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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Interlúdio: Quantos elefantes cabem num Fusca?

Cinco, é claro. Dois na frente e três atrás. E quantos animais cabem num barco que nunca existiu? Bem, segundo a Bíblia Sagrada, Noé fez caber um casal de cada espécie de animal impuro (?) e sete casais de cada espécie de ave e animal puro (??) na Arca. Ok, vamos quebrar o galho de Noé e fazer vista grossa para uma enchente (turum-tish!) de evidências. Como não sabemos que animais são puros ou impuros, vamos supor que ele pegou sete casais somente de cada espécie de ave. Dos outros animais, um casal para cada espécie. Depois vamos empurrar as milhões de espécies de insetos e aracnídeos para debaixo do tapete e fingir que elas não ocupam espaço. E, de quebra, vamos supor que todas as espécies de animais da Terra já estão descritas (o que é um absurdo, mas tá). Não quero te inundar (turum-tish-tish!) com números, mas, segundo a lista de espécies identificadas da IUCN, são 5.490 espécies de mamíferos, 9.998 de aves, 9.084 de répteis e 6.433 de anfíbios. Só contando esses quatro grupos, Noé teve que fazer 181.968 animais caberem na Arca.

Agora pense em estocar comida para um ano para esses animais. E água? Sim, choveu por quarenta dias, mas e o resto ano? Eles beberam a água salgada da enchente? Pense também em limpar e remover as toneladas de fezes. E na ventilação do ambiente, com a uma janela que Deus pôs no projeto (Gênesis 6:16). E em parasitas e doenças num ambiente confinado. Agora pense que o quadro de funcionários da Arca de Noé é de sete pessoas para 180.000 animais. O Zoológico de São Paulo tem cerca de 370 funcionários para 3.200 animais. Enfim, dá para escrever um livro sobre o absurdo que essa história é.

Aliás, existe um livro sobre a logística da Arca de Noé, mas não do jeito que você está pensando. O auto-proclamado “cientista” (aspas, aspas! muitas aspas!) e criacionista John Woodmorappe, que já tentou de todo jeito provar que a datação por carbono 14 está errada (!), escreveu um livro chamado ‘Noah’s Ark: A feasibility study’. Nele, o autor “prova” (olha as aspas aí de novo!) que a Arca de Noé é logisticamente possível. Só para se ter uma idéia da baixaria da argumentação deste descendente de Adão, veja o que ele afirma sobre a alimentação dos dinossauros que estavam na arca. Isso, dinossauros. “Dinossauros devem ter comido basicamente as mesmas comidas que os outros animais. Os grandes saurópodos (ele está falando de brontossauros aqui, meu amigo) devem ter comido feno e outros vegetais desidratados. Dinossauros carnívoros – isso se algum deles era carnívoro antes do Dilúvio (meu café da manhã acabou de voltar até a garganta. obrigado.) - devem ter comido carne seca, carne seca reconstituída ou animais abatidos. Tartarugas gigantes teriam sido alimentos ideais nessa situação. Elas são grandes e precisam de pouca comida”. Acho que o argumento mais forte de Woodmorappe é “se eu consigo enfiar tanta baboseira dentro de um livro, é claro que Noé conseguiu enfiar todos os animais na Arca”. Não creio que nenhum cientista sério tenha escrito um livro sobre a impossibilidade da Arca de Noé. Provavelmente pelo mesmo motivo que ninguém que zela pelo nome escreveria um livro sobre porque o Coelhinho da Páscoa não existe.

Qualquer um que acha que a Arca de Noé foi verdade, eu sugiro que mantenha um elefante dentro de sua cozinha por um ano, e use sua sala de jantar para estocar comida. Pensando bem, não faça isso. O elefante vai morrer. E ele não tem culpa que esse primata idiota chamado humano acredita nas próprias mentiras que inventa.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Gênesis 7 - 8


Os dez primeiros versículos de Gênesis 7 ficam no mesmo nheco-nheco do fim de Gênesis 6: “Nóe, entra no seu barquinho que o pau vai quebrar” (Gênesis 7:1-10). Exceto pelas seguintes novíssimas informações dadas por Deus: “De todos os animais puros tomarás sete casais, machos e fêmeas, e de todos animais impuros tomarás um casal, macho e fêmea; das aves do céu igualmente sete casais, machos e fêmeas, para que se conserve viva a raça sobre a face de toda a terra” (Gênesis 7:2-3). O Senhor, talvez por aconselhamento de algum anjo bom de genética de populações, resolveu que era melhor sete em vez de um casal de cada animal puro. Essa lista de “animais puros” só deve existir mesmo dentro da cabecinha perturbada de Deus. Noé só topou porque percebeu que puxar o saco sem fazer perguntas é o que dá resultado. E perceba ênfase que é dada ao fato de que casal é um macho e uma fêmea! Não me venha com viadagem! Além disso, o Senhor também liberou uma programação do seu Festival da Morte por Afogamento: “dentro de sete dias farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gênesis 7:4).

