindades. Algo tão ridículo quanto imagens de santos. Mas que também serviam de vale-herança naqueles tempos. Capisce?).

Três dias depois, soube Labão da fuga de Jacó” (Gênesis 31:22). O velho era astuto como uma raposa! Só três dias! Pois tio Labs e seus irmãos montaram em suas motocicletas e saíram em disparada pelo deserto, seguindo o rastro do traiçoeiro Jacó. “Deus, porém, apareceu num sonho noturno a Labão, o arameu, e disse-lhe: ’Guarda-te de dizer algo a Jacó’”(Gênesis 31:24). Em outras palavras, “mesmo ele tendo te sacaneado, deixa pra lá porque ele é meu queridinho”. Foda, viu?

Nas montanhas de Galaad, Labão alcançou o cabra-safado do Jacó. “Que fizeste? Tu me enganaste, e conduziste minhas filhas como prisioneiras de guerra! Por que fugiste dessa forma, e me lograste em lugar de me avisar? Eu te teria despedido com manifestações de júbilo e com cânticos, ao som do tamborim e da harpa” (Gênesis 31:26-27). O imbecil do Jacó perdeu uma festa com tamborim e harpa! Mas o que Labão estava puto mesmo era com o sumiço dos seus bonequinhos. “Por que roubaste os meus deuses?" (Gênesis 31:30). E, então, pôs-se a revistar as tendas do bando de Jacó. Chegou à tenda de Raquel que, num ato de desespero (e talvez de necessidade), sentou em cima dos roliços terafim. E ainda disse "Não se irrite o meu senhor, se não posso levantar-me em sua presença, pois acho-me agora com a indisposição que costuma vir às mulheres" (Gênesis 31:35). Não é um jeito ótimo de se dizer menstruação? A-indisposição-que-costuma-vir-às-mulheres. E nem ouse levantar-se na presença de seu pai, ok?

Mas, voltando à nossa história, Labão estava puto e, agora, Jacó também estava puto por estar sendo acusado de ladrão de bonequinhos. Como eles poderiam resolver esse impasse? Simples, meu ávido leitor: Eles ergueram um monumento de pedra em homenagem àquele que adora ser homenageado: Javé! E voilá, estava resolvido. Jacó “ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer” (Gênesis 31:54). Uma pilha de pedras e um churrasco. Que jeito mais idiota de se acabar uma história que já estava ruim.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Gênesis 29


"Europeus branquinhos que não tem nada a ver com nossa fábula do Oriente Médio" - William Dyce, óleo sobre tela.

Erguei as mãos e dai glória a Deus! Se você chegou agora à Bíblia Cítrica, não tema infiel! Tamanha é a minha misericórdia, que recapitularei o que você precisa saber para pegar o camelo andando. Jacó é o herói do momento. Descendente de Abraão e figurão do povo escolhido pelo Senhor, ele saiu numa jornada pelo deserto, rumo à casa de seu tio Labão. Lá, ele pretende escolher uma prima para desposar, no intuito de não se misturar e afinar o sangue com a gentalha que não foi escolhida por Javé. Gentalha, gentalha, gentalha. Tá comigo? Então vamos em frente.

Nos arredores de Harã, cidade onde vivia o tio Labs, havia um poço para ovelhas beberem água. E, tampando esse poço, uma puta de uma pedra pesada pra caralho. Quantos pastores já não rasgaram um pum ao tentar erguê-la sob o sol escaldante de meu Deus! "Conheceis porventura Labão, filho de Nacor?" (Gênesis 29:5), disse o forasteiro Jacó, tentando puxar um papo com os locais. “Sim”, respondeu um pastor sorrindo com seus quatro valiosos dentes, “e eis justamente sua filha Raquel que vem com o rebanho.” (Gênesis 29:6). Putaqueopariu! Que sorte! Jacó viu a oportunidade perfeita para impressionar sua prima: Erguer a tampa do poço com seus braços fortes, viris e abençoados por Javé! Entretanto, por algum motivo, a coisa descamba. Veja. “Logo que Jacó viu Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, aproximou-se, rolou a pedra de cima da boca do poço e deu de beber às ovelhas de Labão”. Boa Jacózinho! Tá indo bem! “Depois beijou Raquel e pôs-se a chorar.” (Gênesis 29:10-11). Má-como?!? Que porra é essa de lascar um beijo assim sem pedir licença? E depois cai no choro? Comestes cocô, Jacó? Talvez, mas funcionou.

Depois desse papelão, Raquel levou Jacó para sua casa eles contaram tudo para o tio Labão. "Sim, tu és de meus ossos e de minha carne.” (Genesis 29:14), disse o velho numa brilhante constatação. De olho na prata da casa, Jacózinho foi ficando de hóspede e ajudando na labuta diária. Passado um mês, tio Labs, temendo ser pego por leis trabalhistas, disse: "Acaso, porque és meu parente, servir-me-ás (percebam o certeiro uso da mesóclise) de graça? Dize-me que salário queres." (Gênesis 29:15). Jacó não queria salário, vale refeição nem o dinheiro do busão. Jacó queria Raquel! “Eu te servirei sete anos por Raquel tua filha mais nova." (Gênesis 29:18). Labão refletiu por um minuto, coçando sua enorme laba, e topou o negócio. “Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha.” (Genesis 29:20). Lindo, né? Mas o romantismo acaba por aí. A pornochanchada bíblica que tanto gostamos começa agora.

