quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gênesis 32-33


"Jacó recebe nu uma massagem com óleo-de-bebê"

Para quem não se lembra, o estelionatário do Jacó já passou a perna em seu irmão Esaú, o hirsuto, duas vezes num passado distante. Tamanha foi a rusga, que Esaú jurou nosso herói de morte. E agora que Jacozito estava voltando para sua terra natal, ele teria que encarar esse problema como um homem. Ou não.

Durante a viagem de volta, caminhando no escaldante deserto, mensageiros de Jacó vieram com as más notícias: “Fomos ter com Esaú: ele vem ao teu encontro com quatrocentos homens" (Gênesis 32:6). Quatrocentos homens. Talvez fosse uma boa hora para ter um pote de vaselina à mão. Não sei como Esaú se tornara tão poderoso e líder de um exército. Teria ele lançado uma bem sucedida linha de shampoos e condicionadores? Não importa. Jacó estava se cagando todo, suplicando ajuda para seu amiguinho Javé. “Salvai-me, eu vos peço, das mãos de meu irmão Esaú, pois temo que ele me venha atacar, sem poupar nem mãe nem filhos” (Gênesis 32:11). De forma astuta e covarde, nosso herói ficou acampado e mandou servos adiante com cabras, bodes, jumentos e iPods para presentear Esaú. “Eu o aplacarei com este presente que me precede; e depois o verei pessoalmente; talvez me fará ele bom acolhimento” (Gênesis 32:20). Ah safado!

A história tá legal, né? Pena que ela só vai continuar depois, porque agora a coisa descamba para mais uma das parábolas psico-absurdas da Bíblia. Entenda como quiser. Naquela mesma noite, Jacózito mandou suas quatro esposas e onze filhos seguirem viagem e ele ficou sozinho no acampamento. “Jacó ficou só; e alguém lutava com ele até o romper da aurora” (Gênesis 32:24). Pois é. Sem qualquer motivo aparente, alguém surgiu e saiu no mano a mano com Jacó. A capoeira durava até a madrugada quando este misterioso pit-boy usou um golpe sujo: tocou Jacó “na articulação da coxa e esta deslocou-se” (Gênesis 32:25). Aí, meu caro, foi nocaute. O misterioso homem estava dando área quando Jacó disse “Não te deixarei partir antes que me tenhas abençoado” (Gênesis 32:26). Quê? Jacó levou porrada e agora quer uma ‘bença’? "Qual é o teu nome?" perguntou o homem."Jacó." “Teu nome não será mais Jacó, tornou ele, mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste” (Gênesis 32:27-28). Só pode estar de sacanagem! O misterioso arruaceiro era Javé em pessoa! E, me desculpe, “venceste” o caralho. Jacó levou um golpe ninja na articulação da coxa e agora mancava que só um jumento velho. Seja como for agora ele tinha um nome artístico: Israel. “É por isso que os israelitas, ainda hoje, não comem o nervo da articulação da coxa, porque aquele homem tinha tocado nesse nervo da articulação da coxa de Jacó” (Gênesis 32:32). Que motivo idiota, né? Há quem diga que isso foi um sonho que Jac... quero dizer, Israel teve. Pra mim foi sanduíche de presunto e maionese no deserto sem uma bolsa térmica adequada.

No dia seguinte, não tinha mais pra onde fugir. Esaú e seus 400 guerreiros se aproximavam de Jacozito/Israel que covardemente “prostrou-se até a terra sete vezes antes de se aproximar do seu irmão” (Gênesis 33:3). Agora que o cu dele tá na reta, ele respeita Esaú. “Mas Esaú correu-lhe ao encontro e beijou-o; ele atirou-se ao seu pescoço e beijou-o; e puseram-se a chorar” (Gênesis 33:4). Óóó que munhitinhu!!! Esaú deixou a rusga de lado e tascou melados beijos no irmão, e depois caíram no choro. Imagino que todos em volta, esposas, servos, soldados e camelos, se entreolharam com cara de “heim?”. Jacozito chegou são e salvo à sua terra natal, Padã-Arã e “levantou aí um altar, ao qual chamou El-Deus de Israel” (Gênesis 33:20), porque Javé gosta mesmo é de ter seu saco puxado com altares.

Eu particularmente achei um final decepcionante para o impasse entre o escrotinho do Jacó e Esaú, o bruto. Talvez seja sadismo de minha parte, mas eu queria ver o circo pegar fogo. Quem sabe em capítulos vindouros a coisa fica mais emocionante.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Temporariamente fora de serviço-tu-tu-tu-tu-tu-tu...



Irmãos! Cá estou com uma chibata de couro me auto-flagelando na costas (sem qualquer conotação sexual), pois eu pequei! Eu pequei! O blog anda abandonado e assim ficará pelas próximas duas semanas. Javé me puniu com mais trabalho do que eu posso dar conta. Por isso peço paciência e fé! Oremos!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Interlúdio especial de aniversário: O poder da onisciência



Essa semana este blog profano fez um ano de existência. E, a não ser que eu seja fulminado por uma chuva de fogo e enxofre antes, espero que faça muito mais. A Bíblia Sagrada parece ser uma fonte quase infinda de material para se avacalhar.

Mas será que, além da avacalhação, a Bíblia Twist serviu como uma fonte de luz para o internauta aflito? Um repositório da sabedoria bíblica? Um vade mecum profano?

Se tem algo que se aproxima da onisciência, este é o Google Analytics. Entre vários outros recursos, ele me permite saber que palavras inseridas no Google levaram alguém a este blog de belzebu. E o melhor, ele diz se a pessoa que fez aquela busca ficou ou não no site. Ou seja, se o filho de Deus encontrou aqui a resposta que buscava. A maioria das pessoas que são guiadas pela mão do Google até aqui são fregueses que buscam por “Bíblia com Limão e Gelo”, “Bíblia Twist” e coisas do gênero. Um bom número de pessoas buscam por nomes bíblicos, como “Abraão” e “Noé”. Como eu queria ver a cara de um fiel que busca por sites bíblicos e acaba aqui (sim, eu sou sádico)!

Mas algumas buscas que acabaram no Bíblia Twist merecem destaque. Vejam exemplos do que as pessoas digitaram no Google e foram abençoadas com este mui informativo blog na lista de resultados. Eu sei que é duro de acreditar, mas os exemplos são reais. Alguns encontraram a resposta que buscavam aqui e ficaram embasbacadas com a glória que emana destes ensinamentos. Outras, Deus me perdoe, não.

Primeiro, clientes satisfeitos que perguntaram ao Google, chegaram aqui e ficaram:

- Um internauta digitou “Meu irmão é tão peludo” e aqui encontrou o fim de suas angústias! Glória! Teria ele se identificado com Jacó, que também possui um irmão deveras peludo?

- Outro perguntou “como transei nas doze tribos” e também foi iluminado por este fabuloso blog! Talvez esta pessoa tenha transado com doze tribos diferentes numa festa de arromba, mas não lembrava como, tamanho era o porre. Fico feliz que aqui ele encontrou as peças que faltavam no seu quebra-cabeça sexual!

- “Fotos de Esaú e Jacó” buscava um filho de Deus. Pois é. Fotos. Seja como for, ele gostou do blog e ficou! Regozijai!

Mas nem tudo são flores. Alguns não acharam aqui os segredos e mistérios que buscavam, e não ficaram mais que alguns segundos no site.

- Alguém digitou “meu bigode é cheio como faço pra afinar?” e acabou aqui. De fato este blog ainda não contém dicas para o asseio e ajuste de indumentária facial. Ainda.

- Outro questionou “o que é que entra dentro do cu de isaque mais nao sai” (Sic). Sem dúvida uma bela de uma charada. Alguém se arrisca?

- Alguém estava buscando por clássicos homoeróticos quando digitou “velhos do saco peludos transando”. O saco peludo de Noé não foi suficiente para saciar o ímpeto sexual deste indivíduo. Compreensível.

- Meu favorito. Alguém digitou “duenças sexualmente transmiçiveis pelas jumentas[os]” (Sic). Esta pessoa também esteve numa festa das boas, mas provavelmente foi tomado por uma justificável preocupação na manhã seguinte. Apesar de não poder ter ajudado, desejo toda sorte em sua busca por uma genitália mais saudável. E recomendo um dicionário também.

Enfim, espero aumentar o número de tópicos tratados aqui. Isso sem falar no caldeirão de sabedoria que são os comentários de cada post. Figuras ilustres como Frei Beto, Perito Dias, Irmã Alerrandra, Emílio e muitos outros transpiram conhecimento. Glória! E vamos em frente!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gênesis 30 (parte 2) - 31


Labão, o arameu, e seus irmãos cruzam o deserto em busca de Jacó.

Jacozinho há muito vivia de parasita na casa do duplo-sogro e tio Labão. E como se não bastasse ter abocanhado duas filhas e duas escravas, resolveu que ia se apossar de uma parte do rebanho de ovelhas que ele ajudou a criar. Para isso, Jacó sugeriu que ele ficasse com os animais malhados e deixasse os brancos para Labão. "Está bem, seja como dizes" (Gênesis 30:34), disse tio Labs. O que ele não sabia era que seu genro/sobrinho queria lhe sacanear, passar a perna, apunhalar pela costas. 171 mesmo. Digno de um descendente direto de Abraão. Jacó, orientado pelos anjos de Javé, selecionou repetidamente cabras fortes e saudáveis para cruzar com fêmeas malhadas, e cabras raquíticas e mal nutridas para cruzar com fêmeas brancas. Dessa forma, ele deixou Labão com um rebanho de bosta.

O que é mais irônico é que, o que Jacó fez, se chama seleção artificial. Se ele tivesse pensado sobre o assunto mais um pouquinho, ele poderia ter formulado A Teoria da Evolução! Quantos problemas isso teria evitado! Hoje não teríamos psicóticos fundamentalistas falando de criacionismo e nem psicóticos fundamentalistas disfarçados de cientistas falando de design inteligente! E Darwin poderia ter dedicado sua vida exclusivamente para colecionar besouros, que é o que ele gostava. Droga.

