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domingo, 12 de junho de 2011

Gênesis 36-37


"Desce, filhadaputa!"


A Glória! A Glória, pois é com a graça de Javé que nossa história continua. Não são poucos os capítulos das Sagradas Escrituras Sagradas que são uma longa e entediante lista de descendentes de algum personagem notável. No trigésimo sexto capítulo de Gênesis, conhecemos as gerações de Esaú, irmão de Jacó, bruto, peludo, e que cozinha um guisado que só ele. Alguns nomes já são uma piada pronta, como Elifaz ou Amaleque. Outros são bons para quando você não sabe como batizar seu cágado de estimação, como Zibeão ou Husão. Mas a verdade é que esses capítulos servem para drenar a vontade de alguém ler a Bíblia de cabo a rabo. Melhor deixar pro pastor ou padre escolher e interpretar as partes importantes pra mim, não é? Nananina-não! Aqui não, Zibeão! Nós vamos até o fim!

Pois no capítulo seguinte conhecemos um importante personagem de nossa saga: José, filho favorito de Jacozito-Israel. “E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice (leia-se ‘filho da catuaba selvagem com amendoim); e fez-lhe uma túnica de várias cores” (Gênesis 37:3). Gente, que fashion! Israelito era um velho antenado nas últimas tendências, e sabia que túnica multi-color voltou COM TUDO nessa coleção Outono-Inverno! Que melhor presente para Zezinho? A-rra-sou! Mas esse xodó de Jacó com José servia também para irritar seus ciumentos irmãos. Entre eles, diziam “Lá vem o cocozinho do José e sua túnica multi-colorida... e eu aqui com essa túnica cor de brim cru... tão coleção-passada!”. E como se não bastasse, José contou-lhes dois sonhos nada modestos que teve: “estávamos ligando feixes no campo, e eis que o meu feixe se levantou e se pôs de pé, enquanto os vossos o cercavam e se prostravam diante dele" (Gênesis 37:7). O feixe de José subindo rijo e teso e os feixes de seus irmãos descendo. Fálico, né? E no outro sonho “o sol, a lua e onze estrelas prostravam-se diante de mim” (Gênesis 37:9). Mas é muita cara de pau! Fritas acompanha?

Pois num tórrido e escaldante dia no Oriente-Médio, os irmãos mal-amados de José estavam nas terras de Siquém fazendo o que todo bom nômade do deserto faz de melhor: arrebanhando cabras, bodes, carneiros e ovelhas. Já no meio do expediente, José resolve dar o ar da graça. “Eis o sonhador que chega. Vamos, matemo-lo e atiremo-lo numa cisterna; diremos depois que uma fera o devorou; e então veremos de que lhe aproveitaram os seus sonhos” (Gênesis 37:19-20), disseram os irmãos de Zé. É isso mesmo! Resolveram dar um fim no folgado, desovar o presunto num poço e ainda por a culpa numa besta errante! E eu desafio qualquer um a falar “matemo-lo”com a boca cheia de pão! Mas um dos irmãos, Rubem, era da turma do deixa disso. “Não lhe tiremos a vida, não derrameis sangue. Jogai-o naquela cisterna, no deserto, mas não levanteis vossa mão contra ele” (Gênesis 37: 21-22). E assim o fizeram. Deram-lhe um cascudo, “despojaram de sua túnica, daquela bela túnica de várias cores que trazia, e jogaram-no numa cisterna velha, que não tinha água” (Gênesis 37:23-24), só de samba-canção.

Mas o infortúnio de José estava só começando. Após terem arremessado o inconveniente cisterna abaixo, os irmãos sentaram para fazer uma farofada. Tiraram o franguinho frito do isopor, abriram uma cervejinha, Rubem bombou o pagodinho no seu celular que toca mp3 e skitum, skitum, skitum- “peraí Rúbi!”, interrompeu um dos irmãos, “Ô Rúbi! RÚBI, caráio! Desliga essa porra aí!”. Rubens cortou o som e “eis que, levantando os olhos, viram surgir no horizonte uma caravana de ismaelitas vinda de Galaad” (Gênesis 37:25). Ismaelitas, tradicionais comerciantes madianitas que varavam o deserto em seus camelos, oferecendo produtos a preços imbatíveis. Pois um dos irmãos, Judá, viu ali a chance de tirar um trocado: Por que não vender o enjoadinho do José como escravo para os Ismaelitas? “E, quando passaram os negociantes madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos Ismaelitas, que o levaram para o Egito” (Gênesis 37:28). Ca-tchin!