Após sete anos na punheta, finalmente chegou o grande dia em que Jacó iria se casar com Raquel, e titio Labão convidou a cidade inteira para um grande banquete, com três ambientes (eletrônica, pop-rock e flashback), sushi bar e manobrista. Mas Labão tinha um plano secreto para pôr em prática: Acabado o bacubufo do caterefofo, ele iria conduzir sua filha Raquel à suíte de Jacó mas, ao invés disso, conduziu a irmã mais velha de Raquel, Lia! E, talvez por uma soma do quarto escuro com o porre da festa, Jacó traçou Lia! Carái véi! Pela manhã, Jacó acordou de ressaca e percebeu que havia acertado a bola na caçapa errada. "Que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Por que me enganaste?", bradou para Labão, que respondeu: “Aqui não é costume casar a mais nova antes da mais velha. Acaba a semana com esta, e depois te darei também sua irmã, na condição que me sirvas ainda sete anos." (Gênesis 29:25-27). Jacó topou na hora. E de quebra, Labão ainda deu uma escrava chamada Zelfa como brinde por ele ter traçado Lia. Como aquelas promoções que, comprando um xampú, vem um condicionador de graça. E uma semana depois, Jacó finalmente desposou sua amada Raquel e, como a promoção ainda estava valendo, levou a escrava Bala de brinde (dizem que ela era um doce!).

E adivinha quem entra em cena para cagar em cima do que já estava fedendo? Ele! Javé! Não sei você, mas eu estava com saudades dos caprichos do Senhor. Ele viu que Jacó gostava mesmo de Raquel e só usava Lia como uma boneca inflável, e não gostou nada disso. Então ele estendeu sua poderosa mão em direção a Lia e shazam! “tornou-a fecunda enquanto Raquel permanecia estéril” (Gênesis 29:31). O Senhor, em sua glória e onipotência, gosta de intervir na vida mundana ligando e desligando os ovários das mulheres. É difícil de levar a sério um personagem desses. Jacó, apesar de amar mesmo Raquel, não acanhou-se de passar repetidamente a vara em Lia, que pariu os rebentos Rubem, Simeão, Levi (o inventor da calça jeans) e Judá.

O capítulo acaba aqui, mas o show de horrores na família poligâmica de Jacó não. Você não perde por esperar!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Interlúdio: Ateísmo e moral (e porque José Luiz Datena é um completo imbecil)



O apresentador José Luiz Datena acha que jornalismo é colocar sua cabeça inchada e sem-pescoço na TV e buzinar asneiras com sua voz de vendedor de pamonha. E não é só nisso que ele está enganado. Recentemente, provando que é possível defecar pela boca, Datena afirmou que ateus são "pessoas do mal", "bandidos", "estupradores", "assassinos". O colunista Hélio Schwartsman mostra, com uma elegância que você nunca vai encontrar aqui, como e porque Datena está errado e é um imbecil. Mas nós do Bíblia Twist estamos no ramo de chutar cachorro morto, e vamos cutucar ainda mais a questão aqui.

Datena não é o único que acha que a religião é a fonte de nossa moral. Muitos questionam como ateus discernem o certo do errado, o aceitável da atrocidade. Eu sou ateu e, enquanto escrevo esse post, eu não estou petiscando jujubas do meu porta-jujubas feito de um crânio de bebê cortado ao meio. Mas como, como ó Senhor, eu sei que não é certo matar um bebê para fazer um fino baleiro? Para a nossa sorte, nosso senso de certo e errado não vem da religião. Se viesse, nós ocidentais que adoramos a Bíblia Sagrada, estaríamos apedrejando um adúltero até a morte, matando alguém por trabalhar no sábado e tratando as mulheres como bons camelos. No vídeo abaixo (infelizmente, sem legenda), o ateu, assassino e estuprador Richard Dawkins resume o assunto de forma rápida e indolor.



Pessoas que compartilham as idéias do Datena adoram citar os assassinos em massa Hitler e Stalin como notórios ateus. Seguindo esta linha de raciocínio (se é que dá pra chamar de linha. “Nó” de raciocínio, talvez?), ambos usavam bigode. E é óbvio que usar bigode faz de você um tirano genocida. Isso sem falar nas atrocidades cometidas pelos outros nazistas cristãos. A fivela do cinto do uniforme nazista trazia a inscrição “Gott mit uns”, que significa “Deus está conosco”, aliás. E cá pra nós, se fôssemos contar quantas pessoas ateus e religiosos já mataram, a competição seria injusta. A Santa Inquisição Espanhola sozinha já ia definir o placar. Mas não é essa a questão. Em qualquer grande grupo de pessoas, ateus, católicos, ruivos, torcedores do Democrata de Governador Valadares, etc., você vai encontrar indivíduos bons, íntegros e honestos, e indivíduos assassinos, ladrões e estupradores. Afirmar o contrário chama-se preconceito, e é isso que o pulha do Datena fez. E o pior, esse saco de merda ambulante tem um programa só pra ele! Não é ótimo?

