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sábado, 6 de agosto de 2011

Gênesis 38 - Parte II


"Judá indaga Tamar sobre o preço do boquete" - Escola de Rembrant, óleo sobre tela.

Tamar viu os anos passarem enquanto esperava que o terceiro irmão, Sela, crescesse um bigodinho e pudesse desposá-la. Mas parece que, enquanto Sela ficava mais alto, as tetas de Tamar ficavam mais baixas, porque o menino não quis saber de negócio e a viúva ficou esperando. Que bela bosta. Mas um belo dia, seu sogro Judá vinha subindo o morro em que morava Tamar, e ela resolveu dar o troco. Tirou o maldito traje de viúva e se vestiu de quenga. “Judá, vendo-a, julgou tratar-se de uma prostituta, porque tinha o rosto coberto” (Gênesis 38:15). O rosto coberto, a bota 7/8 de vinil e o bustiê de veludo zebrado. Bem observado, Judá!

Pois o velho Judá achou o produto interessante e perguntou:

- Quanto é o programa?
- Depende... - respondeu Tamar fazendo uma expressão libidinosa, mas que ninguém viu, dado que tinha o rosto coberto.
- Cabelo, barba e bigode.
- Ah, aí vai te custar um camelo e duas galinhas.
- Um camelo e duas galinhas?!? - espantou-se Judá - A senhora só pode estar brincando, né? Te dou um porco e uma galinha.
- Então boa tarde, senhor.
- Peraí, peraí, peraí... ok, um cabrito, dos bons. E é minha oferta final.
- ...
- Negócio fechado?
- Negócio fechado. Nota fiscal paulista?

E assim Judá, sem saber, passou a vara na mulher que foi sua nora duas vezes (pra você que achava que a Santa Bíblia já tinha esgotado seu repertório de sexo bizarro). Mas, como o pagamento, o cabrito, teria que ser trazido no dia seguinte, a cortesã queria uma garantia. “Que penhor queres que eu te dê?", perguntou Judá. "Teu anel, teu cordão e o bastão que tens na mão." (Gênesis 38:18), respondeu a disfarçada Tamar. Judá ainda estava com o bastão na mão e já estavam falando de negócios. Mas assim o fizeram.

No dia seguinte, Judá mandou um colega levar o cabrito e pegar o anel, o cordão e o bastão de volta. "Onde está aquela prostituta que estava em Enaim, à beira do caminho?", e os transeuntes fizeram cara de interrogação: “Não há prostituta nesse lugar!" (Gênesis 38:21). Pois é, não havia sinal da garota de programa. O que Tamar fez é o que na balada chamam de “dar um perdido”. A menina fala “vou lá no bar pegar uma Smirnoff e já volto, tá gatinho?” e puf!, some numa nuvem de glitter e perfume barato para todo o sempre. Enfim. O amigo de Judá trouxe o cabrito de volta e disse que não tinha prostituta nenhuma não sinhô. "Guarde ela o meu penhor, respondeu Judá, não nos tornemos ridículos!” (Gênesis 38:23). Judá resolveu varrer essa história pra debaixo do tapete. Mal sabia ele que tinha caído como um pato na armadilha de Tamar.

Três meses depois, o fofoqueiro da vila disse a Judá: “Tamar, tua nora, conduziu-se mal: vê-se que está grávida". Má-quê! "Tirai-a para fora, que ela seja queimada!" (Gênesis 38:24), bradou Judá. Tenha a santa paciência também. Tamar teve dois maridos pulverizados pelo Bom Senhor. Ela se manteve casta e fantasiada de viúva por anos, esperando um terceiro marido que nunca veio. E agora, porque engravidou, ela merece ser queimada? Mas Tamar ainda tinha uma carta, e era o zap! "Concebi do homem a quem pertence isto: examine bem, ajuntou ela, de quem são este anel, este cordão e este bastão". Truco, marreco! “Judá, reconhecendo-os, exclamou: ‘Ela é mais justa do que eu; pois que não a dei ao meu filho Sela.’ E não a conheceu (meteu) mais” (Gênesis 38:25-26). Convenhamos que Judá sabe reconhecer uma derrota.

Meses depois, Tamar sentiu as dores do parto e, obviamente, eram gêmeos. Quando a mãozinha do primeiro saiu, a parteira amarrou um fio vermelho no pulso, tamanha era a importância da primogenitura para esse povo primitivo. Mas, provavelmente incomodado pela parteira amarrando uma porcaria no pulso, o bebê embirocou de volta para Tamar. E nessa, o outro saiu, emputecendo a parteira. "Que brecha fizeste! exclamou a parteira: Que a brecha esteja sobre ti!" (Gênesis 38:29). Hã? Brecha? A brecha já estava feita e, eu suponho, doendo pra cacete! E não seria superestimar as intenções de um recém-nascido? Será que o bebê não está mais preocupado em inflar seus pulmões do que em quem vai herdar a bosta do rebanho de cabritos? Enfim. Este se chamou Farés e o irmão, com a pulseirinha vermelha, Zara.

E assim termina. Os mais devotos defendem que, mesmo nessas confusas porno-chanchadas bíblicas, há sempre uma lição. Não sei o que deveríamos tirar dessa história. Sempre andar com um cabrito para poder pagar uma eventual prostituta no ato? Não sei, mas os comentários estão abertos. E que a brecha esteja sobre todos vocês!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gênesis 30 (parte 2) - 31


Labão, o arameu, e seus irmãos cruzam o deserto em busca de Jacó.

Jacozinho há muito vivia de parasita na casa do duplo-sogro e tio Labão. E como se não bastasse ter abocanhado duas filhas e duas escravas, resolveu que ia se apossar de uma parte do rebanho de ovelhas que ele ajudou a criar. Para isso, Jacó sugeriu que ele ficasse com os animais malhados e deixasse os brancos para Labão. "Está bem, seja como dizes" (Gênesis 30:34), disse tio Labs. O que ele não sabia era que seu genro/sobrinho queria lhe sacanear, passar a perna, apunhalar pela costas. 171 mesmo. Digno de um descendente direto de Abraão. Jacó, orientado pelos anjos de Javé, selecionou repetidamente cabras fortes e saudáveis para cruzar com fêmeas malhadas, e cabras raquíticas e mal nutridas para cruzar com fêmeas brancas. Dessa forma, ele deixou Labão com um rebanho de bosta.

O que é mais irônico é que, o que Jacó fez, se chama seleção artificial. Se ele tivesse pensado sobre o assunto mais um pouquinho, ele poderia ter formulado A Teoria da Evolução! Quantos problemas isso teria evitado! Hoje não teríamos psicóticos fundamentalistas falando de criacionismo e nem psicóticos fundamentalistas disfarçados de cientistas falando de design inteligente! E Darwin poderia ter dedicado sua vida exclusivamente para colecionar besouros, que é o que ele gostava. Droga.