Os irmãos mataram um cabrito e usaram o sangue para empapar a bela túnica de José. E ainda deram um regaço, ralando no chão, cuspindo em cima e esfregando no racho da bunda para arrebentar o tecido. Que bando de arruaceiros! Quando levaram o trapo para o velho Jacó, ele despirocou de vez. “É a túnica de meu filho! Uma fera o devorou! José foi estraçalhado!" (Gênesis 37:33). Pobre Jacó! Estava certo de que seu favorito já tinha virado bosta uma hora dessas, “e, rasgando as vestes, cobriu-se de um saco, e chorou o seu filho por muito tempo” (Gênesis 37:34). Que figura mais ridícula, chorando enrolado num saco velho. Mas a verdade é que José não tinha virado bosta coisa alguma. “Os madianitas venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do faraó e chefe da guarda” (Gênesis 37:36). Sorte de José que esse tal de Putifar era eunuco porque, se bem me lembro, ele estava de samba-canção.

O que será de José, agora vendido como um escravo para o Faraó? A resposta você só encontra aqui, n’A Bíblia com Limão e Gelo! (Ou na bíblia de verdade também, claro.)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gênesis 32-33


"Jacó recebe nu uma massagem com óleo-de-bebê"

Para quem não se lembra, o estelionatário do Jacó já passou a perna em seu irmão Esaú, o hirsuto, duas vezes num passado distante. Tamanha foi a rusga, que Esaú jurou nosso herói de morte. E agora que Jacozito estava voltando para sua terra natal, ele teria que encarar esse problema como um homem. Ou não.

Durante a viagem de volta, caminhando no escaldante deserto, mensageiros de Jacó vieram com as más notícias: “Fomos ter com Esaú: ele vem ao teu encontro com quatrocentos homens" (Gênesis 32:6). Quatrocentos homens. Talvez fosse uma boa hora para ter um pote de vaselina à mão. Não sei como Esaú se tornara tão poderoso e líder de um exército. Teria ele lançado uma bem sucedida linha de shampoos e condicionadores? Não importa. Jacó estava se cagando todo, suplicando ajuda para seu amiguinho Javé. “Salvai-me, eu vos peço, das mãos de meu irmão Esaú, pois temo que ele me venha atacar, sem poupar nem mãe nem filhos” (Gênesis 32:11). De forma astuta e covarde, nosso herói ficou acampado e mandou servos adiante com cabras, bodes, jumentos e iPods para presentear Esaú. “Eu o aplacarei com este presente que me precede; e depois o verei pessoalmente; talvez me fará ele bom acolhimento” (Gênesis 32:20). Ah safado!

A história tá legal, né? Pena que ela só vai continuar depois, porque agora a coisa descamba para mais uma das parábolas psico-absurdas da Bíblia. Entenda como quiser. Naquela mesma noite, Jacózito mandou suas quatro esposas e onze filhos seguirem viagem e ele ficou sozinho no acampamento. “Jacó ficou só; e alguém lutava com ele até o romper da aurora” (Gênesis 32:24). Pois é. Sem qualquer motivo aparente, alguém surgiu e saiu no mano a mano com Jacó. A capoeira durava até a madrugada quando este misterioso pit-boy usou um golpe sujo: tocou Jacó “na articulação da coxa e esta deslocou-se” (Gênesis 32:25). Aí, meu caro, foi nocaute. O misterioso homem estava dando área quando Jacó disse “Não te deixarei partir antes que me tenhas abençoado” (Gênesis 32:26). Quê? Jacó levou porrada e agora quer uma ‘bença’? "Qual é o teu nome?" perguntou o homem."Jacó." “Teu nome não será mais Jacó, tornou ele, mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste” (Gênesis 32:27-28). Só pode estar de sacanagem! O misterioso arruaceiro era Javé em pessoa! E, me desculpe, “venceste” o caralho. Jacó levou um golpe ninja na articulação da coxa e agora mancava que só um jumento velho. Seja como for agora ele tinha um nome artístico: Israel. “É por isso que os israelitas, ainda hoje, não comem o nervo da articulação da coxa, porque aquele homem tinha tocado nesse nervo da articulação da coxa de Jacó” (Gênesis 32:32). Que motivo idiota, né? Há quem diga que isso foi um sonho que Jac... quero dizer, Israel teve. Pra mim foi sanduíche de presunto e maionese no deserto sem uma bolsa térmica adequada.