P.S.: O assunto foi trazido à tona pela Madre Superiora Alerrandra, assídua frequentadora e contribuidora deste blog do cão.

sábado, 19 de junho de 2010

Gênesis 27

"Ah safado!" de Govert Flinck. Óleo sobre tela.

Isaac estava mais velho que andar pra frente e cego como uma toupeira. Enjoado de escutar seu radinho AM, resolveu pentelhar a vida de Esaú, seu filho favorito. “Tu vês, estou velho e não sei quando vou morrer”, disse o velho gagá. Quando alguém começa a conversa com uma chantagem emocional, é porque vai pedir coisa. Veja. “Toma as tuas armas, tua aljava e teu arco, vai ao campo e mata-me uma caça. Prepara-me depois um prato suculento, como sabes que gosto, e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra." (Gênesis 27:2-4). É na base do toma lá - dá cá. O velho dá a benção se Esaú encher a barriguinha enrugada dele.

Rebeca, esposa de Isaac, devia estar cansada de enxugar baba e brincar de “pra-que-lado-cai?” com a benga do velho. Por isso resolveu sacaneá-lo e, de quebra, ajudar Jacó, irmão de Esaú e queridinho da mamãe. Ela escutou por detrás da porta quando Isaac alugou Esaú, e foi logo correndo para Jacó: “Ouve-me, pois, meu filho, e faze o que te vou dizer. Vai ao rebanho e traze-me dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato suculento para o teu pai, como ele gosta, tu lho levarás e ele comerá, a fim de que te abençoe antes de morrer." (Gênesis 27:8-10). A víbora quer que Jacó se passe por Esaú para roubar essa tão cobiçada benção. Se fosse por mim, Isaac podia enfiar essa benção no rabo. Enfim. Mas Jacó, que se depila toda quinta com cera marroquina, questiona: “Mas Esaú, meu irmão, é peludo, enquanto eu sou de pele lisa. Se meu pai me tocar, passarei aos seus olhos por um embusteiro e atrairei sobre mim uma maldição em lugar de bênção." (Gênesis 27:11-12). Jacozinho fica relutante não por princípios, mas por medo do tiro sair pela culatra. É filho da mãe mesmo! Mas Rebeca não bate prego sem estopa, e já tinha pensado nesse problema da hipertricose de Esaú.

Em seu plano maquiavélico, Rebeca preparou o prato com os cabritos, “escolheu as mais belas vestes de Esaú, seu filho primogênito, que tinha em casa, e revestiu com elas Jacó, seu filho mais novo. Cobriu depois suas mãos, assim como a parte lisa do pescoço, com a pele dos cabritos” (Gênesis 27:15-16). Ó-quêi-pó-pará! Esse é o plano genial de Rebeca? Cobrir a pele de Jacó com pele de cabritos para ele ficar peludo como Esaú? Sério, ou Esaú é tão, mas tão peludo que faz o Tony Ramos parecer uma rã; ou esse plano vai dar muito errado; ou, ainda, Isaac está mais gagá do que a gente imagina. E assim foi Jacó, fantasiado de cabrito fantasiado de Esaú, levar o prato para Isaac. Que papelão.

Jacó entrou no quarto e acordou o velho. "Meu pai!" "Eis-me aqui!”, balbuciou Isaac. “Quem és, meu filho?". Jacó, na cara dura respondeu: “Eu souCOF! [engrossa a voz] Eu sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me pediste. Levanta-te, assenta-te e come de minha caça, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:18-19). E o Oscar vai para… “Como encontraste caça tão depressa, meu filho?", perguntou Isaac, desconfiando que havia algo de podre no ar. "É que o Senhor, teu Deus, fez que ela se apresentasse diante de mim." Sei, sei! O velho parece não estar completamente convencido: "Aproxima-te, então, meu filho, para que eu te apalpe e veja se, de fato, és o meu filho Esaú." (Gênesis 27:20-21). Heim?!? “Para que eu te apalpe”?!? Ica! Deus me livre! Mas enfim, agora a gente vai ver se os efeitos especiais de Rebeca funcionam mesmo. Isaac ‘apalpou’ Jacó e sentiu pelos dignos de um cabrito (porque eram mesmo) em suas mãos. “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú." (Gênesis 27:22). Então, concluiu o velho gagá, é Esaú. O curioso é que Deus, que faz os ovários de uma mulher estéril funcionar, não devolve a visão a Isaac. Nem manda um anjo para dar um tapa na nuca de Isaac e dizer “acorda, velho idiota!” Não. Ele não faz nada. Talvez porque ele não dê a mínima e já esteja de saco cheio dessa história, como eu e você.

Mas enfim, Isaac finamente resolve dar essa tal de benção para o falso Esaú. “Aproxima-te, meu filho, e beija-me." E sentindo sovaqueira emanando das roupas de Esaú que Jacó vestia disse: “Sim. O odor de meu filho é como o odor de um campo que o Senhor abençoou.” Tamanho era o fedor das vestes de Esaú que Isaac não percebeu o cheiro de laquê e pó-de-arroz de Jacó. “Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, uma abundância de trigo e de vinho! Sirvam-te os povos e prostrem-se as nações diante de ti! Sê o senhor dos teus irmãos, e curvem-se diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar!" (Gênesis 27:26-29). Linda benção, né? “Que você seja rico e poderoso e quem for contra você que tome no cu”. Bem no espírito bíblico.