Mas estou divagando. A verdade é que a situação na casa de Labão se tornara insuportável. Ele estava puto com Jacó por ter fodido com o rebanho dele. Suas filhas Raquel e Lia também estavam desgostosas com o pai. “Não nos tratou ele como estrangeiras, vendendo-nos e devorando o nosso dinheiro?” (Gênesis 31:15). (estrangeiras que Jacó aceitou de bom grado, aliás). Imaginem o silêncio constrangedor na mesa do jantar. Labão, Jacó, Raquel, Lia, Bala, Zelfa e 13 filhos. O som de talheres e mastigação interrompido por um ocasional, seco e sarcasticamente polido “passe o sal”. Que clima! De saco cheio, Jacó, suas mulheres e sua prole resolveram fugir na calada da noite, escondidos de Labão, rumo a Canaã. Raquel, na hora da fuga ainda surrupiou os terafim de seu pai (sim, eu também tive que procurar no Google o que são terafim. São, pasmem, bonequinhos de divindades. Algo tão ridículo quanto imagens de santos. Mas que também serviam de vale-herança naqueles tempos. Capisce?).

Três dias depois, soube Labão da fuga de Jacó” (Gênesis 31:22). O velho era astuto como uma raposa! Só três dias! Pois tio Labs e seus irmãos montaram em suas motocicletas e saíram em disparada pelo deserto, seguindo o rastro do traiçoeiro Jacó. “Deus, porém, apareceu num sonho noturno a Labão, o arameu, e disse-lhe: ’Guarda-te de dizer algo a Jacó’”(Gênesis 31:24). Em outras palavras, “mesmo ele tendo te sacaneado, deixa pra lá porque ele é meu queridinho”. Foda, viu?

Nas montanhas de Galaad, Labão alcançou o cabra-safado do Jacó. “Que fizeste? Tu me enganaste, e conduziste minhas filhas como prisioneiras de guerra! Por que fugiste dessa forma, e me lograste em lugar de me avisar? Eu te teria despedido com manifestações de júbilo e com cânticos, ao som do tamborim e da harpa” (Gênesis 31:26-27). O imbecil do Jacó perdeu uma festa com tamborim e harpa! Mas o que Labão estava puto mesmo era com o sumiço dos seus bonequinhos. “Por que roubaste os meus deuses?" (Gênesis 31:30). E, então, pôs-se a revistar as tendas do bando de Jacó. Chegou à tenda de Raquel que, num ato de desespero (e talvez de necessidade), sentou em cima dos roliços terafim. E ainda disse "Não se irrite o meu senhor, se não posso levantar-me em sua presença, pois acho-me agora com a indisposição que costuma vir às mulheres" (Gênesis 31:35). Não é um jeito ótimo de se dizer menstruação? A-indisposição-que-costuma-vir-às-mulheres. E nem ouse levantar-se na presença de seu pai, ok?

Mas, voltando à nossa história, Labão estava puto e, agora, Jacó também estava puto por estar sendo acusado de ladrão de bonequinhos. Como eles poderiam resolver esse impasse? Simples, meu ávido leitor: Eles ergueram um monumento de pedra em homenagem àquele que adora ser homenageado: Javé! E voilá, estava resolvido. Jacó “ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer” (Gênesis 31:54). Uma pilha de pedras e um churrasco. Que jeito mais idiota de se acabar uma história que já estava ruim.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Interlúdio: Stephen Hawking, Deus e um chimpanzé de fraldas.


O cúmplice de pedofilia e ex-membro da Juventude Hitlerista Bentinho 16 se aproveita da incapacidade de reação de Stephen Hawking


Há algumas semanas, soterrado embaixo de manchetes como “Mulher Kiwi exibe marquinha de biquíni em Ipanema”, estava uma notícia sobre o físico Stephen Hawking. Ao que tudo indica, no seu novissíssimo livro The Grand Design, Hawking afirma que não é necessária a intervenção do Bom Senhor Javé para o início do Universo. Tamanha foi a balbúrdia, que isso se tornou trending topic no twitter por algum tempo, se é que isso significa alguma coisa para você. Veja porque essa comoção foi uma tremenda de uma bobagem.

- Para ateus, a notícia foi tão quente quanto “A grama é verde”.

- A notícia é sobre a afirmação do Hawking, e não sobre o conteúdo do livro, que ainda não saiu. Isso é atribuir autoridade ao nome da pessoa, e não aos argumentos dela. E isso, meu caro, é uma grande de uma babaquice. Se amanhã o Hawking disser que é bom enfiar a cabeça na privada e dar descarga, sinto muito, mas eu não vou fazer isso. Religiosos adoram encaminhar powerpoints dizendo que o Einstein acreditava em Deus. O que é mentira, aliás. E mesmo que fosse verdade, f-f-f-foda-se! Que argumento idiota é esse? “Viu, viu, viu? Uma pessoa muito inteligente acredita na mesma coisa que eu! Por isso essa coisa é verdade e eu sou inteligente também!”. Sério, foda-se. Eu chego às minhas conclusões com o que parecem bons argumentos para mim, e não porque Einstein, Hawking ou Dawkins disse.

- O fato de isso virar notícia mostra como está tudo virado de cabeça pra baixo. O saudoso Carl Sagan disse que “afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”. Se um grupo de pessoas (não importa o quão grande é esse grupo) afirma que um ser fantasticamente complexo e poderoso criou um universo, cabe a essas pessoas mostrarem evidência de que isso é verdade, e não ao Hawking mostrar evidência de que isso é mentira! Eu tenho evidências de que o universo não foi criado por um chimpanzé de fraldas. Alguém quer fazer uma reportagem sobre isso?

O que merece virar notícia é se um dia aparecer alguma evidência de que existe de que algo semelhante a deus, ou a qualquer outra mitologia. Mas eu estou falando de evidência de verdade, descoberta com rigor científico, e não fabricada por um charlatão. E isso, vai por mim, ainda não aconteceu.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Gênesis 30 (parte 1)



Raquel, a esposa #1 de Jacó, estava puta da vida por ser estéril, enquanto Lia, esposa #2 e irmã mais velha, já tinha parido mais do que uma coelha. De mão na cintura e batendo o pézinho, bradou para Jacó: “Dá-me filhos, senão morro!” (Gênesis 30:1). Jacó, como um verdadeiro cavalheiro, respondeu: “Acaso posso eu pôr-me no lugar de Deus que te recusou a fecundidade?” (Gênesis 30:2). Jacó sabia que O Bom Senhor tinha murchado os ovários dela. Na Bíblia, mulher boa cala a boca e pare filhos, e #1 não estava fazendo nada disso. Mas ela mesma tinha a solução. “Eis minha serva Bala: toma-a. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos e assim, por ela, terei também filhos.” (Gênesis 30:3). A escrava Bala, a doce, agora seria promovida a #3 para gerar rebentos. Soa familiar ? Eu só não consigo visualizar como #3 dará à luz sobre os joelhos de #1 e como isso vai fazer com que o filho seja de #1. Pra mim, só vai dificultar o serviço do obstetra. Mas enfim, foi com esse esquema pornô-escravagista que nasceram Dã (dizem que ele aprendeu a falar o próprio nome com apenas 2 semanas de vida!) e Neftali.

Enquanto isso, observando tudo de cima, O Bom Senhor estava entediado. E, da mesma forma que uma criança mimada cutuca seus hamsters, Javé desativou os ovários de Lia, a #2. Ela já sabia o protocolo e, sem pestanejar, entregou sua escrava Zelfa para Jacó bimbar. Essa é a #4, caso você também esteja contando. E assim nasceram Gad e Aser. Javé bocejou de novo e shazam!, reativou a oogênese de #2, que pariu Issacar, Dina e, a cereja no bolo de nomes horríveis, Zabulon.

Acha que acabou? “Lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e tornou-a fecunda.” (Gênesis 30:17). Mas como assim “lembrou-se”? O fidiputa não é onisciente? E todo o sofrimento de #1 foi porque Javé tinha esquecido dela? Ele perdeu a ficha dela na bagunça da escrivaninha? Sério, pelas barbas de Abraão, viu! Enfim, finalmente fecunda, #1 embuchou e pariu. E como não tinha tanto apreço por nomes estrambólicos, chamou seu rebento de José.

Trocando em miúdos, foram quatro parideiras, um exército de filhos e o Bom Senhor embaralhando as cartas ligando e desligando ovários. Como se já não estivesse claro o suficiente, essa parábola reforça o papel da mulher na Santíssima Bíblia Sagrada: uma parideira cujo valor é medido por quantos filhos ela consegue gerar. Some isso as já familiares poligamia e escravidão e você tem um livro que não só é confuso e repetitivo, mas que insiste em dar os mesmos maus exemplos. Eu não sei você, mas eu estou com dor de cabeça de acompanhar essa história. Por isso dividirei esse capítulo em dois, visto que a segunda parte tem pouca conexão com as peripécias poligâmicas de Jacózinho. Glória!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Gênesis 29


"Europeus branquinhos que não tem nada a ver com nossa fábula do Oriente Médio" - William Dyce, óleo sobre tela.

Erguei as mãos e dai glória a Deus! Se você chegou agora à Bíblia Cítrica, não tema infiel! Tamanha é a minha misericórdia, que recapitularei o que você precisa saber para pegar o camelo andando. Jacó é o herói do momento. Descendente de Abraão e figurão do povo escolhido pelo Senhor, ele saiu numa jornada pelo deserto, rumo à casa de seu tio Labão. Lá, ele pretende escolher uma prima para desposar, no intuito de não se misturar e afinar o sangue com a gentalha que não foi escolhida por Javé. Gentalha, gentalha, gentalha. Tá comigo? Então vamos em frente.

Nos arredores de Harã, cidade onde vivia o tio Labs, havia um poço para ovelhas beberem água. E, tampando esse poço, uma puta de uma pedra pesada pra caralho. Quantos pastores já não rasgaram um pum ao tentar erguê-la sob o sol escaldante de meu Deus! "Conheceis porventura Labão, filho de Nacor?" (Gênesis 29:5), disse o forasteiro Jacó, tentando puxar um papo com os locais. “Sim”, respondeu um pastor sorrindo com seus quatro valiosos dentes, “e eis justamente sua filha Raquel que vem com o rebanho.” (Gênesis 29:6). Putaqueopariu! Que sorte! Jacó viu a oportunidade perfeita para impressionar sua prima: Erguer a tampa do poço com seus braços fortes, viris e abençoados por Javé! Entretanto, por algum motivo, a coisa descamba. Veja. “Logo que Jacó viu Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, aproximou-se, rolou a pedra de cima da boca do poço e deu de beber às ovelhas de Labão”. Boa Jacózinho! Tá indo bem! “Depois beijou Raquel e pôs-se a chorar.” (Gênesis 29:10-11). Má-como?!? Que porra é essa de lascar um beijo assim sem pedir licença? E depois cai no choro? Comestes cocô, Jacó? Talvez, mas funcionou.

