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domingo, 3 de julho de 2011

Gênesis 38 - Parte I


De acordo com a Teoria da Evolução de Charles Darwin, a humanidade não chegou onde chegou batendo punheta.

o.na.nis.mo: sm (Onã, np+ismo) 1. Coito incompleto para evitar a fecundação. 2. Vício da masturbação. – Dicionário Michaelis


A história de Onã, em Gênesis 38, fomenta mais polêmica do que a discussão feijão em cima do arroz/arroz em cima do feijão. Estaria nela a palavra divina sobre a masturbação? O cinco-contra-um? A punheta e a siririca? Pois não tema, internauta solitário! Vamos aos fatos!

Judá escolheu para Her, seu primogênito, uma mulher chamada Tamar”. Assim, como quem dá um presente de formatura. “Her, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, e o Senhor o feriu de morte” (Gênesis 38:6-7). Pois é. Deus é Amor, e Amor não gostou nada do comportamento de Her e zás!, Her caiu como jaca mole. Eu sei, eu também gostaria de mais detalhes. O que teria feito Her para emputecer tanto o Senhor Javé? Teria ele chutado muleta de aleijado? Cuspido em cabeça de careca? Deixado chokito boiando na piscina do clube para parecer cocô? Ou escrito um blog com profanações? Nunca saberemos. Também nunca saberemos como Ele o fez. Um tradicional raio na cabeça? Um piano de cauda caindo dos céus? Ou simplesmente o cólon de Her explodiu e ele morreu lentamente de infecção generalizada? A Bíblia lista o nome do papagaio do terceiro primo irmão de cada maldito descendente de Abraão, mas omite esses detalhes que todo mundo quer saber! Foda, viu! Mas tá, continuemos.

Onã era o irmão mais novo do falecido Her e seu pai Judá disse: “Vai, toma a mulher de teu irmão, cumpre teu dever de levirato e suscita uma posteridade a teu irmão" (Gênesis 38:8). Essa era a lei. Se o primogênito empacotasse, caberia ao irmão passar a vara na viúva e gerar um rebento para herdar os bens da família. Tamanha era a importância da primogenitura que, nem com a morte do irmão mais velho, o irmão mais novo tinha direito a alguma coisa. Sacanagem. E sabe quem também achou essa história um belo de um pau na bunda? Onã. E “maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade” (Gênesis 38:9). Macular-se por terra aqui, meu amigo, é gozar fora. Parafraseando MC Copinho, na letra de sua canção “ Goza Fora ”, “E fica de quatro, de cabeça para baixo! Nós não goza dentro, nós goza na cara!”. Ah, poesia... enfim. “Seu comportamento desagradou ao Senhor, que o feriu de morte também” (Gênesis 38:10). Ka-pow! Mais um pro saco! Javé nem sequer dá uma advertência, um cartão amarelo. “Dá pra gozar dentro, faizfavô? Senão eu te mato, tá?”. Não, não. Desagradou Javé, é no cu mesmo que você toma. Novamente, as Santas Escrituras nos poupa dos detalhes. Podemos, como exercício mental, imaginar a cena:

Onã e Tamar fazem amor numa tenda.
Onã
: Lá vem...
Tamar: Tira, tira!
Tamar se vira para o outro lado para dar alguma privacidade para Onã terminar o serviço.
POW!!! Um terrível estrondo e um raio ilumina o interior da tenda. Cheiro de carne queimada no ar.
Tamar
: Querido... terminou? Foi bom? ...querido?

Mas chega de devaneios. Vamos à polêmica. De acordo com minha extensa revisão bibliográfica (leia-se: 2 minutos no Google), alguns padres e pastores usam esta passagem para ilustrar como Javé não gosta que você se masturbe. Pois é. Onã foi o Pai da Punheta, o primeiro a esfregar a lâmpada do gênio, e essa foi a sua ruína. Saiba que quando você está lá, na solidão do banheiro, digamos, “onando”, você não está de fato sozinho. Deus, aquele pervertido, está olhando você fazer justiça com as próprias mãos. E Ele ainda está considerando seriamente explodir o seu cólon. Que merda, né?