Pois tão logo Jacó tinha picado a mula, chegou o coitado do Esaú, peludo e vermelho, trazendo o prato que lhe foi encomendado. “Levanta-te, meu pai, e come da caça do teu filho, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:31). “Mas será o caralho?” pensou o velho Isaac, “fiquei gagá de vez? Eu não acabei de abençoar esse f...”. E então, a ficha caiu. Isaac foi ludibriado e por isso ficou puto. “Quem é, pois, aquele fidiputa que foi à caça e me trouxe o prato que eu comi antes que tu voltasses? Eu o abençoei, e ele será bendito." (Gênesis 27:33). Esaú soltou um grito cheio de amargura, mais ou menos assim: “Mmmmmmuuuuuhhuuuuéééééénnnhhéééé… é…” e disse: “Abençoa-me também a mim, meu pai!" "Teu irmão, respondeu-lhe Isaac, veio, fraudulentamente, tomar a tua bênção." (Gênesis 27:34-35). Esaú já estava farto de Jacózinho puxando seu tapete! Porra! Assim não dá! "Será porque ele se chama Jacó que me suplantou já duas vezes? (hã?) Tirou-me meu direito de primogenitura, e eis que agora me rouba minha bênção! Não reservaste, porventura, uma bênção também para mim?" (Gênesis 27:36). E Esaú pôs-se a chorar. Mimimimi.

Isaac poderia dizer “Deus te abençoe, meu fi” e resolver o problema. Pronto, todo mundo iria pra casa feliz. Mas não, ao invés disso ele resolve fazer uma profecia. "Eis que a tua habitação será desprovida da gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás de tua espada, servindo o teu irmão, mas, se te libertares, quebrarás o seu jugo de cima do teu pescoço." (Gênesis 27:39-40). Traduzindo, “o seu irmão mentiroso quis roubar sua benção. Eu sou gagá e idiota e deixei. Agora você vai se foder como escravo dele, a não ser que você mate ele, ok?”. E no cu, não vai nada? Esaú, amassando furiosamente uma latinha de cerveja, disse “Virão os dias do luto de meu pai, e matarei meu irmão Jacó." (Gênesis 27:41). Tenso. Rebeca, para proteger seu neném Jacó, manda-o para tirar umas férias na casa o tio Labão (aquele da laba grande), até que Esaú esqueça da mágoa. E do jeito que Esaú é abestalhado, é capaz que esqueça mesmo. E, ufa, acabou.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Gênesis 26


"Isaac e Rebeca brincando de pau-de-sebo" - 1518-1519, afresco de Raffaello Sanzio.

Senhor Javé! Rogo para que me ilumine! Como, ó, como, Senhor Meu Deus? Como o maior best-seller da história pode ser tão ruim? Me acompanhe, herege leitor.

Recordemos Gênesis 12: Abraão muda-se para o Egito. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. O Faraó fode Sara e Deus fode o Faraó.

Não precisamos retroceder muito para recordar Gênesis 20: Abraão muda-se para as terras do Rei Abimalec. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. Abimalec quase fode Sara e Deus quase fode Abimalec.

Em Gênesis 26, uma fome se abate sobre a região e Isaac muda-se, com sua esposa Rebeca, para o reino do mesmo Abimalec. Agora, quem adivinhar o que acontece, vai concorrer a um brinde exclusivo do Bíblia com Limão e Gelo: um consolo de borracha anti-alérgica com a inscrição “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” em alto relevo! Adivinhou? Parabéns, leitor! É exatamente isso! Isaac, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Rebeca é, pasmem, sua irmã.

Abimalec, que apesar de já ter caído no golpe antes, se surpreende ao flagrar Rebeca brincando de pega-vareta com Isaac e diz: “É evidente que é tua mulher! E como dizias tu que era tua irmã?". Isaac, ainda abotoando seu jeans, responde “Porque eu temia que me matassem por causa dela.". Abimalec, emputecido, brada: "Que nos fizeste? Um pouco mais e alguém do povo teria abusado de tua mulher, e terias atraído o pecado sobre nós!" (Gênesis 26:9-10). Se fosse irmã, não seria abuso e nem pecado, segundo a lógica bíblica. “Então Abimelec mandou publicar (no twitter?) diante de todo o povo que seria morto quem quer que tocasse naquele homem ou em sua mulher.” (Gênesis 26:11). Foi só no meu saco que essa história já deu? Obrigado.

O que se passa depois é uma bocejante disputa entre Isaac e o filisteus por poços de água, mas vou poupá-lo deste sofrimento. Se você, leitor com conhecimento bíblico, sabe de alguma importância histórico-cultural dessa pentelhação, nos ilumine na caixa de comentários. Porque, pra mim, parece só algo tão vago que um padre/pastor pode usar como metáfora para o que for mais conveniente.