Mas estou divagando. A verdade é que a situação na casa de Labão se tornara insuportável. Ele estava puto com Jacó por ter fodido com o rebanho dele. Suas filhas Raquel e Lia também estavam desgostosas com o pai. “Não nos tratou ele como estrangeiras, vendendo-nos e devorando o nosso dinheiro?” (Gênesis 31:15). (estrangeiras que Jacó aceitou de bom grado, aliás). Imaginem o silêncio constrangedor na mesa do jantar. Labão, Jacó, Raquel, Lia, Bala, Zelfa e 13 filhos. O som de talheres e mastigação interrompido por um ocasional, seco e sarcasticamente polido “passe o sal”. Que clima! De saco cheio, Jacó, suas mulheres e sua prole resolveram fugir na calada da noite, escondidos de Labão, rumo a Canaã. Raquel, na hora da fuga ainda surrupiou os terafim de seu pai (sim, eu também tive que procurar no Google o que são terafim. São, pasmem, bonequinhos de divindades. Algo tão ridículo quanto imagens de santos. Mas que também serviam de vale-herança naqueles tempos. Capisce?).

Três dias depois, soube Labão da fuga de Jacó” (Gênesis 31:22). O velho era astuto como uma raposa! Só três dias! Pois tio Labs e seus irmãos montaram em suas motocicletas e saíram em disparada pelo deserto, seguindo o rastro do traiçoeiro Jacó. “Deus, porém, apareceu num sonho noturno a Labão, o arameu, e disse-lhe: ’Guarda-te de dizer algo a Jacó’”(Gênesis 31:24). Em outras palavras, “mesmo ele tendo te sacaneado, deixa pra lá porque ele é meu queridinho”. Foda, viu?

Nas montanhas de Galaad, Labão alcançou o cabra-safado do Jacó. “Que fizeste? Tu me enganaste, e conduziste minhas filhas como prisioneiras de guerra! Por que fugiste dessa forma, e me lograste em lugar de me avisar? Eu te teria despedido com manifestações de júbilo e com cânticos, ao som do tamborim e da harpa” (Gênesis 31:26-27). O imbecil do Jacó perdeu uma festa com tamborim e harpa! Mas o que Labão estava puto mesmo era com o sumiço dos seus bonequinhos. “Por que roubaste os meus deuses?" (Gênesis 31:30). E, então, pôs-se a revistar as tendas do bando de Jacó. Chegou à tenda de Raquel que, num ato de desespero (e talvez de necessidade), sentou em cima dos roliços terafim. E ainda disse "Não se irrite o meu senhor, se não posso levantar-me em sua presença, pois acho-me agora com a indisposição que costuma vir às mulheres" (Gênesis 31:35). Não é um jeito ótimo de se dizer menstruação? A-indisposição-que-costuma-vir-às-mulheres. E nem ouse levantar-se na presença de seu pai, ok?

Mas, voltando à nossa história, Labão estava puto e, agora, Jacó também estava puto por estar sendo acusado de ladrão de bonequinhos. Como eles poderiam resolver esse impasse? Simples, meu ávido leitor: Eles ergueram um monumento de pedra em homenagem àquele que adora ser homenageado: Javé! E voilá, estava resolvido. Jacó “ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer” (Gênesis 31:54). Uma pilha de pedras e um churrasco. Que jeito mais idiota de se acabar uma história que já estava ruim.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Gênesis 29


"Europeus branquinhos que não tem nada a ver com nossa fábula do Oriente Médio" - William Dyce, óleo sobre tela.

Erguei as mãos e dai glória a Deus! Se você chegou agora à Bíblia Cítrica, não tema infiel! Tamanha é a minha misericórdia, que recapitularei o que você precisa saber para pegar o camelo andando. Jacó é o herói do momento. Descendente de Abraão e figurão do povo escolhido pelo Senhor, ele saiu numa jornada pelo deserto, rumo à casa de seu tio Labão. Lá, ele pretende escolher uma prima para desposar, no intuito de não se misturar e afinar o sangue com a gentalha que não foi escolhida por Javé. Gentalha, gentalha, gentalha. Tá comigo? Então vamos em frente.

Nos arredores de Harã, cidade onde vivia o tio Labs, havia um poço para ovelhas beberem água. E, tampando esse poço, uma puta de uma pedra pesada pra caralho. Quantos pastores já não rasgaram um pum ao tentar erguê-la sob o sol escaldante de meu Deus! "Conheceis porventura Labão, filho de Nacor?" (Gênesis 29:5), disse o forasteiro Jacó, tentando puxar um papo com os locais. “Sim”, respondeu um pastor sorrindo com seus quatro valiosos dentes, “e eis justamente sua filha Raquel que vem com o rebanho.” (Gênesis 29:6). Putaqueopariu! Que sorte! Jacó viu a oportunidade perfeita para impressionar sua prima: Erguer a tampa do poço com seus braços fortes, viris e abençoados por Javé! Entretanto, por algum motivo, a coisa descamba. Veja. “Logo que Jacó viu Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, aproximou-se, rolou a pedra de cima da boca do poço e deu de beber às ovelhas de Labão”. Boa Jacózinho! Tá indo bem! “Depois beijou Raquel e pôs-se a chorar.” (Gênesis 29:10-11). Má-como?!? Que porra é essa de lascar um beijo assim sem pedir licença? E depois cai no choro? Comestes cocô, Jacó? Talvez, mas funcionou.

Depois desse papelão, Raquel levou Jacó para sua casa eles contaram tudo para o tio Labão. "Sim, tu és de meus ossos e de minha carne.” (Genesis 29:14), disse o velho numa brilhante constatação. De olho na prata da casa, Jacózinho foi ficando de hóspede e ajudando na labuta diária. Passado um mês, tio Labs, temendo ser pego por leis trabalhistas, disse: "Acaso, porque és meu parente, servir-me-ás (percebam o certeiro uso da mesóclise) de graça? Dize-me que salário queres." (Gênesis 29:15). Jacó não queria salário, vale refeição nem o dinheiro do busão. Jacó queria Raquel! “Eu te servirei sete anos por Raquel tua filha mais nova." (Gênesis 29:18). Labão refletiu por um minuto, coçando sua enorme laba, e topou o negócio. “Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha.” (Genesis 29:20). Lindo, né? Mas o romantismo acaba por aí. A pornochanchada bíblica que tanto gostamos começa agora.

Após sete anos na punheta, finalmente chegou o grande dia em que Jacó iria se casar com Raquel, e titio Labão convidou a cidade inteira para um grande banquete, com três ambientes (eletrônica, pop-rock e flashback), sushi bar e manobrista. Mas Labão tinha um plano secreto para pôr em prática: Acabado o bacubufo do caterefofo, ele iria conduzir sua filha Raquel à suíte de Jacó mas, ao invés disso, conduziu a irmã mais velha de Raquel, Lia! E, talvez por uma soma do quarto escuro com o porre da festa, Jacó traçou Lia! Carái véi! Pela manhã, Jacó acordou de ressaca e percebeu que havia acertado a bola na caçapa errada. "Que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Por que me enganaste?", bradou para Labão, que respondeu: “Aqui não é costume casar a mais nova antes da mais velha. Acaba a semana com esta, e depois te darei também sua irmã, na condição que me sirvas ainda sete anos." (Gênesis 29:25-27). Jacó topou na hora. E de quebra, Labão ainda deu uma escrava chamada Zelfa como brinde por ele ter traçado Lia. Como aquelas promoções que, comprando um xampú, vem um condicionador de graça. E uma semana depois, Jacó finalmente desposou sua amada Raquel e, como a promoção ainda estava valendo, levou a escrava Bala de brinde (dizem que ela era um doce!).