Depois desse papelão, Raquel levou Jacó para sua casa eles contaram tudo para o tio Labão. "Sim, tu és de meus ossos e de minha carne.” (Genesis 29:14), disse o velho numa brilhante constatação. De olho na prata da casa, Jacózinho foi ficando de hóspede e ajudando na labuta diária. Passado um mês, tio Labs, temendo ser pego por leis trabalhistas, disse: "Acaso, porque és meu parente, servir-me-ás (percebam o certeiro uso da mesóclise) de graça? Dize-me que salário queres." (Gênesis 29:15). Jacó não queria salário, vale refeição nem o dinheiro do busão. Jacó queria Raquel! “Eu te servirei sete anos por Raquel tua filha mais nova." (Gênesis 29:18). Labão refletiu por um minuto, coçando sua enorme laba, e topou o negócio. “Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha.” (Genesis 29:20). Lindo, né? Mas o romantismo acaba por aí. A pornochanchada bíblica que tanto gostamos começa agora.

Após sete anos na punheta, finalmente chegou o grande dia em que Jacó iria se casar com Raquel, e titio Labão convidou a cidade inteira para um grande banquete, com três ambientes (eletrônica, pop-rock e flashback), sushi bar e manobrista. Mas Labão tinha um plano secreto para pôr em prática: Acabado o bacubufo do caterefofo, ele iria conduzir sua filha Raquel à suíte de Jacó mas, ao invés disso, conduziu a irmã mais velha de Raquel, Lia! E, talvez por uma soma do quarto escuro com o porre da festa, Jacó traçou Lia! Carái véi! Pela manhã, Jacó acordou de ressaca e percebeu que havia acertado a bola na caçapa errada. "Que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Por que me enganaste?", bradou para Labão, que respondeu: “Aqui não é costume casar a mais nova antes da mais velha. Acaba a semana com esta, e depois te darei também sua irmã, na condição que me sirvas ainda sete anos." (Gênesis 29:25-27). Jacó topou na hora. E de quebra, Labão ainda deu uma escrava chamada Zelfa como brinde por ele ter traçado Lia. Como aquelas promoções que, comprando um xampú, vem um condicionador de graça. E uma semana depois, Jacó finalmente desposou sua amada Raquel e, como a promoção ainda estava valendo, levou a escrava Bala de brinde (dizem que ela era um doce!).

E adivinha quem entra em cena para cagar em cima do que já estava fedendo? Ele! Javé! Não sei você, mas eu estava com saudades dos caprichos do Senhor. Ele viu que Jacó gostava mesmo de Raquel e só usava Lia como uma boneca inflável, e não gostou nada disso. Então ele estendeu sua poderosa mão em direção a Lia e shazam! “tornou-a fecunda enquanto Raquel permanecia estéril” (Gênesis 29:31). O Senhor, em sua glória e onipotência, gosta de intervir na vida mundana ligando e desligando os ovários das mulheres. É difícil de levar a sério um personagem desses. Jacó, apesar de amar mesmo Raquel, não acanhou-se de passar repetidamente a vara em Lia, que pariu os rebentos Rubem, Simeão, Levi (o inventor da calça jeans) e Judá.

O capítulo acaba aqui, mas o show de horrores na família poligâmica de Jacó não. Você não perde por esperar!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Interlúdio: Ateísmo e moral (e porque José Luiz Datena é um completo imbecil)



O apresentador José Luiz Datena acha que jornalismo é colocar sua cabeça inchada e sem-pescoço na TV e buzinar asneiras com sua voz de vendedor de pamonha. E não é só nisso que ele está enganado. Recentemente, provando que é possível defecar pela boca, Datena afirmou que ateus são "pessoas do mal", "bandidos", "estupradores", "assassinos". O colunista Hélio Schwartsman mostra, com uma elegância que você nunca vai encontrar aqui, como e porque Datena está errado e é um imbecil. Mas nós do Bíblia Twist estamos no ramo de chutar cachorro morto, e vamos cutucar ainda mais a questão aqui.

Datena não é o único que acha que a religião é a fonte de nossa moral. Muitos questionam como ateus discernem o certo do errado, o aceitável da atrocidade. Eu sou ateu e, enquanto escrevo esse post, eu não estou petiscando jujubas do meu porta-jujubas feito de um crânio de bebê cortado ao meio. Mas como, como ó Senhor, eu sei que não é certo matar um bebê para fazer um fino baleiro? Para a nossa sorte, nosso senso de certo e errado não vem da religião. Se viesse, nós ocidentais que adoramos a Bíblia Sagrada, estaríamos apedrejando um adúltero até a morte, matando alguém por trabalhar no sábado e tratando as mulheres como bons camelos. No vídeo abaixo (infelizmente, sem legenda), o ateu, assassino e estuprador Richard Dawkins resume o assunto de forma rápida e indolor.



Pessoas que compartilham as idéias do Datena adoram citar os assassinos em massa Hitler e Stalin como notórios ateus. Seguindo esta linha de raciocínio (se é que dá pra chamar de linha. “Nó” de raciocínio, talvez?), ambos usavam bigode. E é óbvio que usar bigode faz de você um tirano genocida. Isso sem falar nas atrocidades cometidas pelos outros nazistas cristãos. A fivela do cinto do uniforme nazista trazia a inscrição “Gott mit uns”, que significa “Deus está conosco”, aliás. E cá pra nós, se fôssemos contar quantas pessoas ateus e religiosos já mataram, a competição seria injusta. A Santa Inquisição Espanhola sozinha já ia definir o placar. Mas não é essa a questão. Em qualquer grande grupo de pessoas, ateus, católicos, ruivos, torcedores do Democrata de Governador Valadares, etc., você vai encontrar indivíduos bons, íntegros e honestos, e indivíduos assassinos, ladrões e estupradores. Afirmar o contrário chama-se preconceito, e é isso que o pulha do Datena fez. E o pior, esse saco de merda ambulante tem um programa só pra ele! Não é ótimo?

P.S.: O assunto foi trazido à tona pela Madre Superiora Alerrandra, assídua frequentadora e contribuidora deste blog do cão.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gênesis 28


"Quadro de motel" de William Blake. Óleo sobre tela.

Alguns capítulos da santíssima Bíblia Sagrada são longos e não signficam nada. Outros são curtos e significam menos ainda, e assim é Gênesis 28. Olha como já começa. “Isaac chamou Jacó e o abençoou” (Gênesis 28:1). Sério, já queimaram na largada dessa vez. Isaac esqueceu de tudo que aconteceu no capítulo passado?!? Toda aquela novela mexicana de quarenta e seis versículos, dois pratos de filé mignon e um homem vestido de cabrito, pra conseguir uma benção. E agora, simples assim, ele chama Jacó e o abençoa?!? Só pode estar de sacanagem. Mas vamos em frente. Isaac ordena: “Não desposarás uma filha de Canaã”, porque o povo escolhido não pode se misturar com a gentalha que Deus não escolheu. “Mas vai a Padã-Arã, à casa de Batuel, pai de tua mãe, e escolhe lá uma mulher entre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus todo-poderoso te abençoe, te faça crescer e multiplicar, de sorte que te tornes uma multidão de povos” (Gênesis 28:1-3). Ou seja, Jacó, se case com uma prima e se reproduza como um fungo que vai dar tudo certo. Esaú, o irmão peludinho de Jacó, querendo agradar seu pai “foi à casa de Ismael e tomou por mulher, além daquelas que já tinha, a Maelet, filha de Ismael, filho de Abraão, irmã de Nabaiot.” (Gênesis 28:9). Por que não adicionar uma prima a sua coleção de mulheres?

Agora, herege leitor, vem o filé deste capítulo. Tremei. Jacó partiu rumo a Padã-Arã e, após caminhar um dia inteiro com o Sol fritando-lhe os cornos, resolveu parar no meio do deserto para passar a noite. “Serviu-se como travesseiro de uma das pedras que ali se encontravam, e dormiu naquele mesmo lugar.” (Gênesis 28:11). Jacó já sabia o conforto que um bom travesseiro ortopédico proporciona. Tanto conforto que ele sonhou com “uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada.” (Gênesis 28:12). E quem estava no topo desta escada? Quem? Quem? Ele! O bom Senhor! E ele, em sua voz trovejante e reverberante, falou a Jacózinho e prometeu toda aquela baboseira de multiplicar a posteridade como os grãos de areia. É só isso que esse imbecil sabe prometer. Se ele tivesse prometido camisinhas, talvez hoje estivéssemos melhor.

Enfim, “Jacó, despertando de seu sono, exclamou: ‘Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!’ E, cheio de pavor, ajuntou: ‘Quão terrível é este lugar! É nada menos que a casa de Deus; é aqui, a porta do céu.’” (Gênesis 28:16-17). Cheio de pavor! Terrível! Que impressão amigável que o Bom Senhor passa, não? Mas calma, Jacó! Será que não foi só um sonho? Se eu tivesse passado o dia no deserto e depois usasse uma pedra como travesseiro, eu também teria sonhos parecidos (mais provavelmente um elevador para as profundezas do inferno do que uma escada para o céu, mas enfim). Mas não, Jacó estava convencido de que aquele fora um genuíno vídeo educacional do Senhor. Ali era de fato a porta do céu (só pra mim que isso soa ridículo?). Tanto que ele fez um monumento de seu rijo travesseiro de pedra. “Tomou Jacó a pedra sobre a qual repousara a cabeça e a erigiu em estela, derramando óleo sobre ela.” (Gênesis 28:18). Eu, particularmente, não consigo derramar óleo sobre alguma coisa e não pensar em sacanagem. Mas esse sou eu, pervertido.