Pra finalizar, Esaú “tomou por mulheres Judite, filha de Beeri, o hiteu, e Basemat, filha de Elon, o hiteu.” (Gênesis 26:34). Não me surpreende que um homem vermelho e peludo tenha duas esposas. Não explica bem porque, mas “elas foram um motivo de desgosto para Isaac e Rebeca.” (Gênesis 26:35). Seria porque elas são filhas de hiteus e não pertencem ao povo escolhido descendente de Abraão? Quem quer ser xenofóbico e preconceituoso encontra respaldo na nossa Bíblia Sagrada. Vou lá ajoelhar no milho que dói menos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gênesis 22


"Abraão prepara uma picanha" de Caravaggio. Óleo sobre tela.

Pelo jeito Deus estava quase tão entediado quanto você, fiel leitor, pois ele chegou para seu único amigo e disse: “’Abraão!’ ‘Eis-me aqui’, respondeu ele. ‘Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar.’" (Gênesis 22:1-2). Ou, trocando em miúdos: “Abraão, você pode fazer um churrasco do seu próprio filho, só para celebrar como eu sou fodão?”. Só se for agora!

Abraão, com uma obediência canina, partiu com dois servos, lenha e seu filho Isaac rumo ao monte indicado pelo bondoso Deus. Chegando lá, disse aos servos: “Ficai aqui com o jumento, eu e o menino vamos até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós." (Gênesis 22:5). Enquanto subiam a pirambeira, o pequeno Isaac já percebeu que tinha gato nessa tuba. “’Meu pai!’ ‘Que há, meu filho?’ Isaac continuou: ‘Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto?’”(Gênesis 22:7). Abraão não queria dizer que o próprio Isaac era o prato principal do menu. ‘Deus,’ respondeu-lhe Abraão, ‘providenciará ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho.’" (Gênesis 22:8).

Abraão fez uma pilha de lenha, amarrou seu filho Isaac em cima e sacou a peixeira para começar o serviço de açougueiro. “O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: ‘Abraão! Abraão!’ ‘Eis-me aqui!’ ‘Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único’ (único o caralho!, diria Ismael)” (Gênesis 22:12). É claro, amigo leitor! O bondoso Deus não queria que Abraão matasse de fato seu filho. Ele queria somente testar se Abraão era obediente mesmo! Não consta na versão oficial das escrituras, mas o anjo do Senhor ainda disse: “Abraão, olha praquela câmera ali atrás da moita! Dá tchauzinho, porque você está na Pegadinha do Senhor!”. Sério. “Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos; e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho.” (Gênesis 22:13). Agora pergunta se o cordeiro achou graça nessa história.

Abraão chamou a este lugar Javé-yiré” (Gênesis 22:14), que significa ‘Deus-sacana-e-engraçadinho’. Então o Senhor disse "Juro por mim mesmo (ele não pode dizer ‘juro por Deus’, né?): pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha voz.” (Gênesis 22:16-18). Será que Deus também vai pagar as sessões de análise para a criança que foi amarrada em cima de uma pilha de lenha pelo próprio pai?

Que lição devemos tirar desta bela história? Se o bom Senhor mandar você enfiar a cabeça na privada e dar a descarga, faça-o, pois ele vai te ajudar e multiplicar sua posteridade. Mas, para a maioria de nós, Deus fala através de padres, pastores, rabinos e gurus, e nunca diretamente. Portanto, se algum deles disser para você entregar seu dinheirinho a Deus, por mais sem sentido que isso pareça, lembre-se da história de Abraão. Conveniente?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Gênesis 20

Sugiro que você pegue agora seu exemplar da Bíblia Sagrada, que certamente está ao alcance de sua mão, e consulte Gênesis 12. Se, por algum infortúnio do destino, sua bíblia não está com você agora (por exemplo, seu cônjuge pode estar usando-a para orar fervorosamente em algum outro local da casa), consulte a bíblia online em nossa lista de links. Mas nem pense em consultar os arquivos deste blog, visto que ele apresenta uma versão deturpada e desrespeitosa das escrituras. Enfim, em Gênesis 12, Abraão, que ainda se chamava Abrão, disse para um faraó que sua mulher Sara, que ainda se chamava Sarai, era sua irmã. Por motivos que até Deus duvida, Sara acabou sentando no colinho do faraó e Abraão foi agraciado com muitos presentes. Lembrou?

Pois bem, neste capítulo, Abraão, depois do show de horrores que foi a destruição de Sodoma e Gomorra, resolveu peregrinar para o reino de Gerara, onde Abimalec era rei. E, quem diria, resolveu aplicar o golpe do trace-minha-esposa-porque-ela-é-minha-irmã de novo! “Ele dizia de Sara, sua mulher, que ela era sua irmã. Abimelec, rei de Gerara, arrebatou-lha (mesmo ela tendo já seus noventa e cacetada).” (Gênesis 20:2). Mas antes que o rei arrebatasse de fato Sara, o Deus Altíssimo lhe aparece num sonho e ameaça: “Vais morrer, por causa da mulher que roubaste, porque é casada.” (Gênesis 20:3). Abimeleca, como qualquer pessoa sensata, acha que Deus é um imbecil e questiona: “Senhor, fareis perecer mesmo inocentes? (ah, se vossa majestade soubesse quantos inocentes o bom Deus já ceifou...) Não me disse ele que ela era sua irmã? E ela mesma me disse: É meu irmão. É na simplicidade de meu coração e com as mãos puras que fiz isso.” (Gênesis 20:5). Meio sem jeito, o Todo Poderoso responde: “Sei que é na simplicidade do teu coração que agiste assim; por isso, preservei-te de pecar contra mim, e não deixei que a tocasses.” (Gênesis 20:5). Curiosamente, ele não teve esse cuidado quando o faraó, de Gênesis 12, caiu no mesmo golpe. “Devolve agora a mulher deste homem, que é profeta (com mulher de profeta não se mexe, pelo jeito), e ele rogará por ti para que conserves a vida. Mas, se não a devolveres, sabes que morrerás seguramente, tu e todos os teus.” (Gênesis 20:7). E assim, o Rei Abimoleque, ameaçado de morte, não encosta um dedinho sequer na Miss Velho Testamento, Sara.