Mas há quem discorde. O que enfureceu Deus aqui, não foi a punheta per se, mas o coito interrompido, ou Coitus Interruptus, como diria Pôncio Pilatos muitos anos mais tarde. O que joga por terra (turum-tish!) todo o significado da palavra onanismo. Estariam os dicionários nos enganando todo esse tempo? O que os defensores desse ponto de vista não consideram, é que a punheta é parte integrante do coito interrompido. O cara tem que ser muito ninja pra tirar e sair mangueirando porra sem qualquer intervenção manual! Qualquer um que já praticou ou que já assistiu clássicos do pornô pode testemunhar a favor disso. Veja bem, caro leitor, eu também preferiria não entrar nesses pormenores. Mas a Bíblia não explica e eu truco que algum padre ou pastor aborde o assunto assim, sem anestesia. Eu me sinto com a responsabilidade de abrir as cartas na mesa. Mas vamos em frente.

Uma terceira corrente, ainda afirma que, o que Javé não engoliu (turum-tum-tish!), foi Onã tentando burlar a tal da lei do levirato. Se realmente isso procede, você pode curtir a sua Playboy Relíquia da Mara Maravilha sem se preocupar com o castigo divino. Mas como saber? Como, meldeos? As Sagradas Escrituras não ajudam nada para esclarecer a charada. E como o seguro morreu de velho e o desconfiado ainda vive, o melhor é evitar os três. Não pratique o cinco-contra-um, não pratique o Coitus Interruptus, e não tente dar o gato na lei do levirato. Muitos padres católicos, por exemplo, não arriscam bater uma punheta e aliviam os desejos carnais metendo em cu de coroinha. E, é claro, gozam dentro.

Mas e nossa história? Tamar já teve dois maridos pulverizados pelo Bom Senhor e o terceiro na fila, o caçula Sela, ainda era apenas uma criança, mais interessada em brincar de carrinho do que de carrinho-de-mão. "Conserva-te viúva em casa de teu pai até que meu filho Sela se torne adulto" (Gênesis 38:11), disse Judá. Quer saber o que Tamar acha disso tudo? Nem Judá. Mas a viúva tem uma carta na manga, e você não perde por esperar.

Desculpa pôr tudo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gênesis18-19


"Deus botando para foder" de John Martin, óleo sobre tela.

Tremei, infiéis. O episódio a seguir não é para os fracos de estômago. Teremos mortes aos baldes, sexo incestuoso e um caso de desidratação extrema. Se você acha que simplesmente não agüenta o tranco, clique aqui. Se resolveu ficar, não me ligue no meio da noite reclamando que não consegue dormir, ok?

Nossa história começa com, adivinha, Deus aparecendo para Abraão enquanto ele sentava na sua varanda “no maior calor do dia (coincidência?)” (Gênesis 18:1). Mas dessa vez, a visão é acompanhada de três viajantes que estavam passando e Abraão oferece sua hospitalidade. Na verdade, é cortesia com o chapéu dos outros (o chapéu de Sara, para ser mais preciso): “Abraão foi depressa à tenda de Sara: ‘Depressa, disse ele, amassa três medidas de farinha e coze pães.’" (Gênesis 18:6). “Amassa você, velho preguiçoso!” deve ter pensado Sara. E ainda ordenou que um criado preparasse um novilho (Abraão mesmo não fez porra nenhuma).

Os viajantes, enquanto fazem uma boquinha, profetizam que voltariam em um ano e, então, Sara teria um filho. Ela, que escutava escondida, “pôs-se a rir secretamente: ‘Velha como sou, disse ela consigo mesma, conhecerei ainda o amor? E o meu senhor também é já entrado em anos.’ (entrado em anos = broxa)" (Gênesis 18:12). O Senhor não achou graça nenhuma nas risadinhas de Sara. “Será isso porventura uma coisa muito difícil para o Senhor?” (Gênesis 18:14), disse Javé emputecido. “Sara protestou: ‘Eu não ri’, disse ela, pois tinha medo (de ser pulverizada pelo bom Deus). Mas o Senhor disse-lhe: "Sim, tu riste." (Gênesis 18:15). Seria ótimo se eles ficassem mais uns dez versículos num ping-pong de “não ri!”, “riu sim!”. Mas isso não acontece. Droga.