Jacó então bradou: "Se Deus for comigo, se ele me guardar durante esta viagem que empreendi, e me der pão para comer e roupa para vestir, e me fizer voltar em paz casa paterna, então o Senhor será o meu Deus. Esta pedra da qual fiz uma estela será uma casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo o que me derdes." (Gênesis 28:20-22). Aaahhh, agora tudo faz sentido! O dízimo! Javé vai te dar pão, roupa, uma viagem tranqüila e mais descendentes do que grãos de areia, e tudo que ele quer é seu dinheiro! Ora, mas esse é um negócio da china!

Será coincidência que, o capítulo que coloca Deus como ‘terrível’ e digno de ‘pavor’, é também o que sugere que você dê a Ele 10% de suas finanças? Ah, e caso você não encontre Javé pessoalmente, pode entregar o cheque para o padre/pastor que ele entrega depois.

sábado, 19 de junho de 2010

Gênesis 27

"Ah safado!" de Govert Flinck. Óleo sobre tela.

Isaac estava mais velho que andar pra frente e cego como uma toupeira. Enjoado de escutar seu radinho AM, resolveu pentelhar a vida de Esaú, seu filho favorito. “Tu vês, estou velho e não sei quando vou morrer”, disse o velho gagá. Quando alguém começa a conversa com uma chantagem emocional, é porque vai pedir coisa. Veja. “Toma as tuas armas, tua aljava e teu arco, vai ao campo e mata-me uma caça. Prepara-me depois um prato suculento, como sabes que gosto, e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra." (Gênesis 27:2-4). É na base do toma lá - dá cá. O velho dá a benção se Esaú encher a barriguinha enrugada dele.

Rebeca, esposa de Isaac, devia estar cansada de enxugar baba e brincar de “pra-que-lado-cai?” com a benga do velho. Por isso resolveu sacaneá-lo e, de quebra, ajudar Jacó, irmão de Esaú e queridinho da mamãe. Ela escutou por detrás da porta quando Isaac alugou Esaú, e foi logo correndo para Jacó: “Ouve-me, pois, meu filho, e faze o que te vou dizer. Vai ao rebanho e traze-me dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato suculento para o teu pai, como ele gosta, tu lho levarás e ele comerá, a fim de que te abençoe antes de morrer." (Gênesis 27:8-10). A víbora quer que Jacó se passe por Esaú para roubar essa tão cobiçada benção. Se fosse por mim, Isaac podia enfiar essa benção no rabo. Enfim. Mas Jacó, que se depila toda quinta com cera marroquina, questiona: “Mas Esaú, meu irmão, é peludo, enquanto eu sou de pele lisa. Se meu pai me tocar, passarei aos seus olhos por um embusteiro e atrairei sobre mim uma maldição em lugar de bênção." (Gênesis 27:11-12). Jacozinho fica relutante não por princípios, mas por medo do tiro sair pela culatra. É filho da mãe mesmo! Mas Rebeca não bate prego sem estopa, e já tinha pensado nesse problema da hipertricose de Esaú.

Em seu plano maquiavélico, Rebeca preparou o prato com os cabritos, “escolheu as mais belas vestes de Esaú, seu filho primogênito, que tinha em casa, e revestiu com elas Jacó, seu filho mais novo. Cobriu depois suas mãos, assim como a parte lisa do pescoço, com a pele dos cabritos” (Gênesis 27:15-16). Ó-quêi-pó-pará! Esse é o plano genial de Rebeca? Cobrir a pele de Jacó com pele de cabritos para ele ficar peludo como Esaú? Sério, ou Esaú é tão, mas tão peludo que faz o Tony Ramos parecer uma rã; ou esse plano vai dar muito errado; ou, ainda, Isaac está mais gagá do que a gente imagina. E assim foi Jacó, fantasiado de cabrito fantasiado de Esaú, levar o prato para Isaac. Que papelão.

Jacó entrou no quarto e acordou o velho. "Meu pai!" "Eis-me aqui!”, balbuciou Isaac. “Quem és, meu filho?". Jacó, na cara dura respondeu: “Eu souCOF! [engrossa a voz] Eu sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me pediste. Levanta-te, assenta-te e come de minha caça, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:18-19). E o Oscar vai para… “Como encontraste caça tão depressa, meu filho?", perguntou Isaac, desconfiando que havia algo de podre no ar. "É que o Senhor, teu Deus, fez que ela se apresentasse diante de mim." Sei, sei! O velho parece não estar completamente convencido: "Aproxima-te, então, meu filho, para que eu te apalpe e veja se, de fato, és o meu filho Esaú." (Gênesis 27:20-21). Heim?!? “Para que eu te apalpe”?!? Ica! Deus me livre! Mas enfim, agora a gente vai ver se os efeitos especiais de Rebeca funcionam mesmo. Isaac ‘apalpou’ Jacó e sentiu pelos dignos de um cabrito (porque eram mesmo) em suas mãos. “A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú." (Gênesis 27:22). Então, concluiu o velho gagá, é Esaú. O curioso é que Deus, que faz os ovários de uma mulher estéril funcionar, não devolve a visão a Isaac. Nem manda um anjo para dar um tapa na nuca de Isaac e dizer “acorda, velho idiota!” Não. Ele não faz nada. Talvez porque ele não dê a mínima e já esteja de saco cheio dessa história, como eu e você.

Mas enfim, Isaac finamente resolve dar essa tal de benção para o falso Esaú. “Aproxima-te, meu filho, e beija-me." E sentindo sovaqueira emanando das roupas de Esaú que Jacó vestia disse: “Sim. O odor de meu filho é como o odor de um campo que o Senhor abençoou.” Tamanho era o fedor das vestes de Esaú que Isaac não percebeu o cheiro de laquê e pó-de-arroz de Jacó. “Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, uma abundância de trigo e de vinho! Sirvam-te os povos e prostrem-se as nações diante de ti! Sê o senhor dos teus irmãos, e curvem-se diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar!" (Gênesis 27:26-29). Linda benção, né? “Que você seja rico e poderoso e quem for contra você que tome no cu”. Bem no espírito bíblico.

Pois tão logo Jacó tinha picado a mula, chegou o coitado do Esaú, peludo e vermelho, trazendo o prato que lhe foi encomendado. “Levanta-te, meu pai, e come da caça do teu filho, a fim de que tua alma me abençoe." (Gênesis 27:31). “Mas será o caralho?” pensou o velho Isaac, “fiquei gagá de vez? Eu não acabei de abençoar esse f...”. E então, a ficha caiu. Isaac foi ludibriado e por isso ficou puto. “Quem é, pois, aquele fidiputa que foi à caça e me trouxe o prato que eu comi antes que tu voltasses? Eu o abençoei, e ele será bendito." (Gênesis 27:33). Esaú soltou um grito cheio de amargura, mais ou menos assim: “Mmmmmmuuuuuhhuuuuéééééénnnhhéééé… é…” e disse: “Abençoa-me também a mim, meu pai!" "Teu irmão, respondeu-lhe Isaac, veio, fraudulentamente, tomar a tua bênção." (Gênesis 27:34-35). Esaú já estava farto de Jacózinho puxando seu tapete! Porra! Assim não dá! "Será porque ele se chama Jacó que me suplantou já duas vezes? (hã?) Tirou-me meu direito de primogenitura, e eis que agora me rouba minha bênção! Não reservaste, porventura, uma bênção também para mim?" (Gênesis 27:36). E Esaú pôs-se a chorar. Mimimimi.

Isaac poderia dizer “Deus te abençoe, meu fi” e resolver o problema. Pronto, todo mundo iria pra casa feliz. Mas não, ao invés disso ele resolve fazer uma profecia. "Eis que a tua habitação será desprovida da gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás de tua espada, servindo o teu irmão, mas, se te libertares, quebrarás o seu jugo de cima do teu pescoço." (Gênesis 27:39-40). Traduzindo, “o seu irmão mentiroso quis roubar sua benção. Eu sou gagá e idiota e deixei. Agora você vai se foder como escravo dele, a não ser que você mate ele, ok?”. E no cu, não vai nada? Esaú, amassando furiosamente uma latinha de cerveja, disse “Virão os dias do luto de meu pai, e matarei meu irmão Jacó." (Gênesis 27:41). Tenso. Rebeca, para proteger seu neném Jacó, manda-o para tirar umas férias na casa o tio Labão (aquele da laba grande), até que Esaú esqueça da mágoa. E do jeito que Esaú é abestalhado, é capaz que esqueça mesmo. E, ufa, acabou.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Interlúdio: 1922-2010.



“A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana” - José Saramago (1922-2010).

terça-feira, 11 de maio de 2010

Gênesis 26


"Isaac e Rebeca brincando de pau-de-sebo" - 1518-1519, afresco de Raffaello Sanzio.

Senhor Javé! Rogo para que me ilumine! Como, ó, como, Senhor Meu Deus? Como o maior best-seller da história pode ser tão ruim? Me acompanhe, herege leitor.

Recordemos Gênesis 12: Abraão muda-se para o Egito. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. O Faraó fode Sara e Deus fode o Faraó.

Não precisamos retroceder muito para recordar Gênesis 20: Abraão muda-se para as terras do Rei Abimalec. Abraão, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Sara é sua irmã. Abimalec quase fode Sara e Deus quase fode Abimalec.

Em Gênesis 26, uma fome se abate sobre a região e Isaac muda-se, com sua esposa Rebeca, para o reino do mesmo Abimalec. Agora, quem adivinhar o que acontece, vai concorrer a um brinde exclusivo do Bíblia com Limão e Gelo: um consolo de borracha anti-alérgica com a inscrição “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” em alto relevo! Adivinhou? Parabéns, leitor! É exatamente isso! Isaac, para salvar o próprio cu, diz que sua esposa Rebeca é, pasmem, sua irmã.