E adivinha quem entra em cena para cagar em cima do que já estava fedendo? Ele! Javé! Não sei você, mas eu estava com saudades dos caprichos do Senhor. Ele viu que Jacó gostava mesmo de Raquel e só usava Lia como uma boneca inflável, e não gostou nada disso. Então ele estendeu sua poderosa mão em direção a Lia e shazam! “tornou-a fecunda enquanto Raquel permanecia estéril” (Gênesis 29:31). O Senhor, em sua glória e onipotência, gosta de intervir na vida mundana ligando e desligando os ovários das mulheres. É difícil de levar a sério um personagem desses. Jacó, apesar de amar mesmo Raquel, não acanhou-se de passar repetidamente a vara em Lia, que pariu os rebentos Rubem, Simeão, Levi (o inventor da calça jeans) e Judá.

O capítulo acaba aqui, mas o show de horrores na família poligâmica de Jacó não. Você não perde por esperar!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gênesis 28


"Quadro de motel" de William Blake. Óleo sobre tela.

Alguns capítulos da santíssima Bíblia Sagrada são longos e não signficam nada. Outros são curtos e significam menos ainda, e assim é Gênesis 28. Olha como já começa. “Isaac chamou Jacó e o abençoou” (Gênesis 28:1). Sério, já queimaram na largada dessa vez. Isaac esqueceu de tudo que aconteceu no capítulo passado?!? Toda aquela novela mexicana de quarenta e seis versículos, dois pratos de filé mignon e um homem vestido de cabrito, pra conseguir uma benção. E agora, simples assim, ele chama Jacó e o abençoa?!? Só pode estar de sacanagem. Mas vamos em frente. Isaac ordena: “Não desposarás uma filha de Canaã”, porque o povo escolhido não pode se misturar com a gentalha que Deus não escolheu. “Mas vai a Padã-Arã, à casa de Batuel, pai de tua mãe, e escolhe lá uma mulher entre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus todo-poderoso te abençoe, te faça crescer e multiplicar, de sorte que te tornes uma multidão de povos” (Gênesis 28:1-3). Ou seja, Jacó, se case com uma prima e se reproduza como um fungo que vai dar tudo certo. Esaú, o irmão peludinho de Jacó, querendo agradar seu pai “foi à casa de Ismael e tomou por mulher, além daquelas que já tinha, a Maelet, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nabaiot.” (Gênesis 28:9). Por que não adicionar uma prima a sua coleção de mulheres?

Agora, herege leitor, vem o filé deste capítulo. Tremei. Jacó partiu rumo a Padã-Arã e, após caminhar um dia inteiro com o Sol fritando-lhe os cornos, resolveu parar no meio do deserto para passar a noite. “Serviu-se como travesseiro de uma das pedras que ali se encontravam, e dormiu naquele mesmo lugar.” (Gênesis 28:11). Jacó já sabia o conforto que um bom travesseiro ortopédico proporciona. Tanto conforto que ele sonhou com “uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada.” (Gênesis 28:12). E quem estava no topo desta escada? Quem? Quem? Ele! O bom Senhor! E ele, em sua voz trovejante e reverberante, falou a Jacózinho e prometeu toda aquela baboseira de multiplicar a posteridade como os grãos de areia. É só isso que esse imbecil sabe prometer. Se ele tivesse prometido camisinhas, talvez hoje estivéssemos melhor.

Enfim, “Jacó, despertando de seu sono, exclamou: ‘Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!’ E, cheio de pavor, ajuntou: ‘Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu.’” (Gênesis 28:16-17). Cheio de pavor! Terrível! Que impressão amigável que o Bom Senhor passa, não? Mas calma, Jacó! Será que não foi só um sonho? Se eu tivesse passado o dia no deserto e depois usasse uma pedra como travesseiro, eu também teria sonhos parecidos (mais provavelmente um elevador para as profundezas do inferno do que uma escada para o céu, mas enfim). Mas não, Jacó estava convencido de que aquele fora um genuíno vídeo educacional do Senhor. Ali era de fato a porta do céu (só pra mim que isso soa ridículo?). Tanto que ele fez um monumento de seu rijo travesseiro de pedra. “Tomou Jacó a pedra sobre a qual repousara a cabeça e a erigiu em estela, derramando óleo sobre ela.” (Gênesis 28:18). Eu, particularmente, não consigo derramar óleo sobre alguma coisa e não pensar em sacanagem. Mas esse sou eu, pervertido.

Jacó então bradou: "Se Deus for comigo, se ele me guardar durante esta viagem que empreendi, e me der pão para comer e roupa para vestir, e me fizer voltar em paz casa paterna, então o Senhor será o meu Deus. Esta pedra da qual fiz uma estela será uma casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo o que me derdes." (Gênesis 28:20-22). Aaahhh, agora tudo faz sentido! O dízimo! Javé vai te dar pão, roupa, uma viagem tranqüila e mais descendentes do que grãos de areia, e tudo que ele quer é seu dinheiro! Ora, mas esse é um negócio da china!

Será coincidência que, o capítulo que coloca Deus como ‘terrível’ e digno de ‘pavor’, é também o que sugere que você dê a Ele 10% de suas finanças? Ah, e caso você não encontre Javé pessoalmente, pode entregar o cheque para o padre/pastor que ele entrega depois.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Gênesis 21


"Agar fica mucho loca" de Guercino.

O bom Deus Todo Poderoso, em sua glória, criou o universo e todas as leis da física, planetas, estrelas, nebulosas, organismos vivos (com uma complexidade que parece fruto de milhões de anos de evolução) e, entre eles, o maravilhoso ser humano, um macaco capaz de cutucar o nariz e assistir TV ao mesmo tempo. Mas isso não foi demonstração suficiente do poder de Javé! Não, pobre mortal! Ele resolveu se superar com o milagre supremo: Fazer a benga de um homem de 99 anos subir e engravidar uma mulher quase tão velha. E assim o fez com Abraão e sua esposa e meia-irmã Sara.

O Senhor visitou Sara, como ele tinha dito, e cumpriu em seu favor o que havia prometido. Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” (Gênesis 21:1-2). Eu não gosto sair acusando as pessoas (ou deuses), mas o Senhor visitou Sara e ela engravidou. Entenda como quiser. Mas enfim, Sara concebeu e amamentou um rebento que “Abraão pôs o nome de Isaac” (Gênesis 21:3). E “No dia em que foi desmamado, Abraão fez uma grande festa” (Gênesis 21:8) e todos dançaram ao som de “Mamãe Eu Quero” e outras marchinhas.