Deus então resolve abrir o jogo para Abraão do que vem por aí. “É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. Eu vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, eu o saberei." (Gênesis 18:20-21). O povo de Sodoma e Gomorra vivia entregue a putaria. Era todo mundo de abadá atrás do trio elétrico dia e noite, e Deus não gosta desta avacalhação (curiosamente ele, em sua onipotência, tem que descer para ver se as fofocas são verdade ou não). Abraão já sente pelo tom na voz do Senhor que vem massacre por aí e, num (aparente) surto de bondade, questiona: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (Gênesis 18: 23-24). Imagine se o bom Deus, que já afogou toda a humanidade num dilúvio, iria cometer uma injustiça dessas! “Se eu encontrar em Sodoma cinqüenta justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles." (Gênesis 18:26). É ou não é bondoso? Só que mais bondoso ainda é Abraão, que retruca: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza (hã?). Se porventura faltarem cinco aos cinqüenta justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cincos?" (Gênesis 18:28). E esse jogo de penchincha, no estilo “quer-pagar-quanto?”, continua até Deus respondendo "Não a destruirei por causa desses dez." (Gênesis 18:32).

Talvez você, como eu, tenha caído no golpe de que Abraão estava realmente preocupado com os inocentes que iriam se foder na mão de Deus. Mas o que nosso amigo estava preocupado mesmo era com seu sobrinho Lot, que vivia em Sodoma. Isso se chama nepotismo, a propósito.

Pois em Sodoma chegaram dois anjos e Lot ofereceu sua hospitalidade. “Lot preparou-lhes um banquete, mandou cozer pães sem fermento (desses que faz uma pelota na boca que você mastiga, mastiga e o bicho não desce, sabe?) e eles comeram.” (Gênesis 19:3). Mas a população de Sodoma viu que tinha carne nova no pedaço e cercou a casa de Lot. “Onde estão, disseram-lhe, os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos." (Gênesis 19:5). Se você acompanha o blog desde o começo, já sabe que “conhecer” na bíblia significa “passar a vara”. Ou seja, a população de Sodoma queria mesmo as bundinhas dos anjos para... é, sodomizar. Lot sai para tentar acalmar o rebuliço. "Suplico-vos, meus irmãos, não cometais este crime. Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra do meu teto." (Gênesis 19:7-8). Você leu certo, filho de Deus. Lot, querendo concorrer ao troféu de pai do ano, ofereceu suas duas filhas virgens para a multidão violar a vontade, desde que deixassem os anjinhos do Senhor em paz. Lindo, né?

Mas a turba enfurecida não quer saber de acordo! Qualquer coisa que faz sombra eles querem meter o bilau, e os anjinhos estão no topo da lista! Mas eis que um milagre se sucedeu: Os sodomitas tentaram entrar a força na casa de Lot, mas os anjos, numa sagaz manobra, puxaram Lot para dentro, fecharam a porta e SHAZAM! “feriram de cegueira os homens que estavam fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão por reencontrar a porta.” (Gênesis 19:11). Lot celebrou com uma dancinha da vitória e ainda tirou um sarro: “Uhu! Toma essa! Quero ver achar buraco de cu agora, bando de fidiputa!” (não, ele não fez isso... mas poderia).

Os dois homens disseram a Lot: ‘Tens ainda aqui alguns dos teus? Genros, ou filhos, ou filhas, todos os que são teus parentes na cidade, faze-os sair deste lugar, porque vamos destruir este lugar, visto que o clamor que se eleva dos seus habitantes é enorme diante do Senhor, o qual nos enviou para exterminá-los.’" (Gênesis 19:13). Estava com saudades daquele Deus que atira primeiro e pergunta depois? Que extermina aqueles que não se encaixam no seu modelo de “justo”? Ele voltou! E lembra daquele papo de “perdoarei a cidade toda se houverem justos entre os ímpios”? O bom Deus achou uma brecha na lei e enviou os anjos a Sodoma para avisar Lot. Assim ele poderia satisfazer sua vontade de massacrar uma cidade inteira, e ainda salvar os “justos” (leia-se: parentes de Abraão). Gênio!