Então, depois de muito suspense, Deus abre as comportas e dá início ao seu massacre. “No ano seiscentos da vida de Noé (eu podia jurar que o Todo-Poderoso tinha limitado o tempo de permanência para 120 anos, mas tá), no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, romperam-se naquele dia todas as fontes do grande abismo, e abriram-se as barreiras dos céus” (Gênesis 7:11). Com a chuva engrossando, entrou Noé, seus seis familiares, um número impraticável de animais, “e o Senhor fechou a porta atrás dele” (Gênesis 7:16), porque, no projeto da arca, faltou uma maçaneta do lado de dentro da porta.

E choveu. Choveu pracaralho. Por quarenta dias, para ser preciso. “As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a terra, e a arca flutuava na superfície das águas” (Gênesis 7:18), e “todas as criaturas que se moviam na terra foram exterminadas” (Gênesis 7:21). Pronto! Deus resolveu o problema da violência matando todo mundo! É ou não é um gênio? E, como o problema do lixo entupindo os bueiros já é bem antigo, “as águas cobriram a terra pelo espaço de cento e cinqüenta dias” (Gênesis 7:24).

Ora, Deus lembrou-se de Noé, e de todos os animais selvagens e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca”. É isso mesmo, amigo leitor. Deus lembrou-se de Noé! Perceba: ele tinha esquecido, mas lembrou! É ou não é um cara atencioso? Mesmo com a cabeça ocupada com coisas como saborear a carnificina que ele acabou de fazer, o Senhor ainda consegue lembrar-se de Noé! E “fez soprar um vento sobre a terra, e as águas baixaram” (Gênesis 8:1).

Pois bem. As águas foram baixando, a arca encalhou nas montanhas do Ararat. Então Noé usa uma pomba para saber se enchente tinha passado mesmo. Como? Simples, um dia a pomba “voltou, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé compreendeu que as águas tinham baixado sobre a terra” (Gênesis 8:11). Todo mundo sabe que, quando uma pomba pega uma folha verde de oliveira, é porque está tudo seco. É tiro e queda. E, além disso, as plantas não pareceram ter problemas em ficar tanto tempo debaixo d’água, não é mesmo? “Então falou Deus a Noé: ‘Sai da arca, com tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos. Faze sair igualmente contigo todos os animais que estão contigo de todas as espécies: aves, quadrúpedes, répteis diversos que se arrastam sobre a terra; faze-os sair contigo para que se espalhem sobre a terra e para que cresçam e”, com todas as combinações possíveis de incesto, “se multipliquem sobre a terra’" (Gênesis 8:16-17).

O pai de todos os puxa-sacos, Noé, já sabia que Deus gosta mesmo é de morte e “tomou de todos os animais puros e de todas as aves puras, e ofereceu-os em holocausto (holocausto é churrasco, ok?) ao Senhor sobre o altar” (Gênesis 8:20). Ou seja, alguns animais foram sorteados para, depois de passarem mais de um ano em condições piores que ônibus de bóia-fria, queimar num altar! Obrigado, Senhor!

O Senhor respirou um agradável odor, e disse em seu coração: ‘Doravante, não mais amaldiçoarei a terra por causa do homem porque os pensamentos do seu coração são maus desde a sua juventude, e não ferirei mais todos os seres vivos, como o fiz. Enquanto durar a terra, não mais cessarão a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite’” (Gênesis 8:21-22). Deus não precisa enviar um raio sobre minha cabeça por escrever esse blog. Ele vai me matar de tanto rir. Vou trocar em miúdos. Deus matou todos os seres vivos porque o homem era mau. Sob o efeito da fumaça tóxica do churrasco de Noé, o Senhor se toca que o homem é mau mesmo e não tem jeito. E justamente por isso, nunca mais vai fazer uma carnificina dessas. Sério, alguém precisa avisar a esse cara que ele não dá uma bola dentro! Seus decretos não fazem o menor sentido! Ele precisa de um marketeiro, um conselheiro, um psiquiatra, sei lá!

E assim termina a história do dilúvio. Dela podemos tirar valiosas lições, por exemplo... ahm... deixa pra lá. Oremos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Gênesis 6

Irmãos, celebrai! Neste capítulo as coisas começam a esquentar novamente. Sente só: “Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram esposas entre elas” (Gênesis 6:1-2). Ié, bêibi! Nada como um pouquinho de paquera e azaração para puxar essa história do buraco! Deus, em conseqüência disso, solta mais um de seus decretos: "Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos" (Gênesis 6:3). É isso mesmo. Chega dessa putaria de viver até os 900 anos! Não há plano de saúde que agüente! E como o homem é todo carne (e ossos, e pelos, e tecido conjuntivo e o escambau), só irá viver até os tenros 120 aninhos de idade. Fez sentido? Nem para mim. Deus só pode estar chapado quando inventa essas regras.