Mas nem tudo são flores na infância do pequeno Isaac. Se vocês não se recordam, em Gênesis 16, Abraão, atendendo a um pedido de sua esposa Sara (!), teve um filho chamado Ismael com a escrava Agar. Ismael não tinha televisão, videogame nem acesso à internet e, como passatempo, resolveu maltratar o rebento Isaac. Sara fica emputecida e resolve buzinar na senil orelha de Abraão: “Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac." (Gênesis 21:10). Abraão pensou “putaqueopariu, agora mais essa?” e não ficou nada feliz, pois ele gostava do jovem Ismael e não queria expulsá-lo de sua casa. “Mas Deus”, sempre com a solução para seus problemas, “disse-lhe: ‘Não te preocupes com o menino e com a tua escrava. Faze tudo o que Sara te pedir, pois é de Isaac que nascerá a posteridade que terá o teu nome. Mas do filho da escrava também farei um grande povo, por ser de tua raça.’" (Gênesis 21:12-13) Ah bom! Agora sim!

Abraão, após ser aconselhado pelo Senhor, deu um pão, um odre de água e um pé na bunda para Agar e Ismael, que saíram errantes pelo deserto. Sob o sol escaldante do Oriente Médio e com nenhuma loja de conveniência aberta, não demorou muito para que os dois caíssem moribundos, sem água e sem comida. “Ô castigo”, bradou Agar, “quem poderá nos salvar? Quem? Quem?”. O bom Senhor! Aleluia! Apesar de não poder comparecer pessoalmente, ele enviou um anjo que apareceu para Agar (perceba que esta visão não foi uma alucinação decorrente do fato de Agar estar desidratada e o sol do deserto fritando sua caixola. De jeito nenhum! Foi um anjo mesmo, ok?). E o anjo disse: “Que tens, Agar? Nada temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar onde está. Levanta-te, toma o menino e tem-no pela mão, porque farei dele uma grande nação." (Gênesis 21:18). E, quando Agar ergueu sua cabecinha cheia de vozes dentro, viu um poço de água que miraculosamente havia aparecido ali. E assim, ela e Ismael sobreviveram a mais esta provação. “Ele cresceu, habitou no deserto e tornou-se um hábil flecheiro. E habitou no deserto de Farã, e sua mãe tomou para ele uma mulher egípcia.” (Gênesis 21: 20:21). Glória!

Enquanto isso, nosso conhecido de capítulos anteriores, Rei Abimelec resolveu fazer um tratado de paz com Abraão. Abimelec de bobo só tinha o nome. Ele sabia que Abraão era protegido de um Deus que, quando está enfurecido/entediado, mata mesmo. E todo mundo sabe (exceto este autor que vos escreve) que é melhor ser amigo do que inimigo dessa gente. “Mas Abraão queixou-se a Abimelec por causa de um poço (será o mesmo poço que salvou Agar e Ismael?) que os seus homens lhe tinham tirado à força.” (Gênesis 21:25). Abimelec disse que iria averiguar a ocorrência e eles fizeram aliança de paz. Para selar o tratado, Abraão deu bois e ovelhas para o rei mas, num ato curioso, separou sete ovelhas do rebanho. “Que significam estas sete ovelhinhas que puseste à parte?” (Gênesis 21:29), perguntou o rei intrigado. "Aceitarás de minhas mãos estas sete ovelhinhas, respondeu Abraão, como testemunho de que fui eu que cavei este poço" (Gênesis 21:29). Hã? Teria Abraão fumado crack? Abimeleca, que preferiu não questionar o velho gagá, aceitou as tais das ovelhinhas. Certo então. E assim “Abraão habitou muito tempo na terra dos filisteus.” (Gênesis 21:34). E fim!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Gênesis 20

Sugiro que você pegue agora seu exemplar da Bíblia Sagrada, que certamente está ao alcance de sua mão, e consulte Gênesis 12. Se, por algum infortúnio do destino, sua bíblia não está com você agora (por exemplo, seu cônjuge pode estar usando-a para orar fervorosamente em algum outro local da casa), consulte a bíblia online em nossa lista de links. Mas nem pense em consultar os arquivos deste blog, visto que ele apresenta uma versão deturpada e desrespeitosa das escrituras. Enfim, em Gênesis 12, Abraão, que ainda se chamava Abrão, disse para um faraó que sua mulher Sara, que ainda se chamava Sarai, era sua irmã. Por motivos que até Deus duvida, Sara acabou sentando no colinho do faraó e Abraão foi agraciado com muitos presentes. Lembrou?

Pois bem, neste capítulo, Abraão, depois do show de horrores que foi a destruição de Sodoma e Gomorra, resolveu peregrinar para o reino de Gerara, onde Abimalec era rei. E, quem diria, resolveu aplicar o golpe do trace-minha-esposa-porque-ela-é-minha-irmã de novo! “Ele dizia de Sara, sua mulher, que ela era sua irmã. Abimelec, rei de Gerara, arrebatou-lha (mesmo ela tendo já seus noventa e cacetada).” (Gênesis 20:2). Mas antes que o rei arrebatasse de fato Sara, o Deus Altíssimo lhe aparece num sonho e ameaça: “Vais morrer, por causa da mulher que roubaste, porque é casada.” (Gênesis 20:3). Abimeleca, como qualquer pessoa sensata, acha que Deus é um imbecil e questiona: “Senhor, fareis perecer mesmo inocentes? (ah, se vossa majestade soubesse quantos inocentes o bom Deus já ceifou...) Não me disse ele que ela era sua irmã? E ela mesma me disse: É meu irmão. É na simplicidade de meu coração e com as mãos puras que fiz isso.” (Gênesis 20:5). Meio sem jeito, o Todo Poderoso responde: “Sei que é na simplicidade do teu coração que agiste assim; por isso, preservei-te de pecar contra mim, e não deixei que a tocasses.” (Gênesis 20:5). Curiosamente, ele não teve esse cuidado quando o faraó, de Gênesis 12, caiu no mesmo golpe. “Devolve agora a mulher deste homem, que é profeta (com mulher de profeta não se mexe, pelo jeito), e ele rogará por ti para que conserves a vida. Mas, se não a devolveres, sabes que morrerás seguramente, tu e todos os teus.” (Gênesis 20:7). E assim, o Rei Abimoleque, ameaçado de morte, não encosta um dedinho sequer na Miss Velho Testamento, Sara.

Mas o nosso amigo rei, com razão, quer saber por que Abraão aprontou essa porra para cima dele, e pergunta: “Que nos fizeste? Em que te ofendi para que nos expusesses, a mim e ao meu reino, ao castigo de um tão grande pecado. Fizeste-me o que não devias fazer. Que tiveste em vista agindo assim?” (Gênesis 20:9-10). Abraão, na maior cara de pau, responde: “Eu pensava comigo que não havia certamente nenhum temor a Deus nesta terra (preconceituoso, né?), e que me matariam por causa de minha mulher (repito: de mais de 90 anos!).” (Gênesis 20:11). Ou seja, o exemplar patriarca Abraão não tem problemas em fazer Abimalec e companhia serem massacrados injustamente pelo bondoso Deus para salvar o próprio traseiro.