Lot então saiu para avisar seus genros e filhas desposadas que o bom Deus iria transformar a cidade em migalhas, “mas seus genros julgaram que ele (tinha exagerado na aguardente e) gracejava” (Gênesis 19:14). Na manhã seguinte, os anjos conduziram Lot, sua mulher e suas duas filhas (que, não graças a Lot, ainda eram virgens) para os limites da cidade e disseram “Pernas pra que te quero, Lot e companhia!”. Mas havia um porém: “Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície; mas foge para a montanha senão perecerás." (Gênesis 19:17). Mas Lot não queria ficar nas montanhas, sem TV a cabo, internet e essas coisas, e pediu que os anjos não destruíssem uma cidade próxima, que tinha um hotelzinho maneiro. “Concedo-te ainda esta graça: não destruirei a cidade a favor da qual me pedes.” (Gênesis 19:21).

Finalmente, nosso bom e misericordioso Deus manda um bombardeio de enxofre e fogo sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, para cortar o mal da putaria e avacalhação pela raiz. “E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo.” (Gênesis 19:25). Erguei as mãos e dai glória a Deus! Pensa que acabou? A esposa de Lot, ao escutar o som de uma cidade sendo destruída, cometeu o gravissíssimo e imperdoável pecado de olhar para trás. O Senhor, para reforçar o argumento de que ele mata mesmo, transformou a mulher numa coluna de sal.

Ok, ok, agora acabou, certo? Errado, infiel! Nosso amigo Lot ficou com a pulga atrás da orelha e resolveu se mudar para uma caverna na montanha com suas duas filhas. “A mais velha disse à mais nova: ‘Nosso pai está velho, e não há homem algum na região com quem nos possamos unir, segundo o costume universal. Vem, embriaguemos nosso pai e durmamos com ele, para que possamos nos assegurar uma posteridade.’" (Gênesis 19:32). Simples assim, amigo leitor. As filhas de Lot resolvem que vão transar com o próprio pai, já que o bom Senhor pulverizou os outros homens da região. “Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite. Então a mais velha entrou e dormiu com ele; ele, porém, nada notou, nem quando ela se aproximou dele, nem quando se levantou.” (Gênesis 19:33). A quantidade de vinho foi exata para fazer o velho não perceber nada e ao mesmo tempo não perder a... tenacidade, se é que você me entende. Que precisão! E na noite seguinte foi repeteco com a filha mais nova. Dessa forma, Lot se tornou ao mesmo pai e avô de duas crianças chamadas Moab e Ben-Ami.

Uma família em que as duas filhas embriagam o próprio pai para transar com ele, está de acordo com os preceitos de Deus, e merece ser poupada do massacre que ele fez. Serei eu antiquado? Ufa, agora acabou, irmãos e irmãs. Amém!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Gênesis 4

Segura essa: “Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim, e disse: ‘Possuí um homem com a ajuda do Senhor’” (Gênesis 4:1). Ka-pow! Gênesis 4 já começa com o pé-na-porta e quer te derrubar da cadeira no primeiro versículo, caro leitor! Por partes iremos.

Deus proíba que eu seja o responsável por acabar com sua inocência, mas “conhecer” aqui no livrão significa “transar”, “trepar”, “passar a vara”, “dançar o mambo selvagem” e morro abaixo. Então você, pai zeloso, que pensa que está tudo bem quando sua filha adolescente diz que “conheceu um monte de gente legal na festinha de ontem à noite”, pense novamente! Enfim, vamos em frente. Eva disse ‘possuí um homem com a ajuda do Senhor’. Protesto, excelência! Quando e como o Senhor ajudou? Se tivesse sido na concepção, seria um ménage. Acho que não. No parto, ele não só não ajudou como atrapalhou, na hora em que ele lançou aquela maldição de aumentar as dores do parto, lembra? Só pode ter sido no pré-natal, fazendo exames periódicos de ultra-som e dando dicas de yoga para grávidas. Que seja.