Abimalec, que apesar de já ter caído no golpe antes, se surpreende ao flagrar Rebeca brincando de pega-vareta com Isaac e diz: “É evidente que é tua mulher! E como dizias tu que era tua irmã?". Isaac, ainda abotoando seu jeans, responde “Porque eu temia que me matassem por causa dela.". Abimalec, emputecido, brada: "Que nos fizeste? Um pouco mais e alguém do povo teria abusado de tua mulher, e terias atraído o pecado sobre nós!" (Gênesis 26:9-10). Se fosse irmã, não seria abuso e nem pecado, segundo a lógica bíblica. “Então Abimelec mandou publicar (no twitter?) diante de todo o povo que seria morto quem quer que tocasse naquele homem ou em sua mulher.” (Gênesis 26:11). Foi só no meu saco que essa história já deu? Obrigado.

O que se passa depois é uma bocejante disputa entre Isaac e o filisteus por poços de água, mas vou poupá-lo deste sofrimento. Se você, leitor com conhecimento bíblico, sabe de alguma importância histórico-cultural dessa pentelhação, nos ilumine na caixa de comentários. Porque, pra mim, parece só algo tão vago que um padre/pastor pode usar como metáfora para o que for mais conveniente.

Pra finalizar, Esaú “tomou por mulheres Judite, filha de Beeri, o hiteu, e Basemat, filha de Elon, o hiteu.” (Gênesis 26:34). Não me surpreende que um homem vermelho e peludo tenha duas esposas. Não explica bem porque, mas “elas foram um motivo de desgosto para Isaac e Rebeca.” (Gênesis 26:35). Seria porque elas são filhas de hiteus e não pertencem ao povo escolhido descendente de Abraão? Quem quer ser xenofóbico e preconceituoso encontra respaldo na nossa Bíblia Sagrada. Vou lá ajoelhar no milho que dói menos.

domingo, 25 de abril de 2010

Interlúdio: Pedofilia na Igreja Católica


O papa Bentinho Décimosexto com o dedo no mel - Associated Press

Muito antes dos recentes escândalos de pedofilia na Igreja, meu sábio avô já dizia que é bom passar longe de traseira de burro e dianteira de padre. E, cá pra nós, padres bolinando coroinhas não são novidade pra ninguém. Mas, nós do BCLG, não podemos deixar isso passar em branco e fazemos as seguintes reflexões:

- A maioria dos padres (dando o benefício da dúvida) não deve furunfar com crianças, mas a simples existência de padres que o fazem nos diz um pouco sobre moral e religião. Há quem tenha a cara de pau de dizer que a religião é a fundação para nossa moral e bons costumes (leia-se “medo de ir para o inferno”). Padres vivem imersos no mundo mágico da religião 24 horas por dia. Ora, não seriam os padres os últimos a cometerem uma atrocidade dessas?

- A igreja, em especial a católica, adora dizer o que sua paróquia deve fazer com a genitália: não pode transar antes do casamento, não pode transar fora do casamento, não pode transar de camisinha, não pode transar com um amiguinho/a do mesmo sexo, não pode fazer suruba, não pode, não pode, não pode. Que tal a igreja prestar mais atenção onde está a genitália do seu clero e parar de encher o saco dos outros?

- Um padre celibatário é uma bomba-relógio. Um depravado prestes a vir à tona. A solução? Bonecos-coroinhas-infláveis!

- Quase tão ruim quanto abusar sexualmente de uma criança, é encher a cabeça delas de histórias de terror como inferno, apocalipse, pecado e um ser invisível que controla a realidade. E isso não só padres, mas pais e tios também fazem. Crianças são programadas evolutivamente para acreditar no que os pais falam, por maior que seja a abobrinha. Seria ótimo se os adultos deixassem suas crendices de lado e ensinassem as crianças como pensar, e não o que pensar.

Agora chega desse assunto horrível de pedofilia e voltemos à nossa Bíblia Sagrada, repleta de bons exemplos e histórias educativas. Para se manter atualizado nas peripécias dos Padres da Ordem de São Michael Jackson, sugiro que ame a teu próximo como a ti mesmo.

Atualização 03/05/10: Se você entende Inglês e tem estômago para ver crianças serem violentadas...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Gênesis 25


"Pintura pequena, escura e confusa" de Benjamin West. Óleo sobre tecido.


O velho Abraão era um homem abençoado pelo Deus Altíssimo e ainda dava no couro, mesmo nos seus cento-e-cachorro-lascou-a-boca anos de idade. E como prova disso, após Sara ter passado dessa para uma melhor, ele se casou com uma mulher chamada Cetura. E ainda teve filhos que ele amaldiçoou com os nomes Zamrã, Jecsã, Madã, Madiã, Jesboc e Sué. E, como se esses nomes não fosses sacanagem suficiente, Abraão deixou toda a herança somente para Isaac. Velho filhadaputa. “Quanto aos filhos de suas concubinas (não é possível... o velho devia tomar catuaba e Caracu com ovo na veia!), só lhes deu presentes, e despediu-os, ainda vivo, mandando-os para longe de seu filho Isaac, para a terra do oriente.” (Gênesis 25:6). E, aos 175 anos de idade, Abraão vai a óbito e seu presunto é enterrado na mesma caverna em que Sara também foi enterrada. Ficou triste? Nem eu.

O primogênito de Abraão, Ismael, gerou doze filhos que foram chefes de doze tribos (isso, tribos. A Bíblia é um livro de uma era tribal. Pudera alguns conceitos estarem ultrapassados). Ismael também empacota, só que na flor da idade, com apenas 137 anos. E agora? Nem uma lágrima?

Já com Isaac o buraco foi mais embaixo. “Isaac rogou ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu-o e Rebeca, sua mulher, concebeu.” (Gênesis 25:21). Ué! Que fácil! “Senhor”, “Sim, Isaac?”, “Minha mulher é estéril. Dá pra quebrar meu galho?”, “Demorô, véi!”, SHAZAM! Mas, apesar do bom Senhor ter agraciado Rebeca com gêmeos, a gravidez não foi tranqüila e saudável. Enquanto grávidas normais sentem o rebento dando chutinhos e se acomodando, Rebeca sentia que seus dois fetos estavam praticando o Vale-Tudo. Se na época houvesse ultra-som, os médicos tribais veriam soco, pontapé, chave-de-braço, tesoura-voadora, dedo-no-olho, fisgada e até o temido suplex-alemão. Ou talvez fossem só gases.

Mas, apesar da ausência da ultra-sonografia, Rebeca podia se consultar com o Guru da Obstetrícia Neo-Natal, o inventor de todo o sistema, Dr. Javé. "’Se assim é, por que me acontece isso?’ E ela foi consultar o Senhor, que lhe respondeu: ‘Tens duas nações no teu ventre; dois povos se dividirão ao sair de tuas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo.’” (Gênesis 25:22-23). Esse é o plano divino, mas Deus põe ele em prática dentro da barriga dos outros. Ó-quêi então.

E no dia do parto, surpresa! “O que saiu primeiro era vermelho, e todo peludo como um manto de peles, e chamaram-no Esaú” (Gênesis 25:25). Você leu certo, herege leitor. Vermelho e peludo. Se ainda duvida, clique aqui para ver uma fotografia de Esaú. “Saiu em seguida o seu irmão, segurando pela mão o calcanhar de Esaú, e deram-lhe o nome de Jacó.” (Gênesis 25:25). Há quem diga que Jacó, ao invés de chorar, nasceu dizendo “volta aqui, filhadaputa! Não vai escapar assim não!”. Enfim, Esaú cresceu e se tornou um destro caçador, um homem rústico, tosco, fino como apito de navio. “Jacó”, todavia, “era um homem pacífico, que morava na tenda.” (Gênesis 25:27). Leia-se frouxo. Obviamente, Isaac sempre gostou mais de Esaú, o bruto, enquanto Rebeca preferia Jacó.

Um dia, Jacó estava, de avental, preparando um saboroso guisado, cuja receita ele aprendeu no Mais Você. O peludo Esaú voltou do campo, sujo e com uma sovaqueira de derrubar o guarda, e disse “Deixa-me comer um pouco dessa coisa vermelha, porque estou muito cansado.” (Gênesis 25:30). Creio que Jacó não gostou nada que Esaú chamou seu Guisado à Moda Sul-Matogrossense de “coisa vermelha”. E ainda viu uma chance de passar a perna no seu obtuso irmão. "Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura." (Gênesis 25:31). Jacó não é flor que se cheire, e só daria um prato de sua iguaria se Esaú entregasse seus direitos de primogênito (lembrem-se que Jacó nasceu alguns segundos depois, atracado no calcanhar de seu irmão). Esaú, cuja fome se igualava a sua burrice, topou. "’Morro de fome, que me importa o meu direito de primogenitura?’ ‘Jura-mo, pois, agora mesmo’, tornou Jacó. Esaú jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.” (Gênesis 25:32-33). Caiu como um pato.

E assim termina nosso denso capítulo 25, com a morte de Abraão e Ismael, e o nascimento de irmãos gêmeos que se odeiam. Há novela melhor?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Gênesis 23-24


Celebrai! A boa notícia é que Gênesis 23 pode ser trocado em miúdos: Sara, a mulher-maçaneta (que todo mundo passou a mão), empacota aos 127 anos de idade. Abraão, querendo um bom jazigo para sua defunta, a enterra numa caverna na terra de Efrom. E fim.

A má notícia é que Gênesis 24 é um capítulo um pouco mais longo. Mas juntos chegaremos lá! Avante.

O velho Abraão chama seu mais antigo e fiel escravo e diz “Mete tua mão debaixo de minha coxa.” (Gênesis 24:2). Ó-quêi-pó-pará! Teria o velho ficado pervertido com a ausência de Sara? Mete a mão debaixo da coxa? E depois? Cheira? Ica. Mas não é nada disso, hereges pecadores da mente pútrida e pestilenta. Era desse jeito que se fazia uma promessa nos tempos bíblicos. “Quero que jures pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não escolherás para mulher de meu filho nenhuma das filhas dos cananeus, no meio dos quais habito; mas irás à minha terra, à minha parentela, e lá escolherás uma mulher para o meu filho Isaac." (Gênesis 24:3-4). Abraão quer que seu filho mantenha a tradição endogâmica familiar e não se misture com a gentalha que o cerca, por isso pede ao seu servo que vá buscar uma mulher em sua terra natal.