Mas o melhor vem agora. Abraão, como nas melhores novelas mexicanas, solta a bomba: “Aliás, ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, mas não de minha mãe; ela tornou-se minha mulher.” (Gênesis 20:12). Exatamente, Abraão é meio-irmão de Sara. O que faz dele meio-mentiroso, meio-incestuoso e um completo imbecil. Mas, depois dos casos de incesto escabrosos que já vimos neste fabuloso livro de valores, isso nem é tão surpreendente. E Abraão continua: “Quando Deus me tirou da casa de meu pai, eu disse-lhe: Faze-me esta graça: onde quer que formos, dirás de mim que sou teu irmão.” (Gênesis 20:13). Traduzindo: “És muito gostosa. Portanto, onde formos, dirás que sou teu irmão e darás o bumbunzinho para qualquer um. Dessa forma nunca serei morto por sua causa e de quebra ainda posso ganhar uns presentinhos”.

E, novamente, foi tiro e queda. “Tomou então Abimelec ovelhas, bois, servos e servas, e deu-os a Abraão, ao mesmo tempo que lhe devolvia Sara, sua mulher.” (Gênesis 20:14). Abraão, feliz da vida, “intercedeu junto de Deus, que curou Abimelec, sua mulher e suas servas, e deram novamente à luz.” (Gênesis 20:17). Não sabia que Abimolenga e suas mulheres estavam com problemas para engravidar? Nem eu. “Porque o Senhor tinha ferido de esterilidade todas as mulheres da casa de Abimelec, por causa de Sara, mulher de Abraão.” (Gênesis 20:18). Aaah bom, agora entendi. Olha, eu não sou nenhum exemplo de escritor, mas esse livro é mal escrito pracaralho, heim?

Agora falando sério (mas não muito), essa não é a primeira vez e nem será a última que histórias vão se repetir na Sagrada Bíblia. Peço desculpas pelas histórias manjadas e piadas repetitivas. Mas vamos juntos segurar na mão de Deus e ir em frente!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gênesis18-19


"Deus botando para foder" de John Martin, óleo sobre tela.

Tremei, infiéis. O episódio a seguir não é para os fracos de estômago. Teremos mortes aos baldes, sexo incestuoso e um caso de desidratação extrema. Se você acha que simplesmente não agüenta o tranco, clique aqui. Se resolveu ficar, não me ligue no meio da noite reclamando que não consegue dormir, ok?

Nossa história começa com, adivinha, Deus aparecendo para Abraão enquanto ele sentava na sua varanda “no maior calor do dia (coincidência?)” (Gênesis 18:1). Mas dessa vez, a visão é acompanhada de três viajantes que estavam passando e Abraão oferece sua hospitalidade. Na verdade, é cortesia com o chapéu dos outros (o chapéu de Sara, para ser mais preciso): “Abraão foi depressa à tenda de Sara: ‘Depressa, disse ele, amassa três medidas de farinha e coze pães.’" (Gênesis 18:6). “Amassa você, velho preguiçoso!” deve ter pensado Sara. E ainda ordenou que um criado preparasse um novilho (Abraão mesmo não fez porra nenhuma).

Os viajantes, enquanto fazem uma boquinha, profetizam que voltariam em um ano e, então, Sara teria um filho. Ela, que escutava escondida, “pôs-se a rir secretamente: ‘Velha como sou, disse ela consigo mesma, conhecerei ainda o amor? E o meu senhor também é já entrado em anos.’ (entrado em anos = broxa)" (Gênesis 18:12). O Senhor não achou graça nenhuma nas risadinhas de Sara. “Será isso porventura uma coisa muito difícil para o Senhor?” (Gênesis 18:14), disse Javé emputecido. “Sara protestou: ‘Eu não ri’, disse ela, pois tinha medo (de ser pulverizada pelo bom Deus). Mas o Senhor disse-lhe: "Sim, tu riste." (Gênesis 18:15). Seria ótimo se eles ficassem mais uns dez versículos num ping-pong de “não ri!”, “riu sim!”. Mas isso não acontece. Droga.

Deus então resolve abrir o jogo para Abraão do que vem por aí. “É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. Eu vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, eu o saberei." (Gênesis 18:20-21). O povo de Sodoma e Gomorra vivia entregue a putaria. Era todo mundo de abadá atrás do trio elétrico dia e noite, e Deus não gosta desta avacalhação (curiosamente ele, em sua onipotência, tem que descer para ver se as fofocas são verdade ou não). Abraão já sente pelo tom na voz do Senhor que vem massacre por aí e, num (aparente) surto de bondade, questiona: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (Gênesis 18: 23-24). Imagine se o bom Deus, que já afogou toda a humanidade num dilúvio, iria cometer uma injustiça dessas! “Se eu encontrar em Sodoma cinqüenta justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles." (Gênesis 18:26). É ou não é bondoso? Só que mais bondoso ainda é Abraão, que retruca: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza (hã?). Se porventura faltarem cinco aos cinqüenta justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cincos?" (Gênesis 18:28). E esse jogo de penchincha, no estilo “quer-pagar-quanto?”, continua até Deus respondendo "Não a destruirei por causa desses dez." (Gênesis 18:32).

Talvez você, como eu, tenha caído no golpe de que Abraão estava realmente preocupado com os inocentes que iriam se foder na mão de Deus. Mas o que nosso amigo estava preocupado mesmo era com seu sobrinho Lot, que vivia em Sodoma. Isso se chama nepotismo, a propósito.

Pois em Sodoma chegaram dois anjos e Lot ofereceu sua hospitalidade. “Lot preparou-lhes um banquete, mandou cozer pães sem fermento (desses que faz uma pelota na boca que você mastiga, mastiga e o bicho não desce, sabe?) e eles comeram.” (Gênesis 19:3). Mas a população de Sodoma viu que tinha carne nova no pedaço e cercou a casa de Lot. “Onde estão, disseram-lhe, os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos." (Gênesis 19:5). Se você acompanha o blog desde o começo, já sabe que “conhecer” na bíblia significa “passar a vara”. Ou seja, a população de Sodoma queria mesmo as bundinhas dos anjos para... é, sodomizar. Lot sai para tentar acalmar o rebuliço. "Suplico-vos, meus irmãos, não cometais este crime. Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra do meu teto." (Gênesis 19:7-8). Você leu certo, filho de Deus. Lot, querendo concorrer ao troféu de pai do ano, ofereceu suas duas filhas virgens para a multidão violar a vontade, desde que deixassem os anjinhos do Senhor em paz. Lindo, né?

Mas a turba enfurecida não quer saber de acordo! Qualquer coisa que faz sombra eles querem meter o bilau, e os anjinhos estão no topo da lista! Mas eis que um milagre se sucedeu: Os sodomitas tentaram entrar a força na casa de Lot, mas os anjos, numa sagaz manobra, puxaram Lot para dentro, fecharam a porta e SHAZAM! “feriram de cegueira os homens que estavam fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão por reencontrar a porta.” (Gênesis 19:11). Lot celebrou com uma dancinha da vitória e ainda tirou um sarro: “Uhu! Toma essa! Quero ver achar buraco de cu agora, bando de fidiputa!” (não, ele não fez isso... mas poderia).