Adão e Eva viram “que era bom”, se me permitem pegar uma frase emprestada, se conheceram de novo e tiveram outro rebento, Abel. “Abel tornou-se pastor e Caim lavrador. Passado algum tempo, ofereceu Caim frutos da terra em oblação ao Senhor” (Gênesis 4:2-3). “Oblação” é oferenda, caso você já esteja perguntando ao Google. Não se sinta mal, eu também perguntei. “Abel, de seu lado, ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons” (Gênesis 4: 4-5). Eu explico: Abel achou que queimar ovelhas era uma boa forma de puxar o saco de Deus e, veja só, o Senhor gostou. Quem resiste ao cheiro de um bom churrasco? Para os frutinhos de Caim, Deus fez “nhé... caguei”.

Caim não ficou nada feliz com a clara preferência de Deus por Abel. O Senhor, agindo como alguém que se importa, perguntou “por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante?” (Gênesis 4:6). “Por que a cara de cu, Caim?” eu diria. Mas o Senhor não queria saber a resposta de Caim. Sabe quando a gente cruza com alguém na rua e diz “E aí, tudo bem?” mas gente não quer saber se está tudo bem mesmo? Então. Antes que o pobre humano pudesse responder, Deus aproveitou a deixa para lançar mais um de seus conselhos de biscoito-da-sorte chinês. “Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo” (Gênesis 4:7). Peraí, Deus! “Reabilitar-te” de que? De ter cometido o crime de te oferecer frutos (que, aliás, é muito mais saudável que churrasco. Caim estava preocupado com o colesterol de Deus e isso que ele recebe em troca)? E “praticar o bem” é fazer sacrifícios animais para o seu deleite? Certo então!

Certo dia Caim acorda com a bunda descoberta e resolve esgoelar o puxa-saco do Abel. Mas Deus tem um talento para não estar presente nos momentos cruciais da história. Lembra que, quando Eva aceitou o fruto da serpente, ele não estava e não viu nada? Pois é, ele também perdeu a parte em que Caim matou Abel. Devia estar no banheiro. Por isso, perguntou: “Onde está seu irmão Abel?". Caim, que já estava num humor daqueles, responde com um coice: “Não sei! Sou porventura eu o guarda do meu irmão?" (Gênesis 4:9). Sensacional! Finalmente alguém bateu o pé para Deus! “Caim, cadê Abel?” “Eu vou saber, porra? Já procurou embaixo da pilha de ovelhas torradas que ele fez para você?”. Boa Caim! Mas se tem uma coisa que Deus é bom, é em pegar a mentira dos homens no pulo. O Senhor percebe tudo, fica puto (de novo) e lança uma maldição (de novo). Caim não ia conseguir plantar mais nada e estava fadado a ser um peregrino errante pela terra, desses que empurra um carrinho de supermercado cheio de porcaria.

Caim não agüenta o tranco e choraminga: “Meu castigo é grande demais para que eu o possa suportar. Eis que me expulsais agora deste lugar, e eu devo ocultar-me longe de vossa face, tornando-me um peregrino errante sobre a terra. O primeiro que me encontrar matar-me-á" (Gênesis 4:14). Apesar da ótima escolha no uso da mesóclise (mandou bem com o “matar-me-á”), a preocupação de Caim de ser morto é em vão. Eu leio a Bíblia com um caderninho do lado para anotar a população da terra. Até pouco tempo atrás íamos em quatro pessoas: Adão, Eva, Caim e Abel. Caim fez o favor de matar 25% da população da terra. Caim, meu caro, pode vagar por aí numa boa! Ninguém vai te encontrar, rapaz! E quem te encontrar, vai ser da família, não é?