No dia seguinte, não tinha mais pra onde fugir. Esaú e seus 400 guerreiros se aproximavam de Jacozito/Israel que covardemente “prostrou-se até a terra sete vezes antes de se aproximar do seu irmão” (Gênesis 33:3). Agora que o cu dele tá na reta, ele respeita Esaú. “Mas Esaú correu-lhe ao encontro e beijou-o; ele atirou-se ao seu pescoço e beijou-o; e puseram-se a chorar” (Gênesis 33:4). Óóó que munhitinhu!!! Esaú deixou a rusga de lado e tascou melados beijos no irmão, e depois caíram no choro. Imagino que todos em volta, esposas, servos, soldados e camelos, se entreolharam com cara de “heim?”. Jacozito chegou são e salvo à sua terra natal, Padã-Arã e “levantou aí um altar, ao qual chamou El-Deus de Israel” (Gênesis 33:20), porque Javé gosta mesmo é de ter seu saco puxado com altares.

Eu particularmente achei um final decepcionante para o impasse entre o escrotinho do Jacó e Esaú, o bruto. Talvez seja sadismo de minha parte, mas eu queria ver o circo pegar fogo. Quem sabe em capítulos vindouros a coisa fica mais emocionante.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gênesis 28


"Quadro de motel" de William Blake. Óleo sobre tela.

Alguns capítulos da santíssima Bíblia Sagrada são longos e não signficam nada. Outros são curtos e significam menos ainda, e assim é Gênesis 28. Olha como já começa. “Isaac chamou Jacó e o abençoou” (Gênesis 28:1). Sério, já queimaram na largada dessa vez. Isaac esqueceu de tudo que aconteceu no capítulo passado?!? Toda aquela novela mexicana de quarenta e seis versículos, dois pratos de filé mignon e um homem vestido de cabrito, pra conseguir uma benção. E agora, simples assim, ele chama Jacó e o abençoa?!? Só pode estar de sacanagem. Mas vamos em frente. Isaac ordena: “Não desposarás uma filha de Canaã”, porque o povo escolhido não pode se misturar com a gentalha que Deus não escolheu. “Mas vai a Padã-Arã, à casa de Batuel, pai de tua mãe, e escolhe lá uma mulher entre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus todo-poderoso te abençoe, te faça crescer e multiplicar, de sorte que te tornes uma multidão de povos” (Gênesis 28:1-3). Ou seja, Jacó, se case com uma prima e se reproduza como um fungo que vai dar tudo certo. Esaú, o irmão peludinho de Jacó, querendo agradar seu pai “foi à casa de Ismael e tomou por mulher, além daquelas que já tinha, a Maelet, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nabaiot.” (Gênesis 28:9). Por que não adicionar uma prima a sua coleção de mulheres?

Agora, herege leitor, vem o filé deste capítulo. Tremei. Jacó partiu rumo a Padã-Arã e, após caminhar um dia inteiro com o Sol fritando-lhe os cornos, resolveu parar no meio do deserto para passar a noite. “Serviu-se como travesseiro de uma das pedras que ali se encontravam, e dormiu naquele mesmo lugar.” (Gênesis 28:11). Jacó já sabia o conforto que um bom travesseiro ortopédico proporciona. Tanto conforto que ele sonhou com “uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada.” (Gênesis 28:12). E quem estava no topo desta escada? Quem? Quem? Ele! O bom Senhor! E ele, em sua voz trovejante e reverberante, falou a Jacózinho e prometeu toda aquela baboseira de multiplicar a posteridade como os grãos de areia. É só isso que esse imbecil sabe prometer. Se ele tivesse prometido camisinhas, talvez hoje estivéssemos melhor.