Os dois homens disseram a Lot: ‘Tens ainda aqui alguns dos teus? Genros, ou filhos, ou filhas, todos os que são teus parentes na cidade, faze-os sair deste lugar, porque vamos destruir este lugar, visto que o clamor que se eleva dos seus habitantes é enorme diante do Senhor, o qual nos enviou para exterminá-los.’" (Gênesis 19:13). Estava com saudades daquele Deus que atira primeiro e pergunta depois? Que extermina aqueles que não se encaixam no seu modelo de “justo”? Ele voltou! E lembra daquele papo de “perdoarei a cidade toda se houverem justos entre os ímpios”? O bom Deus achou uma brecha na lei e enviou os anjos a Sodoma para avisar Lot. Assim ele poderia satisfazer sua vontade de massacrar uma cidade inteira, e ainda salvar os “justos” (leia-se: parentes de Abraão). Gênio!

Lot então saiu para avisar seus genros e filhas desposadas que o bom Deus iria transformar a cidade em migalhas, “mas seus genros julgaram que ele (tinha exagerado na aguardente e) gracejava” (Gênesis 19:14). Na manhã seguinte, os anjos conduziram Lot, sua mulher e suas duas filhas (que, não graças a Lot, ainda eram virgens) para os limites da cidade e disseram “Pernas pra que te quero, Lot e companhia!”. Mas havia um porém: “Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície; mas foge para a montanha senão perecerás." (Gênesis 19:17). Mas Lot não queria ficar nas montanhas, sem TV a cabo, internet e essas coisas, e pediu que os anjos não destruíssem uma cidade próxima, que tinha um hotelzinho maneiro. “Concedo-te ainda esta graça: não destruirei a cidade a favor da qual me pedes.” (Gênesis 19:21).

Finalmente, nosso bom e misericordioso Deus manda um bombardeio de enxofre e fogo sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, para cortar o mal da putaria e avacalhação pela raiz. “E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo.” (Gênesis 19:25). Erguei as mãos e dai glória a Deus! Pensa que acabou? A esposa de Lot, ao escutar o som de uma cidade sendo destruída, cometeu o gravissíssimo e imperdoável pecado de olhar para trás. O Senhor, para reforçar o argumento de que ele mata mesmo, transformou a mulher numa coluna de sal.

Ok, ok, agora acabou, certo? Errado, infiel! Nosso amigo Lot ficou com a pulga atrás da orelha e resolveu se mudar para uma caverna na montanha com suas duas filhas. “A mais velha disse à mais nova: ‘Nosso pai está velho, e não há homem algum na região com quem nos possamos unir, segundo o costume universal. Vem, embriaguemos nosso pai e durmamos com ele, para que possamos nos assegurar uma posteridade.’" (Gênesis 19:32). Simples assim, amigo leitor. As filhas de Lot resolvem que vão transar com o próprio pai, já que o bom Senhor pulverizou os outros homens da região. “Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite. Então a mais velha entrou e dormiu com ele; ele, porém, nada notou, nem quando ela se aproximou dele, nem quando se levantou.” (Gênesis 19:33). A quantidade de vinho foi exata para fazer o velho não perceber nada e ao mesmo tempo não perder a... tenacidade, se é que você me entende. Que precisão! E na noite seguinte foi repeteco com a filha mais nova. Dessa forma, Lot se tornou ao mesmo pai e avô de duas crianças chamadas Moab e Ben-Ami.

Uma família em que as duas filhas embriagam o próprio pai para transar com ele, está de acordo com os preceitos de Deus, e merece ser poupada do massacre que ele fez. Serei eu antiquado? Ufa, agora acabou, irmãos e irmãs. Amém!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Gênesis 9

Como já podemos perceber, a Bíblia Sagrada é um livro difícil de ler. Confuso, contraditório, com mais engasgos na trama que um filme do Tarantino. Desde a gênese (há!) deste blog, eu venho sumarizando e digerindo o texto para você, amigo leitor, que tem mais o que fazer da vida. Mas neste post, e somente neste, transcreverei o capítulo de cabo a rabo, versículo por versículo, para que você tenha a idéia do martírio que é ler esse livro. Vamos dar as mãos e enfrentar juntos esta provação.

1 Deus abençoou Noé e seus filhos: "Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei a terra.
Tome-lhe incesto e endogamia de novo. Mas esse assunto já apanhou demais. Basta.

2 Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se arrasta sobre o solo e todos os peixes do mar: eles vos são entregues em mão.
3 Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde.

Mais um lindo ensinamento deste livro. Todos os animais da terra são um mero alimento para o homem se deliciar. Tenho certeza de que tigres, tubarões-brancos e cia. pensam diferente. E, veja, Deus deu a erva verde para o homem. O que mais ele quer?

4 Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Opa, opa! Estava demorando para aparecer uma restrição. Canibalismo não pode!

5 Eu pedirei conta de vosso sangue, por causa de vossas almas, a todo animal; e ao homem {que matar} o seu irmão, pedirei conta da alma do homem.
6 Todo aquele que derramar o sangue humano terá seu próprio sangue derramado pelo
homem, porque Deus fez o homem à sua imagem.

O Senhor não tem dúvidas sobre a pena de morte. Matou, morreu.

7 Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente."
Que sensação de déjà vu, né?

8 Disse também Deus a Noé e as seus filhos:
9 "Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade,
10 assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra.
11 Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra."

Ueba! Deus não vai mais afogar tudo e todos! Teria ele ficado bonzinho?

12 Deus disse: "Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras:
13 Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra.

Ah, que lindo! Um arco-íris é algo tão fofinho que dá quase para esquecer da carnificina desenfreada que Deus fez algumas páginas atrás.

14 Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens,
15 e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura.

Ok, agora eu tenho certeza que eu já ouvi isso.

16 Quando eu vir o arco nas nuvens, eu me lembrarei da aliança eterna estabelecida entre Deus e todos os seres vivos de toda espécie que estão sobre a terra."
Sério, minha gente, alguém chama o suporte técnico, porque deu pau.

17 Dirigindo-se a Noé, Deus acrescentou: "Este é o sinal da aliança que faço entre mim e todas as criaturas que estão na terra."
“Acrescentou”? Sério? De onde eu venho, isso se chama “encher lingüiça”.

18 Os filhos de Noé que saíram da arca eram Sem, Cam e Jafet. Cam era o pai de Canaã.
19 Estes eram os três filhos de Noé. É por eles que foi povoada toda a terra.

Sim, eu também estou pensando em incesto, mas eu prometi que não ia comentar mais nada sobre isso. Desculpe.

Agora esse final numa paulada só, para ver se você cai da cadeira.
Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, o pai de Canaã, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus irmãos. Mas, Sem e Jafet, tomando uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois que tinham os seus rostos voltados.

Quando Noé despertou de sua embriaguez, soube o que lhe tinha feito o seu filho mais novo. "Maldito seja Canaã, disse ele; que ele seja o último dos escravos de seus irmãos!". E acrescentou : "Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo! Que Deus dilate a Jafet; e este habite nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo!". Noé viveu ainda depois do dilúvio trezentos e cinqüenta anos. A duração total da vida de Noé foi de novecentos e cinqüenta anos; e morreu.
(Gênesis 9:20-29)

Ok, pó-pará! Deixe-me ver se eu entendi direito. Sugiro que você tenha um bloco de notas aí do lado para fazer um esquema gráfico. Olha só. Noé toma todas e tira a roupa dançando cara-caramba cara-caraô. Cam presencia o vexame e resolve compartilhar com seus irmãos. Os irmãos de Cam vão salvar o velho do mico que ele está pagando. Sabiamente, eles não querem ver a piroca de um velho de 600 anos de idade balançando e fazem o resgate de ré. Quando o velho Noé acorda do porre, ele resolve transformar o filho de Cam, seu neto, em escravo dos próprios tios. Alguém pode me explicar a lógica disso? Qual é a moral dessa história? Sério, não é uma pergunta retórica. Alguém me explica que lição devemos tirar dessa parábola.