Mas Deus também não se toca disso e resolve quebrar o galho de Caim de uma forma que só faz sentido na cabeça dele: “’Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.’ O Senhor pôs em Caim um sinal (uma camiseta com os dizeres “Quem me matar será punido sete vezes”?), para que, se alguém o encontrasse, não o matasse” (Gênesis 4:15). O mendigo Caim “foi habitar na região de Nod, ao oriente do Éden. Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Henoc” (Gênesis 4:16-17). Pó-pará!!! Como assim “conheceu sua mulher”? Que mulher? De onde saiu essa sirigaita? Deus arrancou mais uma costela de Adão, fez outra mulher, e o livro omitiu essa parte? Ou essa mulher é também filha de Adão e Eva e, sinto muito, irmã de Caim? Desculpe-me, mas se eu tivesse comprado um livro que tem esse buraco na história, eu voltava na livraria para pedir meu dinheiro de volta. Enfim.

Um dos descendentes de Caim, chamado Lamec, de bobo só tinha o nome. “Lamec tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela” (Gênesis 4:19). Ada teve um filho chamado Jabel, “que foi pai daqueles que moram em tendas, entre os rebanhos” (Gênesis 4:20) e outro chamado Jubal, “que foi o pai de todos aqueles que tocam a cítara e os instrumentos de sopro” (Gênesis 4:21). Já Sela, teve um filho chamado Tubal-Caim, “que foi o pai de todos que trabalham o cobre e o ferro” (Gênesis 4:22) e uma filha chamada Noema, que não foi porra nenhuma.

Lamec, um belo dia, chega para suas duas esposas e solta: “Ada e Sela, ouvi a minha voz: mulheres de Lamec, escutai as minhas palavras: Por uma ferida matei um homem, e por uma contusão um menino. Se Caim será vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes” (Gênesis 4:24). Suponho que Ada e Sela se entreolharam com a aquela cara de “heim?”. Teria Lamec bebido água de salsicha? Estaria o velho ficando gagá?

Deixando o mistério no ar, nossa história volta repentinamente para Adão que ”conheceu outra vez sua mulher, e esta deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Set, dizendo: ‘Deus deu-me uma posteridade para substituir Abel, que Caim matou’. Set teve também um filho (com quem, mesmo?), que chamou Enos. E o nome do Senhor começou a ser invocado a partir de então” (Gênesis 4:25-26). Ficou parecendo que o autor se embananou com a história, não sabia como desatar o nó e inventou essa bobagem para terminar. Uma decepção para um capítulo que começou tão bombasticamente bom. E chega.

sábado, 31 de outubro de 2009

Gênesis 3



Se você ainda acha que a história não está avacalhada o suficiente, quem sabe agora: Animais falantes! É assim que Gênesis 3 começa. “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: ‘É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?’” (Gênesis 3:1). Papo vem, papo vai, a mulher cai no golpe da serpente e come o fruto da árvore-da-ciência-do-bem-e-do-mal (nome comprido, né?). E ainda “(...) o apresentou também ao seu marido (quando eles casaram mesmo? Perdi essa parte!), que comeu igualmente” (Gênesis 3:6).

Antes de continuarmos, só um adendo. Eu não gosto de pegar no pé de divindades, mas veja só: Deus colocou a tal árvore proibida no jardim do Éden, certo? Deus também colocou um animal (falante, eu insisto) cheio de malemolência nesse mesmo jardim, certo? Desculpe, mas não precisa ser nenhum engenheiro para ver que a merda estava feita. Cedo ou tarde a coisa ia desandar.

E desandou. Tamanho foi o revertério que fruto causou na barriga dos dois, que eles finalmente perceberam que estavam nus! E “tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si” (Gênesis 3:7). (Exatamente! Então se você está aí nu enquanto lê este blog, pode ir já pegar uma folha de figueira e cobrir suas vergonhas!) E apesar de tanto pudor, não achei nenhum versículo que dissesse que o homem reclamou do topless da mulher. Mas enfim, isso é só minha mente maculada trabalhando. Voltemos à novela.

O homem e a mulher escutaram os passos de Deus, que estava dando uma voltinha e curtindo a brisa da tarde (mesmo!), e se esconderam nas árvores. Mas Deus, já sentindo cheiro de encrenca, chama pelo homem que se entrega e diz “Ouvi o barulho dos vossos passos no jardim; tive medo, porque estou nu; e ocultei-me” (Gênesis 3:10). O Senhor, em sua sapiência, percebe que tem gato nessa tuba e começa o interrogatório: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?” (Gênesis 3:11). “Responde, filhadaputa!” eu teria adicionado.