Mas o astuto escravo sabe que a coisa pode ser mais complicada: Um camelo vai para onde você puxar. O escravo, ao contrário de Abraão, sabe que uma mulher é um pouco diferente de um camelo, e indaga: “Talvez essa mulher não me quererá seguir a esta terra; nesse caso, poderei reconduzir o teu filho à terra de onde saíste?" (Gênesis 24:5). Abraão diz “Guarda-te bem de reconduzir para lá o meu filho! (ou, em bom Português, “o caralho que você vai reconduzir para lá o meu filho!”)(...) se ela não te quiser seguir, estarás desobrigado do juramento que te impus. Somente não reconduzas,de forma alguma, para lá o meu filho." (Gênesis 24:6-8). Ok, não precisa dar chilique. “Pôs, então, o servo sua mão debaixo da coxa de Abraão, seu senhor, e fez-lhe o juramento que ele pedia.” (Gênesis 24:9). Eu juro que não inventei essa história da mão na coxa.

E assim partiu o escravo para Nacor, levando camelos, ouro e toda sorte de eletro-eletrônicos, em busca de um pitéuzinho para Isaac. Já nos arredores da cidade de Nacor, nosso amigo resolveu parar sua comitiva num poço para dar um relax. E aproveitou para pedir uma ajuda ao Senhor na sua missão: “Senhor, Deus de Abraão, meu senhor, fazei-me encontrar hoje o que desejo, e manifestar vossa bondade para com meu senhor Abraão. Eis-me aqui, de pé, junto desta fonte onde as filhas dos habitantes da cidade virão buscar água. Portanto, a donzela a quem eu disser: ‘Inclina o teu cântaro, por favor, para que eu beba’ -, e me responder: ‘Bebe, e darei de beber também aos teus camelos’ -, essa seja a que destina ao vosso servo Isaac. Por isto conhecerei que manifestais vossa bondade para com meu senhor." (Gênesis 24:14). Improvável, né?

Mas Deus é pai e foi tiro e queda! Surgiu imediatamente uma jovem chamada Rebeca com um cântaro nos ombros. “A jovem era extremamente bela, virgem, e homem algum a havia possuído.” (Gênesis 24:16). Extremamente bela e extremamente virgem. E quando o escravo pediu água, a jovem seguiu o script direitinho: "Bebe, meu senhor. Vou buscar água também para os teus camelos, para que todos bebam." (Gênesis 24:18-19). Bingo! Para impressionar a moça, o escravo saca um anel e dois braceletes de ouro e pergunta: “Haveria na casa de teu pai um lugar para passarmos a noite?" (Gênesis 24:23). Eu responderia: “Alguém que anda com anéis e braceletes de ouro a dar com pau, não tem dinheiro para se hospedar num hotel, ó nobre estrangeiro?”. Mas Rebeca não é ranzinza e rude como o autor que vos escreve, e responde: “Há em nossa casa palha e forragem em abundância, e também lugar para passar a noite.” (Gênesis 24:25).

Rebeca voltou saltitando para sua humilde residência e, tilintando o ouro que acabara de ganhar, contou o ocorrido para sua família. Seu irmão, Labão (me pergunto se esse era o nome dele mesmo, ou se era um apelido em virtude do tamanho do... ah, deixa pra lá), vê no abonado estrangeiro uma chance para amarrar seu burrinho na sombra. "Vem, bendito do Senhor, disse ele, por que permaneces aí fora? Preparei a casa e um lugar para os camelos." (Gênesis 24:31). E, na mesa do jantar, o servo de Abraão resolveu abrir o jogo: “Eu sou escravo de Abraão. (...) O meu senhor fez-me jurar que eu não escolheria para o seu filho uma mulher entre as filhas dos cananeus, em cuja terra ele mora, mas que viria à casa de seu pai, à sua família, para aí escolher uma mulher para o seu filho.” (Gênesis 24:34-38). Labão e o pai de Rebeca, Batuel, não hesitaram em entregar a moça ao escravo estrangeiro. “Eis aí Rebeca: toma-a e parte. Que ela seja a mulher do filho de teu senhor, como o Senhor disse." (Gênesis 24:51). E para deixar todo mundo feliz, o escravo encheu Rebeca e sua família de fabulosos presentes, como perfumes importados, iPods® e calçados Nike®.

Na manhã seguinte, quando o escravo estava se preparando para sair e levar sua mulher-troféu de volta para casa, Labão e a mãe de Rebeca disseram: “Fique a jovem ainda conosco alguns dias, ao menos dez dias; depois disto partirá." (Gênesis 24:55). Aí fodeu. Estava tudo certinho, no esquema: o escravo voltando para casa com uma mulher para Isaac, e todo mundo feliz cheio de presentes. E aí vem Labão e a velha com esse papo de “veja bem”? Nananina, o escravo não gostou nada dessa quebra de contrato. “Não me retenhais, tornou ele: pois que o Senhor fez bem-sucedida a minha viagem, deixai-me partir e voltar para o meu senhor." (Gênesis 24:56). E agora? Como resolver esse angu de caroço? “Chamemos a jovem, disseram eles, e perguntemos-lhe o seu parecer." (Gênesis 24:57). O que?!? Eles vão perguntar para Rebeca o que ela acha?!? Glória, Senhor! Ao ser questionada se queria partir com o escravo, Rebeca disse “sim” (Gênesis 24:58)! E assim ela partiu, “juntamente com sua ama-de-leite, com o servo de Abraão e seus companheiros.” (Gênesis 24:59).

Isaac viu de longe a comitiva se aproximando, e Rebeca também viu Isaac. “Ela disse ao servo de Abraão: ‘Quem é aquele homem que vem ao nosso encontro no campo?’ É o meu senhor’, respondeu ele. E ela tomou depressa o véu e cobriu-se.” (Gênesis 24:65). Seria o véu um embrulho de presente? “E Isaac introduziu (em) Rebeca na tenda de Sara, sua mãe. Desposou-a, e ela tornou-se sua mulher muito amada. E desse modo Isaac consolou-se da morte de sua mãe.” (Gênesis 24:67). Peraí! Quer dizer que o escravo, eu e você passamos por tudo isso para que Isaac se consolasse da morte da mãe? Me poupe.

Me parece que as histórias bíblicas estão mudando um pouco. Convenhamos que foi um avanço a opinião da jovem Rebeca ser levada em consideração. Deus também parece estar agindo de forma mais indireta. Estou até com saudades do velho Javé que mandava chuvas de fogo e enxofre quando estava entediado. Me pergunto se ele vai voltar. Mas a mensagem é que o velho Abraão não queria seu filho se misturando com outro povo/etnia/religião. Soa familiar?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gênesis 22


"Abraão prepara uma picanha" de Caravaggio. Óleo sobre tela.

Pelo jeito Deus estava quase tão entediado quanto você, fiel leitor, pois ele chegou para seu único amigo e disse: “’Abraão!’ ‘Eis-me aqui’, respondeu ele. ‘Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar.’" (Gênesis 22:1-2). Ou, trocando em miúdos: “Abraão, você pode fazer um churrasco do seu próprio filho, só para celebrar como eu sou fodão?”. Só se for agora!

Abraão, com uma obediência canina, partiu com dois servos, lenha e seu filho Isaac rumo ao monte indicado pelo bondoso Deus. Chegando lá, disse aos servos: “Ficai aqui com o jumento, eu e o menino vamos até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós." (Gênesis 22:5). Enquanto subiam a pirambeira, o pequeno Isaac já percebeu que tinha gato nessa tuba. “’Meu pai!’ ‘Que há, meu filho?’ Isaac continuou: ‘Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto?’”(Gênesis 22:7). Abraão não queria dizer que o próprio Isaac era o prato principal do menu. ‘Deus,’ respondeu-lhe Abraão, ‘providenciará ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho.’" (Gênesis 22:8).

Abraão fez uma pilha de lenha, amarrou seu filho Isaac em cima e sacou a peixeira para começar o serviço de açougueiro. “O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: ‘Abraão! Abraão!’ ‘Eis-me aqui!’ ‘Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único’ (único o caralho!, diria Ismael)” (Gênesis 22:12). É claro, amigo leitor! O bondoso Deus não queria que Abraão matasse de fato seu filho. Ele queria somente testar se Abraão era obediente mesmo! Não consta na versão oficial das escrituras, mas o anjo do Senhor ainda disse: “Abraão, olha praquela câmera ali atrás da moita! Dá tchauzinho, porque você está na Pegadinha do Senhor!”. Sério. “Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos; e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho.” (Gênesis 22:13). Agora pergunta se o cordeiro achou graça nessa história.

Abraão chamou a este lugar Javé-yiré” (Gênesis 22:14), que significa ‘Deus-sacana-e-engraçadinho’. Então o Senhor disse "Juro por mim mesmo (ele não pode dizer ‘juro por Deus’, né?): pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha voz.” (Gênesis 22:16-18). Será que Deus também vai pagar as sessões de análise para a criança que foi amarrada em cima de uma pilha de lenha pelo próprio pai?

Que lição devemos tirar desta bela história? Se o bom Senhor mandar você enfiar a cabeça na privada e dar a descarga, faça-o, pois ele vai te ajudar e multiplicar sua posteridade. Mas, para a maioria de nós, Deus fala através de padres, pastores, rabinos e gurus, e nunca diretamente. Portanto, se algum deles disser para você entregar seu dinheirinho a Deus, por mais sem sentido que isso pareça, lembre-se da história de Abraão. Conveniente?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Gênesis 21


"Agar fica mucho loca" de Guercino.

O bom Deus Todo Poderoso, em sua glória, criou o universo e todas as leis da física, planetas, estrelas, nebulosas, organismos vivos (com uma complexidade que parece fruto de milhões de anos de evolução) e, entre eles, o maravilhoso ser humano, um macaco capaz de cutucar o nariz e assistir TV ao mesmo tempo. Mas isso não foi demonstração suficiente do poder de Javé! Não, pobre mortal! Ele resolveu se superar com o milagre supremo: Fazer a benga de um homem de 99 anos subir e engravidar uma mulher quase tão velha. E assim o fez com Abraão e sua esposa e meia-irmã Sara.