Mas o nosso amigo rei, com razão, quer saber por que Abraão aprontou essa porra para cima dele, e pergunta: “Que nos fizeste? Em que te ofendi para que nos expusesses, a mim e ao meu reino, ao castigo de um tão grande pecado. Fizeste-me o que não devias fazer. Que tiveste em vista agindo assim?” (Gênesis 20:9-10). Abraão, na maior cara de pau, responde: “Eu pensava comigo que não havia certamente nenhum temor a Deus nesta terra (preconceituoso, né?), e que me matariam por causa de minha mulher (repito: de mais de 90 anos!).” (Gênesis 20:11). Ou seja, o exemplar patriarca Abraão não tem problemas em fazer Abimalec e companhia serem massacrados injustamente pelo bondoso Deus para salvar o próprio traseiro.

Mas o melhor vem agora. Abraão, como nas melhores novelas mexicanas, solta a bomba: “Aliás, ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, mas não de minha mãe; ela tornou-se minha mulher.” (Gênesis 20:12). Exatamente, Abraão é meio-irmão de Sara. O que faz dele meio-mentiroso, meio-incestuoso e um completo imbecil. Mas, depois dos casos de incesto escabrosos que já vimos neste fabuloso livro de valores, isso nem é tão surpreendente. E Abraão continua: “Quando Deus me tirou da casa de meu pai, eu disse-lhe: Faze-me esta graça: onde quer que formos, dirás de mim que sou teu irmão.” (Gênesis 20:13). Traduzindo: “És muito gostosa. Portanto, onde formos, dirás que sou teu irmão e darás o bumbunzinho para qualquer um. Dessa forma nunca serei morto por sua causa e de quebra ainda posso ganhar uns presentinhos”.

E, novamente, foi tiro e queda. “Tomou então Abimelec ovelhas, bois, servos e servas, e deu-os a Abraão, ao mesmo tempo que lhe devolvia Sara, sua mulher.” (Gênesis 20:14). Abraão, feliz da vida, “intercedeu junto de Deus, que curou Abimelec, sua mulher e suas servas, e deram novamente à luz.” (Gênesis 20:17). Não sabia que Abimolenga e suas mulheres estavam com problemas para engravidar? Nem eu. “Porque o Senhor tinha ferido de esterilidade todas as mulheres da casa de Abimelec, por causa de Sara, mulher de Abraão.” (Gênesis 20:18). Aaah bom, agora entendi. Olha, eu não sou nenhum exemplo de escritor, mas esse livro é mal escrito pracaralho, heim?

Agora falando sério (mas não muito), essa não é a primeira vez e nem será a última que histórias vão se repetir na Sagrada Bíblia. Peço desculpas pelas histórias manjadas e piadas repetitivas. Mas vamos juntos segurar na mão de Deus e ir em frente!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Feliz Nat... ah, deixa pra lá.



Amigos,

O blog entrará em recesso até o comecinho de Janeiro. A equipe (hã?) do Bíblia com Limão e Gelo deseja boas festas e um feliz ano novo, esteja você celebrando o nascimento do Carpinteiro da Galiléia ou não.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Gênesis 12

Nos próximos capítulos, vamos acompanhar as aventuras de um personagem muito importante chamado Abrão (isso, Abrão. Eu também achei que estava faltando um “a”, mas vocês não perdem por esperar). O número dele foi sorteado na loteria divina e o Senhor resolveu que, dali para frente, ele iria ajudar a ele e a quem o seguisse. Quem torcesse por outro time, Deus iria foder. Veja: “O Senhor disse a Abrão: ‘Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti’” (Gênesis 12:1-3).

Pois bem. Amanheceu, Abrão pegou a viola, botou na sacola, “tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã” (Gênesis 12:5), e foi viajar. Ele provavelmente “adquiriu” esses escravos numa bela promoção de queima-de-estoque e não podia deixá-los para trás. Chegando à terra de Canaã, “o Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: ‘Darei esta terra à tua posteridade.’ Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido”(Gênesis 12:7). (Nota do autor: Caso o Senhor “lhe apareça”, verifique se a maionese que você comeu no lanche estava na validade antes de edificar um altar. Especialmente se você estava peregrinando pelo deserto, onde maioneses estragam bem rápido).