Imagine Canaã, filho de Cam, recebendo a notícia:

- Filhão...
- Oi pai!
- Você gosta do tio Sem e o tio Jafet?
- Sim, eles são supimpa!
- Que bom, porque você acaba de virar escravo deles.
- ...?!? C-c-como?!? P-p-por que?!? Peraí! Eu juro que aquela maconha na minha mochila é de um amigo! Eu só estava guardando pra ele!
- Não é por isso não, meu filho. É porque eu, ontem à noite, tive o desgosto de ver o seu avô dançando pelado. Por isso ele resolveu arruinar sua vida te transformando num escravo.
- Putaqueopariu! Como assim?
- Assim.

E lembrem-se que, recapitulando Gênesis 6:9, Noé “era um homem justo e perfeito”. Certo. Justo como colarinho de palhaço.

Aparentemente, as pessoas que viviam em tribos do Oriente Médio na idade do bronze (e que escreveram este best-seller) tinham um problema sério com ficar pelado, mas nenhum problema com incesto e escravidão intra-familiar. Vamos ver que surpresas nos aguardam nos capítulos vindouros. Amém.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Gênesis 7 - 8


Os dez primeiros versículos de Gênesis 7 ficam no mesmo nheco-nheco do fim de Gênesis 6: “Nóe, entra no seu barquinho que o pau vai quebrar” (Gênesis 7:1-10). Exceto pelas seguintes novíssimas informações dadas por Deus: “De todos os animais puros tomarás sete casais, machos e fêmeas, e de todos animais impuros tomarás um casal, macho e fêmea; das aves do céu igualmente sete casais, machos e fêmeas, para que se conserve viva a raça sobre a face de toda a terra” (Gênesis 7:2-3). O Senhor, talvez por aconselhamento de algum anjo bom de genética de populações, resolveu que era melhor sete em vez de um casal de cada animal puro. Essa lista de “animais puros” só deve existir mesmo dentro da cabecinha perturbada de Deus. Noé só topou porque percebeu que puxar o saco sem fazer perguntas é o que dá resultado. E perceba ênfase que é dada ao fato de que casal é um macho e uma fêmea! Não me venha com viadagem! Além disso, o Senhor também liberou uma programação do seu Festival da Morte por Afogamento: “dentro de sete dias farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gênesis 7:4).

Então, depois de muito suspense, Deus abre as comportas e dá início ao seu massacre. “No ano seiscentos da vida de Noé (eu podia jurar que o Todo-Poderoso tinha limitado o tempo de permanência para 120 anos, mas tá), no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, romperam-se naquele dia todas as fontes do grande abismo, e abriram-se as barreiras dos céus” (Gênesis 7:11). Com a chuva engrossando, entrou Noé, seus seis familiares, um número impraticável de animais, “e o Senhor fechou a porta atrás dele” (Gênesis 7:16), porque, no projeto da arca, faltou uma maçaneta do lado de dentro da porta.

E choveu. Choveu pracaralho. Por quarenta dias, para ser preciso. “As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a terra, e a arca flutuava na superfície das águas” (Gênesis 7:18), e “todas as criaturas que se moviam na terra foram exterminadas” (Gênesis 7:21). Pronto! Deus resolveu o problema da violência matando todo mundo! É ou não é um gênio? E, como o problema do lixo entupindo os bueiros já é bem antigo, “as águas cobriram a terra pelo espaço de cento e cinqüenta dias” (Gênesis 7:24).

Ora, Deus lembrou-se de Noé, e de todos os animais selvagens e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca”. É isso mesmo, amigo leitor. Deus lembrou-se de Noé! Perceba: ele tinha esquecido, mas lembrou! É ou não é um cara atencioso? Mesmo com a cabeça ocupada com coisas como saborear a carnificina que ele acabou de fazer, o Senhor ainda consegue lembrar-se de Noé! E “fez soprar um vento sobre a terra, e as águas baixaram” (Gênesis 8:1).

Pois bem. As águas foram baixando, a arca encalhou nas montanhas do Ararat. Então Noé usa uma pomba para saber se enchente tinha passado mesmo. Como? Simples, um dia a pomba “voltou, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé compreendeu que as águas tinham baixado sobre a terra” (Gênesis 8:11). Todo mundo sabe que, quando uma pomba pega uma folha verde de oliveira, é porque está tudo seco. É tiro e queda. E, além disso, as plantas não pareceram ter problemas em ficar tanto tempo debaixo d’água, não é mesmo? “Então falou Deus a Noé: ‘Sai da arca, com tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos. Faze sair igualmente contigo todos os animais que estão contigo de todas as espécies: aves, quadrúpedes, répteis diversos que se arrastam sobre a terra; faze-os sair contigo para que se espalhem sobre a terra e para que cresçam e”, com todas as combinações possíveis de incesto, “se multipliquem sobre a terra’" (Gênesis 8:16-17).

O pai de todos os puxa-sacos, Noé, já sabia que Deus gosta mesmo é de morte e “tomou de todos os animais puros e de todas as aves puras, e ofereceu-os em holocausto (holocausto é churrasco, ok?) ao Senhor sobre o altar” (Gênesis 8:20). Ou seja, alguns animais foram sorteados para, depois de passarem mais de um ano em condições piores que ônibus de bóia-fria, queimar num altar! Obrigado, Senhor!

O Senhor respirou um agradável odor, e disse em seu coração: ‘Doravante, não mais amaldiçoarei a terra por causa do homem porque os pensamentos do seu coração são maus desde a sua juventude, e não ferirei mais todos os seres vivos, como o fiz. Enquanto durar a terra, não mais cessarão a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite’” (Gênesis 8:21-22). Deus não precisa enviar um raio sobre minha cabeça por escrever esse blog. Ele vai me matar de tanto rir. Vou trocar em miúdos. Deus matou todos os seres vivos porque o homem era mau. Sob o efeito da fumaça tóxica do churrasco de Noé, o Senhor se toca que o homem é mau mesmo e não tem jeito. E justamente por isso, nunca mais vai fazer uma carnificina dessas. Sério, alguém precisa avisar a esse cara que ele não dá uma bola dentro! Seus decretos não fazem o menor sentido! Ele precisa de um marketeiro, um conselheiro, um psiquiatra, sei lá!

E assim termina a história do dilúvio. Dela podemos tirar valiosas lições, por exemplo... ahm... deixa pra lá. Oremos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Gênesis 4

Segura essa: “Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim, e disse: ‘Possuí um homem com a ajuda do Senhor’” (Gênesis 4:1). Ka-pow! Gênesis 4 já começa com o pé-na-porta e quer te derrubar da cadeira no primeiro versículo, caro leitor! Por partes iremos.