Enfim, “Jacó, despertando de seu sono, exclamou: ‘Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!’ E, cheio de pavor, ajuntou: ‘Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu.’” (Gênesis 28:16-17). Cheio de pavor! Terrível! Que impressão amigável que o Bom Senhor passa, não? Mas calma, Jacó! Será que não foi só um sonho? Se eu tivesse passado o dia no deserto e depois usasse uma pedra como travesseiro, eu também teria sonhos parecidos (mais provavelmente um elevador para as profundezas do inferno do que uma escada para o céu, mas enfim). Mas não, Jacó estava convencido de que aquele fora um genuíno vídeo educacional do Senhor. Ali era de fato a porta do céu (só pra mim que isso soa ridículo?). Tanto que ele fez um monumento de seu rijo travesseiro de pedra. “Tomou Jacó a pedra sobre a qual repousara a cabeça e a erigiu em estela, derramando óleo sobre ela.” (Gênesis 28:18). Eu, particularmente, não consigo derramar óleo sobre alguma coisa e não pensar em sacanagem. Mas esse sou eu, pervertido.

Jacó então bradou: "Se Deus for comigo, se ele me guardar durante esta viagem que empreendi, e me der pão para comer e roupa para vestir, e me fizer voltar em paz casa paterna, então o Senhor será o meu Deus. Esta pedra da qual fiz uma estela será uma casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo o que me derdes." (Gênesis 28:20-22). Aaahhh, agora tudo faz sentido! O dízimo! Javé vai te dar pão, roupa, uma viagem tranqüila e mais descendentes do que grãos de areia, e tudo que ele quer é seu dinheiro! Ora, mas esse é um negócio da china!

Será coincidência que, o capítulo que coloca Deus como ‘terrível’ e digno de ‘pavor’, é também o que sugere que você dê a Ele 10% de suas finanças? Ah, e caso você não encontre Javé pessoalmente, pode entregar o cheque para o padre/pastor que ele entrega depois.

sábado, 19 de junho de 2010

Gênesis 27

"Ah safado!" de Govert Flinck. Óleo sobre tela.

Isaac estava mais velho que andar pra frente e cego como uma toupeira. Enjoado de escutar seu radinho AM, resolveu pentelhar a vida de Esaú, seu filho favorito. “Tu vês, estou velho e não sei quando vou morrer”, disse o velho gagá. Quando alguém começa a conversa com uma chantagem emocional, é porque vai pedir coisa. Veja. “Toma as tuas armas, tua aljava e teu arco, vai ao campo e mata-me uma caça. Prepara-me depois um prato suculento, como sabes que gosto, e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra." (Gênesis 27:2-4). É na base do toma lá - dá cá. O velho dá a benção se Esaú encher a barriguinha enrugada dele.

Rebeca, esposa de Isaac, devia estar cansada de enxugar baba e brincar de “pra-que-lado-cai?” com a benga do velho. Por isso resolveu sacaneá-lo e, de quebra, ajudar Jacó, irmão de Esaú e queridinho da mamãe. Ela escutou por detrás da porta quando Isaac alugou Esaú, e foi logo correndo para Jacó: “Ouve-me, pois, meu filho, e faze o que te vou dizer. Vai ao rebanho e traze-me dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato suculento para o teu pai, como ele gosta, tu lho levarás e ele comerá, a fim de que te abençoe antes de morrer." (Gênesis 27:8-10). A víbora quer que Jacó se passe por Esaú para roubar essa tão cobiçada benção. Se fosse por mim, Isaac podia enfiar essa benção no rabo. Enfim. Mas Jacó, que se depila toda quinta com cera marroquina, questiona: “Mas Esaú, meu irmão, é peludo, enquanto eu sou de pele lisa. Se meu pai me tocar, passarei aos seus olhos por um embusteiro e atrairei sobre mim uma maldição em lugar de bênção." (Gênesis 27:11-12). Jacozinho fica relutante não por princípios, mas por medo do tiro sair pela culatra. É filho da mãe mesmo! Mas Rebeca não bate prego sem estopa, e já tinha pensado nesse problema da hipertricose de Esaú.

Em seu plano maquiavélico, Rebeca preparou o prato com os cabritos, “escolheu as mais belas vestes de Esaú, seu filho primogênito, que tinha em casa, e revestiu com elas Jacó, seu filho mais novo. Cobriu depois suas mãos, assim como a parte lisa do pescoço, com a pele dos cabritos” (Gênesis 27:15-16). Ó-quêi-pó-pará! Esse é o plano genial de Rebeca? Cobrir a pele de Jacó com pele de cabritos para ele ficar peludo como Esaú? Sério, ou Esaú é tão, mas tão peludo que faz o Tony Ramos parecer uma rã; ou esse plano vai dar muito errado; ou, ainda, Isaac está mais gagá do que a gente imagina. E assim foi Jacó, fantasiado de cabrito fantasiado de Esaú, levar o prato para Isaac. Que papelão.