Abrão seguiu viagem até depois de Betel, onde edificou mais um altar para puxar o saquinho do Senhor. O que parece que não adiantou muita coisa, pois, por causa da fome e da miséria que se abateu no local, Abrão teve que se mudar para o Egito, onde a coisa não estava tão feia. Mas Abrão, esperto que é (ou nem tanto, como veremos), se tocou que sua esposa Sarai era um pitéuzinho de parar o trânsito e disse: “Escuta, sei que és uma mulher formosa. Quando os egípcios te virem, dirão: 'É sua mulher', e me matarão, conservando-te a ti em vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que eu seja poupado por causa de ti, e me conservem a vida em atenção a ti." (Gênesis 12:13). Ah, mas foi tiro e queda! Os egípcios ficaram de queixo no chão com o decote generoso e o rebolar malemolente de Sarai. “Os grandes da corte, vendo-a, elogiaram-na diante do faraó, e a mulher foi introduzida no seu palácio (veja bem, quem introduziu mesmo foi o faraó). Por causa dela, Abrão foi bem tratado pelo faraó, e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos” (Gênesis 12:16). (Por que exatamente “servos e servas” aparece entre “jumentos” e “jumentas” eu não sei. Haveria alguma mensagem subliminar aqui?).

Você leu certo, fiel leitor. Enquanto Sarai brincava de pega-vareta e rolentrando com o faraó, Abrão reabasteceu sua fazendinha ambulante com presentes. Como se não estivesse absurdo o suficiente, Deus apareceu e “feriu com grandes pragas o faraó e a sua casa, por causa de Sarai, mulher de Abrão” (Gênesis 12:17)! Como assim?!? Abrão foi covarde e mentiroso, entregando a esposa como se entrega uma bicicleta velha, para salvar a própria pele. O faraó, por não ter poderes psíquicos, não adivinhou que Sarai era a esposa de Abrão, e passou a vara (ou seria o cetro?) na mulher. E quem Deus, em sua glória, resolveu foder com grandes pragas? O faraó!

Depois de muito bater o dedinho do pé com toda força no pé da mesa; depois de muitas vezes ter sua torrada caindo com a manteiga para baixo; depois de muitas vezes sair do banho e perceber que a toalha já estava molhada, a ficha do faraó caiu. Ele estava sofrendo as pragas do Senhor porque comeu a mulher de Abrão. Puto, e com razão, mandou chamar Abrão e disse: "’Que me levaste a fazer? Porque não me disseste que era tua mulher? Por que disseste que ela era tua irmã, levando-me e a tomá-la por esposa? Mas agora eis tua mulher: toma-a e vai-te (‘para a puta que te pariu’, eu teria adicionado)!’ Então, o faraó deu ordens aos seus para reconduzir Abrão e sua mulher com tudo o que lhe pertencia" (Gênesis 12:19-20). Aparentemente o faraó nem pediu os presentes de volta, tamanha era a pressa para não ter que ver a cara de Abrão. “E os presentes?” teria perguntado Abrão. “Enfia no rabo!” bradaria o faraó.

E essa foi a primeira aventura de nosso amigo Abrão. Agora, será que ele realmente precisaria ter entregado a mulher para o faraó? Não quero parecer repetitivo, mas não seria mais fácil se:

a) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas eu sou um protegido de Deus. Se você me matar e/ou tomá-la como esposa, pragas cairão sobre você!”?

b) Abrão tivesse dito para o faraó: “Sim, ela é gostosa, é minha mulher, mas está com doenças sexualmente transmissíveis que derrubariam um camelo. Coloca a piroca lá dentro e você vai ver o que é praga divina.”?

c) Sarai tivesse disfarçado sua formosura com um travesseiro na barriga, uma verruga falsa na cara ou algo do gênero?

Talvez Abrão não tenha escolhido nenhuma das alternativas porque ele, na verdade, achou ótimo ganhar ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos. Enfim. Acho que é isso.

P.S.: Não quero julgar Abrão por ter seus escravinhos. Essa história foi escrita há mais de 3000 anos atrás (aqui a expressão “mais antigo do que o rascunho da bíblia” se encaixa perfeitamente) e, se qualquer um de nós vivesse naquela época, iria achar a escravidão normal. Eu mesmo teria um escravo digitando este blog para mim. O que me revira o estômago, é que muitas pessoas acham que a Bíblia é uma fonte de valores para os dias de hoje. Mas, acho que já falei disso... obrigado e desculpe.

sábado, 31 de outubro de 2009

Gênesis 3



Se você ainda acha que a história não está avacalhada o suficiente, quem sabe agora: Animais falantes! É assim que Gênesis 3 começa. “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: ‘É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?’” (Gênesis 3:1). Papo vem, papo vai, a mulher cai no golpe da serpente e come o fruto da árvore-da-ciência-do-bem-e-do-mal (nome comprido, né?). E ainda “(...) o apresentou também ao seu marido (quando eles casaram mesmo? Perdi essa parte!), que comeu igualmente” (Gênesis 3:6).

Antes de continuarmos, só um adendo. Eu não gosto de pegar no pé de divindades, mas veja só: Deus colocou a tal árvore proibida no jardim do Éden, certo? Deus também colocou um animal (falante, eu insisto) cheio de malemolência nesse mesmo jardim, certo? Desculpe, mas não precisa ser nenhum engenheiro para ver que a merda estava feita. Cedo ou tarde a coisa ia desandar.