O homem, num ato de covardia digno do primeiro ser humano da terra, não hesita em dedurar a mulher logo de cara: "A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi” (Gênesis 3:12). Ah safado! A mulher, vendo que o homem se livrou rapidinho, passa a batata quente para a serpente: "A serpente enganou-me,- respondeu ela - e eu comi." (Gênesis 3:13). Deus ficou puto. Se podemos tirar alguma lição deste livro, é que emputecer Deus é um péssima idéia. De nada adiantou o homem, a mulher e a serpente ficarem jogando a culpa um no outro. Deus resolveu foder a vida dos três.

A serpente, “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar" (Gênesis 3:14-15). Tomou? Aparentemente, a serpente tinha pernas e esse corpo esguio e rastejante que conhecemos hoje foi uma maldição divina. Ô castigo! Além disso, se o objetivo do Senhor Deus era criar uma inimizade entre a mulher e a cobra, o tiro saiu pela culatra.

Para a mulher, Deus, em sua ira, lançou: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (Gênesis 3:16). É isso mesmo. A mulher estará sob o domínio do homem. Um conceito perfeitamente aceitável se você vive numa tribo no oriente médio há milhares de anos atrás, quando uma mulher valia pouco mais que um bom camelo. Ainda bem que ninguém mais leva esse livro a sério hoje em dia! E, por falta de evidências históricas, só me resta supor que o seguinte diálogo aconteceu entre o homem e o Senhor:

- Deus, aquela história de multiplicar os sofrimentos do parto e tal... Você vai aumentar o tamanho da cabeça do neném ou diminuir a...?
- Vou diminuir a...
- YESSS!!!

Mas o Senhor interrompeu a alegria serelepe do homem ao dizer: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar” (Gênesis 3:17-19). É isso, meu amigo. O homem, que levava a vida na flauta, saltitando pelo Éden, balançando seu pirulito para lá e para cá, vai ter que começar a pegar no batente! E tudo isso porque ele cometeu o erro de ouvir a voz da mulher! Esposa aqui não pode nem abrir a boca.

Finalmente, aprendemos os nomes dos nossos heróis. “Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20). Se isso não fez o menor sentido para você também, ótimo. Então Deus, achando que as folhas de figueira eram muito sensuais e sem o menor problema em usar casacos de pele, “fez para Adão e sua mulher umas vestes de peles, e os vestiu. E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente’" (Gênesis 3:21-22). Alto lá! “Como um de nós” quem, cara pálida? Com quem Deus está falando? Com outros deuses? Nem chegamos na parte da Santíssima Trindade e já podemos jogar o monoteísmo pela janela! E Deus, sabiamente, não quer que seu pet viva eternamente. Se bem que, se isso fosse uma preocupação minha, eu teria escolhido um hamster.

Tá cansado? Eu também, mas já está acabando. Deus então dá o primeiro pé-na-bunda da história e expulsa Adão e Eva do Éden e, provavelmente por ordem da seguradora, coloca querubins armados até os dentes protegendo a árvore da vida eterna. Tenha medo!

Nesse capítulo vimos como e porque a humanidade vive neste mundo cheio de filas de banco e internet lenta, e não no paraíso. O texto deixa claro, mais de uma vez, que a mancada da mulher foi o estopim para toda a miséria e desgraça do planeta. Podíamos deixar de hipocrisia e rebatizar “O Pecado Original” para “A Cagada de Eva”. Mas cá pra nós, preciso advogar em defesa da portadora da primeira mitocôndria. Imagine que um adulto entrega uma caixa de fósforos para duas crianças, chamadas Adão e Eva, brincarem. Eva risca um fósforo e queima Adão. Quem é o imbecil da história? Obrigado.

Para terminar, recapitulemos o que Deus disse para Adão em Gênesis 2. Se o homem comesse o danado do fruto ele morreria “indubitavelmente”. Ele não morreu. Além de irresponsável e vingativo, podemos adicionar mentiroso à lista de adjetivos para o nosso bom Deus.