O Senhor visitou Sara, como ele tinha dito, e cumpriu em seu favor o que havia prometido. Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” (Gênesis 21:1-2). Eu não gosto sair acusando as pessoas (ou deuses), mas o Senhor visitou Sara e ela engravidou. Entenda como quiser. Mas enfim, Sara concebeu e amamentou um rebento que “Abraão pôs o nome de Isaac” (Gênesis 21:3). E “No dia em que foi desmamado, Abraão fez uma grande festa” (Gênesis 21:8) e todos dançaram ao som de “Mamãe Eu Quero” e outras marchinhas.

Mas nem tudo são flores na infância do pequeno Isaac. Se vocês não se recordam, em Gênesis 16, Abraão, atendendo a um pedido de sua esposa Sara (!), teve um filho chamado Ismael com a escrava Agar. Ismael não tinha televisão, videogame nem acesso à internet e, como passatempo, resolveu maltratar o rebento Isaac. Sara fica emputecida e resolve buzinar na senil orelha de Abraão: “Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac." (Gênesis 21:10). Abraão pensou “putaqueopariu, agora mais essa?” e não ficou nada feliz, pois ele gostava do jovem Ismael e não queria expulsá-lo de sua casa. “Mas Deus”, sempre com a solução para seus problemas, “disse-lhe: ‘Não te preocupes com o menino e com a tua escrava. Faze tudo o que Sara te pedir, pois é de Isaac que nascerá a posteridade que terá o teu nome. Mas do filho da escrava também farei um grande povo, por ser de tua raça.’" (Gênesis 21:12-13) Ah bom! Agora sim!

Abraão, após ser aconselhado pelo Senhor, deu um pão, um odre de água e um pé na bunda para Agar e Ismael, que saíram errantes pelo deserto. Sob o sol escaldante do Oriente Médio e com nenhuma loja de conveniência aberta, não demorou muito para que os dois caíssem moribundos, sem água e sem comida. “Ô castigo”, bradou Agar, “quem poderá nos salvar? Quem? Quem?”. O bom Senhor! Aleluia! Apesar de não poder comparecer pessoalmente, ele enviou um anjo que apareceu para Agar (perceba que esta visão não foi uma alucinação decorrente do fato de Agar estar desidratada e o sol do deserto fritando sua caixola. De jeito nenhum! Foi um anjo mesmo, ok?). E o anjo disse: “Que tens, Agar? Nada temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar onde está. Levanta-te, toma o menino e tem-no pela mão, porque farei dele uma grande nação." (Gênesis 21:18). E, quando Agar ergueu sua cabecinha cheia de vozes dentro, viu um poço de água que miraculosamente havia aparecido ali. E assim, ela e Ismael sobreviveram a mais esta provação. “Ele cresceu, habitou no deserto e tornou-se um hábil flecheiro. E habitou no deserto de Farã, e sua mãe tomou para ele uma mulher egípcia.” (Gênesis 21: 20:21). Glória!

Enquanto isso, nosso conhecido de capítulos anteriores, Rei Abimelec resolveu fazer um tratado de paz com Abraão. Abimelec de bobo só tinha o nome. Ele sabia que Abraão era protegido de um Deus que, quando está enfurecido/entediado, mata mesmo. E todo mundo sabe (exceto este autor que vos escreve) que é melhor ser amigo do que inimigo dessa gente. “Mas Abraão queixou-se a Abimelec por causa de um poço (será o mesmo poço que salvou Agar e Ismael?) que os seus homens lhe tinham tirado à força.” (Gênesis 21:25). Abimelec disse que iria averiguar a ocorrência e eles fizeram aliança de paz. Para selar o tratado, Abraão deu bois e ovelhas para o rei mas, num ato curioso, separou sete ovelhas do rebanho. “Que significam estas sete ovelhinhas que puseste à parte?” (Gênesis 21:29), perguntou o rei intrigado. "Aceitarás de minhas mãos estas sete ovelhinhas, respondeu Abraão, como testemunho de que fui eu que cavei este poço" (Gênesis 21:29). Hã? Teria Abraão fumado crack? Abimeleca, que preferiu não questionar o velho gagá, aceitou as tais das ovelhinhas. Certo então. E assim “Abraão habitou muito tempo na terra dos filisteus.” (Gênesis 21:34). E fim!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Interlúdio: O Abacaxi seja louvado


As cédulas do Real vão mudar, mas não muito. Assim como nas antigas, as novas notas ainda terão um safado de um “Deus seja louvado” escrito bem pequenininho. Isso parece muito adequado para aqueles que louvam a Deus, mas eu sou um devoto da Igreja do Grande Abacaxi Carismático (um ótimo site que infelizmente não está mais no ar), e quero que esteja escrito “O Abacaxi seja louvado” nas cédulas, pode ser? E por que não, “A Mula-sem-cabeça seja louvada”? Daria um toque patriótico às cédulas! Ou ainda, “Belzebu seja homenageado com o sacrifício de virgens”, para aqueles que adoram o pé-duro?

A resposta todo mundo já sabe: É melhor que não esteja escrito nada disso. Mas infelizmente nosso Estado é laico pero no mucho. É só dar uma olhadinha na constituição e você vai descobrir que, trocando em miúdos, “o Estado é laico graças a Deus”. Já no preâmbulo da Constituição Federal “promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”. Fodeu!

A Mula-sem-cabeça, o Abacaxi Carismático, Belzebu e Deus, todos se encaixam na mesma categoria: crendices e superstições. Cada um acredita no que quiser (ou no que foi condicionado desde criancinha a acreditar), mas bom mesmo seria se o Estado fosse para todos e não somente para aqueles que tem um amigo imaginário chamado Deus.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Gênesis 20

Sugiro que você pegue agora seu exemplar da Bíblia Sagrada, que certamente está ao alcance de sua mão, e consulte Gênesis 12. Se, por algum infortúnio do destino, sua bíblia não está com você agora (por exemplo, seu cônjuge pode estar usando-a para orar fervorosamente em algum outro local da casa), consulte a bíblia online em nossa lista de links. Mas nem pense em consultar os arquivos deste blog, visto que ele apresenta uma versão deturpada e desrespeitosa das escrituras. Enfim, em Gênesis 12, Abraão, que ainda se chamava Abrão, disse para um faraó que sua mulher Sara, que ainda se chamava Sarai, era sua irmã. Por motivos que até Deus duvida, Sara acabou sentando no colinho do faraó e Abraão foi agraciado com muitos presentes. Lembrou?

Pois bem, neste capítulo, Abraão, depois do show de horrores que foi a destruição de Sodoma e Gomorra, resolveu peregrinar para o reino de Gerara, onde Abimalec era rei. E, quem diria, resolveu aplicar o golpe do trace-minha-esposa-porque-ela-é-minha-irmã de novo! “Ele dizia de Sara, sua mulher, que ela era sua irmã. Abimelec, rei de Gerara, arrebatou-lha (mesmo ela tendo já seus noventa e cacetada).” (Gênesis 20:2). Mas antes que o rei arrebatasse de fato Sara, o Deus Altíssimo lhe aparece num sonho e ameaça: “Vais morrer, por causa da mulher que roubaste, porque é casada.” (Gênesis 20:3). Abimeleca, como qualquer pessoa sensata, acha que Deus é um imbecil e questiona: “Senhor, fareis perecer mesmo inocentes? (ah, se vossa majestade soubesse quantos inocentes o bom Deus já ceifou...) Não me disse ele que ela era sua irmã? E ela mesma me disse: É meu irmão. É na simplicidade de meu coração e com as mãos puras que fiz isso.” (Gênesis 20:5). Meio sem jeito, o Todo Poderoso responde: “Sei que é na simplicidade do teu coração que agiste assim; por isso, preservei-te de pecar contra mim, e não deixei que a tocasses.” (Gênesis 20:5). Curiosamente, ele não teve esse cuidado quando o faraó, de Gênesis 12, caiu no mesmo golpe. “Devolve agora a mulher deste homem, que é profeta (com mulher de profeta não se mexe, pelo jeito), e ele rogará por ti para que conserves a vida. Mas, se não a devolveres, sabes que morrerás seguramente, tu e todos os teus.” (Gênesis 20:7). E assim, o Rei Abimoleque, ameaçado de morte, não encosta um dedinho sequer na Miss Velho Testamento, Sara.

Mas o nosso amigo rei, com razão, quer saber por que Abraão aprontou essa porra para cima dele, e pergunta: “Que nos fizeste? Em que te ofendi para que nos expusesses, a mim e ao meu reino, ao castigo de um tão grande pecado. Fizeste-me o que não devias fazer. Que tiveste em vista agindo assim?” (Gênesis 20:9-10). Abraão, na maior cara de pau, responde: “Eu pensava comigo que não havia certamente nenhum temor a Deus nesta terra (preconceituoso, né?), e que me matariam por causa de minha mulher (repito: de mais de 90 anos!).” (Gênesis 20:11). Ou seja, o exemplar patriarca Abraão não tem problemas em fazer Abimalec e companhia serem massacrados injustamente pelo bondoso Deus para salvar o próprio traseiro.

Mas o melhor vem agora. Abraão, como nas melhores novelas mexicanas, solta a bomba: “Aliás, ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, mas não de minha mãe; ela tornou-se minha mulher.” (Gênesis 20:12). Exatamente, Abraão é meio-irmão de Sara. O que faz dele meio-mentiroso, meio-incestuoso e um completo imbecil. Mas, depois dos casos de incesto escabrosos que já vimos neste fabuloso livro de valores, isso nem é tão surpreendente. E Abraão continua: “Quando Deus me tirou da casa de meu pai, eu disse-lhe: Faze-me esta graça: onde quer que formos, dirás de mim que sou teu irmão.” (Gênesis 20:13). Traduzindo: “És muito gostosa. Portanto, onde formos, dirás que sou teu irmão e darás o bumbunzinho para qualquer um. Dessa forma nunca serei morto por sua causa e de quebra ainda posso ganhar uns presentinhos”.

E, novamente, foi tiro e queda. “Tomou então Abimelec ovelhas, bois, servos e servas, e deu-os a Abraão, ao mesmo tempo que lhe devolvia Sara, sua mulher.” (Gênesis 20:14). Abraão, feliz da vida, “intercedeu junto de Deus, que curou Abimelec, sua mulher e suas servas, e deram novamente à luz.” (Gênesis 20:17). Não sabia que Abimolenga e suas mulheres estavam com problemas para engravidar? Nem eu. “Porque o Senhor tinha ferido de esterilidade todas as mulheres da casa de Abimelec, por causa de Sara, mulher de Abraão.” (Gênesis 20:18). Aaah bom, agora entendi. Olha, eu não sou nenhum exemplo de escritor, mas esse livro é mal escrito pracaralho, heim?