E desandou. Tamanho foi o revertério que fruto causou na barriga dos dois, que eles finalmente perceberam que estavam nus! E “tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si” (Gênesis 3:7). (Exatamente! Então se você está aí nu enquanto lê este blog, pode ir já pegar uma folha de figueira e cobrir suas vergonhas!) E apesar de tanto pudor, não achei nenhum versículo que dissesse que o homem reclamou do topless da mulher. Mas enfim, isso é só minha mente maculada trabalhando. Voltemos à novela.

O homem e a mulher escutaram os passos de Deus, que estava dando uma voltinha e curtindo a brisa da tarde (mesmo!), e se esconderam nas árvores. Mas Deus, já sentindo cheiro de encrenca, chama pelo homem que se entrega e diz “Ouvi o barulho dos vossos passos no jardim; tive medo, porque estou nu; e ocultei-me” (Gênesis 3:10). O Senhor, em sua sapiência, percebe que tem gato nessa tuba e começa o interrogatório: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?” (Gênesis 3:11). “Responde, filhadaputa!” eu teria adicionado.

O homem, num ato de covardia digno do primeiro ser humano da terra, não hesita em dedurar a mulher logo de cara: "A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi” (Gênesis 3:12). Ah safado! A mulher, vendo que o homem se livrou rapidinho, passa a batata quente para a serpente: "A serpente enganou-me,- respondeu ela - e eu comi." (Gênesis 3:13). Deus ficou puto. Se podemos tirar alguma lição deste livro, é que emputecer Deus é um péssima idéia. De nada adiantou o homem, a mulher e a serpente ficarem jogando a culpa um no outro. Deus resolveu foder a vida dos três.

A serpente, “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar" (Gênesis 3:14-15). Tomou? Aparentemente, a serpente tinha pernas e esse corpo esguio e rastejante que conhecemos hoje foi uma maldição divina. Ô castigo! Além disso, se o objetivo do Senhor Deus era criar uma inimizade entre a mulher e a cobra, o tiro saiu pela culatra.

Para a mulher, Deus, em sua ira, lançou: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (Gênesis 3:16). É isso mesmo. A mulher estará sob o domínio do homem. Um conceito perfeitamente aceitável se você vive numa tribo no oriente médio há milhares de anos atrás, quando uma mulher valia pouco mais que um bom camelo. Ainda bem que ninguém mais leva esse livro a sério hoje em dia! E, por falta de evidências históricas, só me resta supor que o seguinte diálogo aconteceu entre o homem e o Senhor:

- Deus, aquela história de multiplicar os sofrimentos do parto e tal... Você vai aumentar o tamanho da cabeça do neném ou diminuir a...?
- Vou diminuir a...
- YESSS!!!

Mas o Senhor interrompeu a alegria serelepe do homem ao dizer: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar” (Gênesis 3:17-19). É isso, meu amigo. O homem, que levava a vida na flauta, saltitando pelo Éden, balançando seu pirulito para lá e para cá, vai ter que começar a pegar no batente! E tudo isso porque ele cometeu o erro de ouvir a voz da mulher! Esposa aqui não pode nem abrir a boca.

Finalmente, aprendemos os nomes dos nossos heróis. “Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20). Se isso não fez o menor sentido para você também, ótimo. Então Deus, achando que as folhas de figueira eram muito sensuais e sem o menor problema em usar casacos de pele, “fez para Adão e sua mulher umas vestes de peles, e os vestiu. E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente’" (Gênesis 3:21-22). Alto lá! “Como um de nós” quem, cara pálida? Com quem Deus está falando? Com outros deuses? Nem chegamos na parte da Santíssima Trindade e já podemos jogar o monoteísmo pela janela! E Deus, sabiamente, não quer que seu pet viva eternamente. Se bem que, se isso fosse uma preocupação minha, eu teria escolhido um hamster.

Tá cansado? Eu também, mas já está acabando. Deus então dá o primeiro pé-na-bunda da história e expulsa Adão e Eva do Éden e, provavelmente por ordem da seguradora, coloca querubins armados até os dentes protegendo a árvore da vida eterna. Tenha medo!

Nesse capítulo vimos como e porque a humanidade vive neste mundo cheio de filas de banco e internet lenta, e não no paraíso. O texto deixa claro, mais de uma vez, que a mancada da mulher foi o estopim para toda a miséria e desgraça do planeta. Podíamos deixar de hipocrisia e rebatizar “O Pecado Original” para “A Cagada de Eva”. Mas cá pra nós, preciso advogar em defesa da portadora da primeira mitocôndria. Imagine que um adulto entrega uma caixa de fósforos para duas crianças, chamadas Adão e Eva, brincarem. Eva risca um fósforo e queima Adão. Quem é o imbecil da história? Obrigado.

Para terminar, recapitulemos o que Deus disse para Adão em Gênesis 2. Se o homem comesse o danado do fruto ele morreria “indubitavelmente”. Ele não morreu. Além de irresponsável e vingativo, podemos adicionar mentiroso à lista de adjetivos para o nosso bom Deus.