E o non-sense continua. “Naquele tempo viviam gigantes na terra, como também daí por diante, quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são os heróis, tão afamados nos tempos antigos” (Gênesis 6:4). Sim, o autor interrompe o fluxo da história (que já vai meio engasgado) para escrever um versículo que diz “Ah! Havia também heróis gigantes, ok?”. Hmmm... ok, então.

De volta à nossa história, “O Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos de seu coração estavam continuamente voltados para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor” (Gênesis 6:5-6). Deus percebeu que o ser humano era ruim como carne de pescoço e se arrependeu de ter criado seus bichinhos de estimação. E sentiu dor em seu coração (sim, ele tem um!). Mimimimi. Qual o jeito mais óbvio de se aplacar uma tristeza no coração? Ir para o cinema, comprar pipoca e assistir a uma comédia romântica? Escutar um bom sertanejo agarrado com seu ursinho de pelúcia favorito? Não, meu amigo. Nada como um bom assassinato em massa para trazer um sorrisinho de volta ao rosto de Deus!

"Exterminarei da superfície da terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves dos céus, porque eu me arrependo de os haver criado" (Gênesis 6:7). Não, você não leu errado. Para resolver o problema da maldade dos homens, o Senhor resolve massacrá-los. Ele não está com saco para separar os corruptos dos honestos, crianças e bebês inocentes. “Mata tudo! E quer saber? Passa o rodo nos animais também, para aproveitar o embalo da carnificina!”.

Mas havia um camarada chamado Noé que caiu na graça do chefe. O Senhor, em vez de dar um bilhete premiado da mega-sena, deu uma barbada muito melhor para Noé: o projeto para construir um barco que, de alguma forma, iria salvá-lo do banho de sangue desenfreado que o Senhor iria causar (todo mundo já sabe que vem o dilúvio por aí, mas, em prol da história, vamos fingir que não sabemos ainda, ok?). E em apenas três versículos (Gênesis 6:14-16), Deus descarrega seus conhecimentos de engenheiro naval num manual passo-a-passo para construir uma arca de 157 metros de comprimento por 26 de largura. Tá, é grande mas não é nenhum Titanic (que tinha 269m de comprimento, por exemplo).

E então Deus revela seu plano diabólico (sim, eu sei) para ceifar a vida de quase tudo que ele mesmo criou. “Eis que vou fazer cair o dilúvio sobre a terra, uma inundação que exterminará todo ser que tenha sopro de vida debaixo do céu. Tudo que está sobre a terra morrerá. Mas farei aliança contigo: entrarás na arca com teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos” (Gênesis 6:17-18). Uau! Quanta bondade num só coração! A família de Noé também será poupada da horrenda morte por afogamento que o resto da humanidade irá sofrer! Deus é pai! E continua. “De tudo o que vive, de cada espécie de animais, farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo. De cada espécie de aves, e de cada espécie de quadrúpedes, e de cada espécie de animais que se arrastam sobre a terra, entrará um casal contigo, para que lhes possas conservar a vida” (Gênesis 6:19-20). E como se a arca já não estivesse cheia o suficiente, “tomarás também contigo de todas as coisas para comer, e armazená-las-ás para que te sirvam de alimento, a ti e aos animais" (Gênesis 6:21).

Certamente Deus não tem e menor noção de espaço. Sabe aquela piada de “como se coloca cinco elefantes num fusca”? Pois é, conte ela para o Senhor e ele vai ficar com cara de interrogação: “Ué... qual é a graça? Não entendi...”. Deus deve ter desligado antes que Noé pudesse protestar: “Mas, Senhor! Como eu vou fazer para enfiar esse monte de p...” [tu-tu-tu-tu-...] Sinal de ocupado. “Noé”, por falta de opção, “obedeceu, e fez tudo o que o Senhor lhe tinha ordenado” (Gênesis 6:22). E assim acaba o capítulo, com clima de “não perca o próximo episódio”.

Deus resolveu exterminar tudo que respira por causa da maldade do homem. Mas cá entre nós, se ele criou o homem, também não criou essa maldade inerente? Que fizesse o homem bonzinho e solidário, oras. Mas já posso imaginar um cristão entrando pela janela de voadora e gritando “Rafael, sua besta! Deus também deu o livre arbítrio para o homem!”. Bem, livre pero no mucho, né? “Faça o que quiser, mas se você não fizer exatamente o que eu quero, vou te exterminar com um dilúvio, ok?”. Mas que bela porcaria de livre arbítrio. Quero meu dinheiro de volta.

P.S.: Eu sei que cristãos não entram de voadora janela adentro. Não sempre, pelo menos. Foi só um recurso dramático.

P.P.S.: Os insignificantes detalhes logísticos de se enfiar todos os animais num barco serão tema de um interlúdio. Guardem seus comentários sobre a Arca para o post em questão. Obrigado!