Jacó entrou no quarto e acordou o velho. "Meu pai!" "Eis-me aqui!”, balbuciou Isaac. “Quem és, meu filho?". Jacó, na cara dura respondeu: “Eu souCOF! [engrossa a voz] Eu sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me pediste. Levanta-te, assenta-te e come de minha caça, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:18-19). E o Oscar vai para… “Como encontraste caça tão depressa, meu filho?", perguntou Isaac, desconfiando que havia algo de podre no ar. "É que o Senhor, teu Deus, fez que ela se apresentasse diante de mim." Sei, sei! O velho parece não estar completamente convencido: "Aproxima-te, então, meu filho, para que eu te apalpe e veja se, de fato, és o meu filho Esaú." (Gênesis 27:20-21). Heim?!? “Para que eu te apalpe”?!? Ica! Deus me livre! Mas enfim, agora a gente vai ver se os efeitos especiais de Rebeca funcionam mesmo. Isaac ‘apalpou’ Jacó e sentiu pelos dignos de um cabrito (porque eram mesmo) em suas mãos. “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú." (Gênesis 27:22). Então, concluiu o velho gagá, é Esaú. O curioso é que Deus, que faz os ovários de uma mulher estéril funcionar, não devolve a visão a Isaac. Nem manda um anjo para dar um tapa na nuca de Isaac e dizer “acorda, velho idiota!” Não. Ele não faz nada. Talvez porque ele não dê a mínima e já esteja de saco cheio dessa história, como eu e você.

Mas enfim, Isaac finamente resolve dar essa tal de benção para o falso Esaú. “Aproxima-te, meu filho, e beija-me." E sentindo sovaqueira emanando das roupas de Esaú que Jacó vestia disse: “Sim. O odor de meu filho é como o odor de um campo que o Senhor abençoou.” Tamanho era o fedor das vestes de Esaú que Isaac não percebeu o cheiro de laquê e pó-de-arroz de Jacó. “Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, uma abundância de trigo e de vinho! Sirvam-te os povos e prostrem-se as nações diante de ti! Sê o senhor dos teus irmãos, e curvem-se diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar!" (Gênesis 27:26-29). Linda benção, né? “Que você seja rico e poderoso e quem for contra você que tome no cu”. Bem no espírito bíblico.

Pois tão logo Jacó tinha picado a mula, chegou o coitado do Esaú, peludo e vermelho, trazendo o prato que lhe foi encomendado. “Levanta-te, meu pai, e come da caça do teu filho, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:31). “Mas será o caralho?” pensou o velho Isaac, “fiquei gagá de vez? Eu não acabei de abençoar esse f...”. E então, a ficha caiu. Isaac foi ludibriado e por isso ficou puto. “Quem é, pois, aquele fidiputa que foi à caça e me trouxe o prato que eu comi antes que tu voltasses? Eu o abençoei, e ele será bendito." (Gênesis 27:33). Esaú soltou um grito cheio de amargura, mais ou menos assim: “Mmmmmmuuuuuhhuuuuéééééénnnhhéééé… é…” e disse: “Abençoa-me também a mim, meu pai!" "Teu irmão, respondeu-lhe Isaac, veio, fraudulentamente, tomar a tua bênção." (Gênesis 27:34-35). Esaú já estava farto de Jacózinho puxando seu tapete! Porra! Assim não dá! "Será porque ele se chama Jacó que me suplantou já duas vezes? (hã?) Tirou-me meu direito de primogenitura, e eis que agora me rouba minha bênção! Não reservaste, porventura, uma bênção também para mim?" (Gênesis 27:36). E Esaú pôs-se a chorar. Mimimimi.