Deus proíba que eu seja o responsável por acabar com sua inocência, mas “conhecer” aqui no livrão significa “transar”, “trepar”, “passar a vara”, “dançar o mambo selvagem” e morro abaixo. Então você, pai zeloso, que pensa que está tudo bem quando sua filha adolescente diz que “conheceu um monte de gente legal na festinha de ontem à noite”, pense novamente! Enfim, vamos em frente. Eva disse ‘possuí um homem com a ajuda do Senhor’. Protesto, excelência! Quando e como o Senhor ajudou? Se tivesse sido na concepção, seria um ménage. Acho que não. No parto, ele não só não ajudou como atrapalhou, na hora em que ele lançou aquela maldição de aumentar as dores do parto, lembra? Só pode ter sido no pré-natal, fazendo exames periódicos de ultra-som e dando dicas de yoga para grávidas. Que seja.

Adão e Eva viram “que era bom”, se me permitem pegar uma frase emprestada, se conheceram de novo e tiveram outro rebento, Abel. “Abel tornou-se pastor e Caim lavrador. Passado algum tempo, ofereceu Caim frutos da terra em oblação ao Senhor” (Gênesis 4:2-3). “Oblação” é oferenda, caso você já esteja perguntando ao Google. Não se sinta mal, eu também perguntei. “Abel, de seu lado, ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons” (Gênesis 4: 4-5). Eu explico: Abel achou que queimar ovelhas era uma boa forma de puxar o saco de Deus e, veja só, o Senhor gostou. Quem resiste ao cheiro de um bom churrasco? Para os frutinhos de Caim, Deus fez “nhé... caguei”.

Caim não ficou nada feliz com a clara preferência de Deus por Abel. O Senhor, agindo como alguém que se importa, perguntou “por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante?” (Gênesis 4:6). “Por que a cara de cu, Caim?” eu diria. Mas o Senhor não queria saber a resposta de Caim. Sabe quando a gente cruza com alguém na rua e diz “E aí, tudo bem?” mas gente não quer saber se está tudo bem mesmo? Então. Antes que o pobre humano pudesse responder, Deus aproveitou a deixa para lançar mais um de seus conselhos de biscoito-da-sorte chinês. “Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo” (Gênesis 4:7). Peraí, Deus! “Reabilitar-te” de que? De ter cometido o crime de te oferecer frutos (que, aliás, é muito mais saudável que churrasco. Caim estava preocupado com o colesterol de Deus e isso que ele recebe em troca)? E “praticar o bem” é fazer sacrifícios animais para o seu deleite? Certo então!

Certo dia Caim acorda com a bunda descoberta e resolve esgoelar o puxa-saco do Abel. Mas Deus tem um talento para não estar presente nos momentos cruciais da história. Lembra que, quando Eva aceitou o fruto da serpente, ele não estava e não viu nada? Pois é, ele também perdeu a parte em que Caim matou Abel. Devia estar no banheiro. Por isso, perguntou: “Onde está seu irmão Abel?". Caim, que já estava num humor daqueles, responde com um coice: “Não sei! Sou porventura eu o guarda do meu irmão?" (Gênesis 4:9). Sensacional! Finalmente alguém bateu o pé para Deus! “Caim, cadê Abel?” “Eu vou saber, porra? Já procurou embaixo da pilha de ovelhas torradas que ele fez para você?”. Boa Caim! Mas se tem uma coisa que Deus é bom, é em pegar a mentira dos homens no pulo. O Senhor percebe tudo, fica puto (de novo) e lança uma maldição (de novo). Caim não ia conseguir plantar mais nada e estava fadado a ser um peregrino errante pela terra, desses que empurra um carrinho de supermercado cheio de porcaria.

Caim não agüenta o tranco e choraminga: “Meu castigo é grande demais para que eu o possa suportar. Eis que me expulsais agora deste lugar, e eu devo ocultar-me longe de vossa face, tornando-me um peregrino errante sobre a terra. O primeiro que me encontrar matar-me-á" (Gênesis 4:14). Apesar da ótima escolha no uso da mesóclise (mandou bem com o “matar-me-á”), a preocupação de Caim de ser morto é em vão. Eu leio a Bíblia com um caderninho do lado para anotar a população da terra. Até pouco tempo atrás íamos em quatro pessoas: Adão, Eva, Caim e Abel. Caim fez o favor de matar 25% da população da terra. Caim, meu caro, pode vagar por aí numa boa! Ninguém vai te encontrar, rapaz! E quem te encontrar, vai ser da família, não é?

Mas Deus também não se toca disso e resolve quebrar o galho de Caim de uma forma que só faz sentido na cabeça dele: “’Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.’ O Senhor pôs em Caim um sinal (uma camiseta com os dizeres “Quem me matar será punido sete vezes”?), para que, se alguém o encontrasse, não o matasse” (Gênesis 4:15). O mendigo Caim “foi habitar na região de Nod, ao oriente do Éden. Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Henoc” (Gênesis 4:16-17). Pó-pará!!! Como assim “conheceu sua mulher”? Que mulher? De onde saiu essa sirigaita? Deus arrancou mais uma costela de Adão, fez outra mulher, e o livro omitiu essa parte? Ou essa mulher é também filha de Adão e Eva e, sinto muito, irmã de Caim? Desculpe-me, mas se eu tivesse comprado um livro que tem esse buraco na história, eu voltava na livraria para pedir meu dinheiro de volta. Enfim.

Um dos descendentes de Caim, chamado Lamec, de bobo só tinha o nome. “Lamec tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela” (Gênesis 4:19). Ada teve um filho chamado Jabel, “que foi pai daqueles que moram em tendas, entre os rebanhos” (Gênesis 4:20) e outro chamado Jubal, “que foi o pai de todos aqueles que tocam a cítara e os instrumentos de sopro” (Gênesis 4:21). Já Sela, teve um filho chamado Tubal-Caim, “que foi o pai de todos que trabalham o cobre e o ferro” (Gênesis 4:22) e uma filha chamada Noema, que não foi porra nenhuma.

Lamec, um belo dia, chega para suas duas esposas e solta: “Ada e Sela, ouvi a minha voz: mulheres de Lamec, escutai as minhas palavras: Por uma ferida matei um homem, e por uma contusão um menino. Se Caim será vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes” (Gênesis 4:24). Suponho que Ada e Sela se entreolharam com a aquela cara de “heim?”. Teria Lamec bebido água de salsicha? Estaria o velho ficando gagá?

Deixando o mistério no ar, nossa história volta repentinamente para Adão que ”conheceu outra vez sua mulher, e esta deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Set, dizendo: ‘Deus deu-me uma posteridade para substituir Abel, que Caim matou’. Set teve também um filho (com quem, mesmo?), que chamou Enos. E o nome do Senhor começou a ser invocado a partir de então” (Gênesis 4:25-26). Ficou parecendo que o autor se embananou com a história, não sabia como desatar o nó e inventou essa bobagem para terminar. Uma decepção para um capítulo que começou tão bombasticamente bom. E chega.