Isaac poderia dizer “Deus te abençoe, meu fi” e resolver o problema. Pronto, todo mundo iria pra casa feliz. Mas não, ao invés disso ele resolve fazer uma profecia. "Eis que a tua habitação será desprovida da gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás de tua espada, servindo o teu irmão, mas, se te libertares, quebrarás o seu jugo de cima do teu pescoço." (Gênesis 27:39-40). Traduzindo, “o seu irmão mentiroso quis roubar sua benção. Eu sou gagá e idiota e deixei. Agora você vai se foder como escravo dele, a não ser que você mate ele, ok?”. E no cu, não vai nada? Esaú, amassando furiosamente uma latinha de cerveja, disse “Virão os dias do luto de meu pai, e matarei meu irmão Jacó." (Gênesis 27:41). Tenso. Rebeca, para proteger seu neném Jacó, manda-o para tirar umas férias na casa o tio Labão (aquele da laba grande), até que Esaú esqueça da mágoa. E do jeito que Esaú é abestalhado, é capaz que esqueça mesmo. E, ufa, acabou.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Gênesis 26


"Isaac e Rebeca brincando de pau-de-sebo" - 1518-1519, afresco de Raffaello Sanzio.

Senhor Javé! Rogo para que me ilumine! Como, ó, como, Senhor Meu Deus? Como o maior best-seller da história pode ser tão ruim? Me acompanhe, herege leitor.

Recordemos Gênesis 12: Abraão muda-se para o Egito. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. O Faraó fode Sara e Deus fode o Faraó.

Não precisamos retroceder muito para recordar Gênesis 20: Abraão muda-se para as terras do Rei Abimalec. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. Abimalec quase fode Sara e Deus quase fode Abimalec.

Em Gênesis 26, uma fome se abate sobre a região e Isaac muda-se, com sua esposa Rebeca, para o reino do mesmo Abimalec. Agora, quem adivinhar o que acontece, vai concorrer a um brinde exclusivo do Bíblia com Limão e Gelo: um consolo de borracha anti-alérgica com a inscrição “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” em alto relevo! Adivinhou? Parabéns, leitor! É exatamente isso! Isaac, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Rebeca é, pasmem, sua irmã.

Abimalec, que apesar de já ter caído no golpe antes, se surpreende ao flagrar Rebeca brincando de pega-vareta com Isaac e diz: “É evidente que é tua mulher! E como dizias tu que era tua irmã?". Isaac, ainda abotoando seu jeans, responde “Porque eu temia que me matassem por causa dela.". Abimalec, emputecido, brada: "Que nos fizeste? Um pouco mais e alguém do povo teria abusado de tua mulher, e terias atraído o pecado sobre nós!" (Gênesis 26:9-10). Se fosse irmã, não seria abuso e nem pecado, segundo a lógica bíblica. “Então Abimelec mandou publicar (no twitter?) diante de todo o povo que seria morto quem quer que tocasse naquele homem ou em sua mulher.” (Gênesis 26:11). Foi só no meu saco que essa história já deu? Obrigado.

O que se passa depois é uma bocejante disputa entre Isaac e o filisteus por poços de água, mas vou poupá-lo deste sofrimento. Se você, leitor com conhecimento bíblico, sabe de alguma importância histórico-cultural dessa pentelhação, nos ilumine na caixa de comentários. Porque, pra mim, parece só algo tão vago que um padre/pastor pode usar como metáfora para o que for mais conveniente.

Pra finalizar, Esaú “tomou por mulheres Judite, filha de Beeri, o hiteu, e Basemat, filha de Elon, o hiteu.” (Gênesis 26:34). Não me surpreende que um homem vermelho e peludo tenha duas esposas. Não explica bem porque, mas “elas foram um motivo de desgosto para Isaac e Rebeca.” (Gênesis 26:35). Seria porque elas são filhas de hiteus e não pertencem ao povo escolhido descendente de Abraão? Quem quer ser xenofóbico e preconceituoso encontra respaldo na nossa Bíblia Sagrada. Vou lá ajoelhar no milho que dói menos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Gênesis 25


"Pintura pequena, escura e confusa" de Benjamin West. Óleo sobre tecido.


O velho Abraão era um homem abençoado pelo Deus Altíssimo e ainda dava no couro, mesmo nos seus cento-e-cachorro-lascou-a-boca anos de idade. E como prova disso, após Sara ter passado dessa para uma melhor, ele se casou com uma mulher chamada Cetura. E ainda teve filhos que ele amaldiçoou com os nomes Zamrã, Jecsã, Madã, Madiã, Jesboc e Sué. E, como se esses nomes não fosses sacanagem suficiente, Abraão deixou toda a herança somente para Isaac. Velho filhadaputa. “Quanto aos filhos de suas concubinas (não é possível... o velho devia tomar catuaba e Caracu com ovo na veia!), só lhes deu presentes, e despediu-os, ainda vivo, mandando-os para longe de seu filho Isaac, para a terra do oriente.” (Gênesis 25:6). E, aos 175 anos de idade, Abraão vai a óbito e seu presunto é enterrado na mesma caverna em que Sara também foi enterrada. Ficou triste? Nem eu.

O primogênito de Abraão, Ismael, gerou doze filhos que foram chefes de doze tribos (isso, tribos. A Bíblia é um livro de uma era tribal. Pudera alguns conceitos estarem ultrapassados). Ismael também empacota, só que na flor da idade, com apenas 137 anos. E agora? Nem uma lágrima?

Já com Isaac o buraco foi mais embaixo. “Isaac rogou ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu-o e Rebeca, sua mulher, concebeu.” (Gênesis 25:21). Ué! Que fácil! “Senhor”, “Sim, Isaac?”, “Minha mulher é estéril. Dá pra quebrar meu galho?”, “Demorô, véi!”, SHAZAM! Mas, apesar do bom Senhor ter agraciado Rebeca com gêmeos, a gravidez não foi tranqüila e saudável. Enquanto grávidas normais sentem o rebento dando chutinhos e se acomodando, Rebeca sentia que seus dois fetos estavam praticando o Vale-Tudo. Se na época houvesse ultra-som, os médicos tribais veriam soco, pontapé, chave-de-braço, tesoura-voadora, dedo-no-olho, fisgada e até o temido suplex-alemão. Ou talvez fossem só gases.

Mas, apesar da ausência da ultra-sonografia, Rebeca podia se consultar com o Guru da Obstetrícia Neo-Natal, o inventor de todo o sistema, Dr. Javé. "’Se assim é, por que me acontece isso?’ E ela foi consultar o Senhor, que lhe respondeu: ‘Tens duas nações no teu ventre; dois povos se dividirão ao sair de tuas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo.’” (Gênesis 25:22-23). Esse é o plano divino, mas Deus põe ele em prática dentro da barriga dos outros. Ó-quêi então.

E no dia do parto, surpresa! “O que saiu primeiro era vermelho, e todo peludo como um manto de peles, e chamaram-no Esaú” (Gênesis 25:25). Você leu certo, herege leitor. Vermelho e peludo. Se ainda duvida, clique aqui para ver uma fotografia de Esaú. “Saiu em seguida o seu irmão, segurando pela mão o calcanhar de Esaú, e deram-lhe o nome de Jacó.” (Gênesis 25:25). Há quem diga que Jacó, ao invés de chorar, nasceu dizendo “volta aqui, filhadaputa! Não vai escapar assim não!”. Enfim, Esaú cresceu e se tornou um destro caçador, um homem rústico, tosco, fino como apito de navio. “Jacó”, todavia, “era um homem pacífico, que morava na tenda.” (Gênesis 25:27). Leia-se frouxo. Obviamente, Isaac sempre gostou mais de Esaú, o bruto, enquanto Rebeca preferia Jacó.

Um dia, Jacó estava, de avental, preparando um saboroso guisado, cuja receita ele aprendeu no Mais Você. O peludo Esaú voltou do campo, sujo e com uma sovaqueira de derrubar o guarda, e disse “Deixa-me comer um pouco dessa coisa vermelha, porque estou muito cansado.” (Gênesis 25:30). Creio que Jacó não gostou nada que Esaú chamou seu Guisado à Moda Sul-Matogrossense de “coisa vermelha”. E ainda viu uma chance de passar a perna no seu obtuso irmão. "Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura." (Gênesis 25:31). Jacó não é flor que se cheire, e só daria um prato de sua iguaria se Esaú entregasse seus direitos de primogênito (lembrem-se que Jacó nasceu alguns segundos depois, atracado no calcanhar de seu irmão). Esaú, cuja fome se igualava a sua burrice, topou. "’Morro de fome, que me importa o meu direito de primogenitura?’ ‘Jura-mo, pois, agora mesmo’, tornou Jacó. Esaú jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.” (Gênesis 25:32-33). Caiu como um pato.

E assim termina nosso denso capítulo 25, com a morte de Abraão e Ismael, e o nascimento de irmãos gêmeos que se odeiam. Há novela melhor?