Agora falando sério (mas não muito), essa não é a primeira vez e nem será a última que histórias vão se repetir na Sagrada Bíblia. Peço desculpas pelas histórias manjadas e piadas repetitivas. Mas vamos juntos segurar na mão de Deus e ir em frente!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gênesis18-19


"Deus botando para foder" de John Martin, óleo sobre tela.

Tremei, infiéis. O episódio a seguir não é para os fracos de estômago. Teremos mortes aos baldes, sexo incestuoso e um caso de desidratação extrema. Se você acha que simplesmente não agüenta o tranco, clique aqui. Se resolveu ficar, não me ligue no meio da noite reclamando que não consegue dormir, ok?

Nossa história começa com, adivinha, Deus aparecendo para Abraão enquanto ele sentava na sua varanda “no maior calor do dia (coincidência?)” (Gênesis 18:1). Mas dessa vez, a visão é acompanhada de três viajantes que estavam passando e Abraão oferece sua hospitalidade. Na verdade, é cortesia com o chapéu dos outros (o chapéu de Sara, para ser mais preciso): “Abraão foi depressa à tenda de Sara: ‘Depressa, disse ele, amassa três medidas de farinha e coze pães.’" (Gênesis 18:6). “Amassa você, velho preguiçoso!” deve ter pensado Sara. E ainda ordenou que um criado preparasse um novilho (Abraão mesmo não fez porra nenhuma).

Os viajantes, enquanto fazem uma boquinha, profetizam que voltariam em um ano e, então, Sara teria um filho. Ela, que escutava escondida, “pôs-se a rir secretamente: ‘Velha como sou, disse ela consigo mesma, conhecerei ainda o amor? E o meu senhor também é já entrado em anos.’ (entrado em anos = broxa)" (Gênesis 18:12). O Senhor não achou graça nenhuma nas risadinhas de Sara. “Será isso porventura uma coisa muito difícil para o Senhor?” (Gênesis 18:14), disse Javé emputecido. “Sara protestou: ‘Eu não ri’, disse ela, pois tinha medo (de ser pulverizada pelo bom Deus). Mas o Senhor disse-lhe: "Sim, tu riste." (Gênesis 18:15). Seria ótimo se eles ficassem mais uns dez versículos num ping-pong de “não ri!”, “riu sim!”. Mas isso não acontece. Droga.

Deus então resolve abrir o jogo para Abraão do que vem por aí. “É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. Eu vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, eu o saberei." (Gênesis 18:20-21). O povo de Sodoma e Gomorra vivia entregue a putaria. Era todo mundo de abadá atrás do trio elétrico dia e noite, e Deus não gosta desta avacalhação (curiosamente ele, em sua onipotência, tem que descer para ver se as fofocas são verdade ou não). Abraão já sente pelo tom na voz do Senhor que vem massacre por aí e, num (aparente) surto de bondade, questiona: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (Gênesis 18: 23-24). Imagine se o bom Deus, que já afogou toda a humanidade num dilúvio, iria cometer uma injustiça dessas! “Se eu encontrar em Sodoma cinqüenta justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles." (Gênesis 18:26). É ou não é bondoso? Só que mais bondoso ainda é Abraão, que retruca: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza (hã?). Se porventura faltarem cinco aos cinqüenta justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cincos?" (Gênesis 18:28). E esse jogo de penchincha, no estilo “quer-pagar-quanto?”, continua até Deus respondendo "Não a destruirei por causa desses dez." (Gênesis 18:32).

Talvez você, como eu, tenha caído no golpe de que Abraão estava realmente preocupado com os inocentes que iriam se foder na mão de Deus. Mas o que nosso amigo estava preocupado mesmo era com seu sobrinho Lot, que vivia em Sodoma. Isso se chama nepotismo, a propósito.

Pois em Sodoma chegaram dois anjos e Lot ofereceu sua hospitalidade. “Lot preparou-lhes um banquete, mandou cozer pães sem fermento (desses que faz uma pelota na boca que você mastiga, mastiga e o bicho não desce, sabe?) e eles comeram.” (Gênesis 19:3). Mas a população de Sodoma viu que tinha carne nova no pedaço e cercou a casa de Lot. “Onde estão, disseram-lhe, os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos." (Gênesis 19:5). Se você acompanha o blog desde o começo, já sabe que “conhecer” na bíblia significa “passar a vara”. Ou seja, a população de Sodoma queria mesmo as bundinhas dos anjos para... é, sodomizar. Lot sai para tentar acalmar o rebuliço. "Suplico-vos, meus irmãos, não cometais este crime. Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra do meu teto." (Gênesis 19:7-8). Você leu certo, filho de Deus. Lot, querendo concorrer ao troféu de pai do ano, ofereceu suas duas filhas virgens para a multidão violar a vontade, desde que deixassem os anjinhos do Senhor em paz. Lindo, né?

Mas a turba enfurecida não quer saber de acordo! Qualquer coisa que faz sombra eles querem meter o bilau, e os anjinhos estão no topo da lista! Mas eis que um milagre se sucedeu: Os sodomitas tentaram entrar a força na casa de Lot, mas os anjos, numa sagaz manobra, puxaram Lot para dentro, fecharam a porta e SHAZAM! “feriram de cegueira os homens que estavam fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão por reencontrar a porta.” (Gênesis 19:11). Lot celebrou com uma dancinha da vitória e ainda tirou um sarro: “Uhu! Toma essa! Quero ver achar buraco de cu agora, bando de fidiputa!” (não, ele não fez isso... mas poderia).

Os dois homens disseram a Lot: ‘Tens ainda aqui alguns dos teus? Genros, ou filhos, ou filhas, todos os que são teus parentes na cidade, faze-os sair deste lugar, porque vamos destruir este lugar, visto que o clamor que se eleva dos seus habitantes é enorme diante do Senhor, o qual nos enviou para exterminá-los.’" (Gênesis 19:13). Estava com saudades daquele Deus que atira primeiro e pergunta depois? Que extermina aqueles que não se encaixam no seu modelo de “justo”? Ele voltou! E lembra daquele papo de “perdoarei a cidade toda se houverem justos entre os ímpios”? O bom Deus achou uma brecha na lei e enviou os anjos a Sodoma para avisar Lot. Assim ele poderia satisfazer sua vontade de massacrar uma cidade inteira, e ainda salvar os “justos” (leia-se: parentes de Abraão). Gênio!

Lot então saiu para avisar seus genros e filhas desposadas que o bom Deus iria transformar a cidade em migalhas, “mas seus genros julgaram que ele (tinha exagerado na aguardente e) gracejava” (Gênesis 19:14). Na manhã seguinte, os anjos conduziram Lot, sua mulher e suas duas filhas (que, não graças a Lot, ainda eram virgens) para os limites da cidade e disseram “Pernas pra que te quero, Lot e companhia!”. Mas havia um porém: “Não olhes para trás, e não te detenhas em parte alguma da planície; mas foge para a montanha senão perecerás." (Gênesis 19:17). Mas Lot não queria ficar nas montanhas, sem TV a cabo, internet e essas coisas, e pediu que os anjos não destruíssem uma cidade próxima, que tinha um hotelzinho maneiro. “Concedo-te ainda esta graça: não destruirei a cidade a favor da qual me pedes.” (Gênesis 19:21).

Finalmente, nosso bom e misericordioso Deus manda um bombardeio de enxofre e fogo sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, para cortar o mal da putaria e avacalhação pela raiz. “E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo.” (Gênesis 19:25). Erguei as mãos e dai glória a Deus! Pensa que acabou? A esposa de Lot, ao escutar o som de uma cidade sendo destruída, cometeu o gravissíssimo e imperdoável pecado de olhar para trás. O Senhor, para reforçar o argumento de que ele mata mesmo, transformou a mulher numa coluna de sal.

Ok, ok, agora acabou, certo? Errado, infiel! Nosso amigo Lot ficou com a pulga atrás da orelha e resolveu se mudar para uma caverna na montanha com suas duas filhas. “A mais velha disse à mais nova: ‘Nosso pai está velho, e não há homem algum na região com quem nos possamos unir, segundo o costume universal. Vem, embriaguemos nosso pai e durmamos com ele, para que possamos nos assegurar uma posteridade.’" (Gênesis 19:32). Simples assim, amigo leitor. As filhas de Lot resolvem que vão transar com o próprio pai, já que o bom Senhor pulverizou os outros homens da região. “Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite. Então a mais velha entrou e dormiu com ele; ele, porém, nada notou, nem quando ela se aproximou dele, nem quando se levantou.” (Gênesis 19:33). A quantidade de vinho foi exata para fazer o velho não perceber nada e ao mesmo tempo não perder a... tenacidade, se é que você me entende. Que precisão! E na noite seguinte foi repeteco com a filha mais nova. Dessa forma, Lot se tornou ao mesmo pai e avô de duas crianças chamadas Moab e Ben-Ami.

Uma família em que as duas filhas embriagam o próprio pai para transar com ele, está de acordo com os preceitos de Deus, e merece ser poupada do massacre que ele fez. Serei eu antiquado? Ufa, agora acabou, irmãos e irmãs. Amém!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Gênesis 17



Glória, irmãos, glória!

Abrão já surfava nos seus 99 anos de vida, quando Deus lhe aparece em mais uma visão. Cá pra nós, a aparição do Senhor, com sua voz grave e reverberante, acompanhada pelo canto de mil querubins e trombetas, deve ser muito impressionante na primeira vez. Mas pela centésima vez, Abrão deve ter pensado “lá vem ele de novo...”. E ele disse: “Eu sou o Deus Todo-poderoso (que modéstia, não?). Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência.” (Gênesis 17:1-2). Sério, quem ainda agüenta esse papo de “aliança” e “multiplicar a descendência”? Eu que não.

E Javé continua: “De agora em diante não te chamarás mais Abrão, e sim Abraão, porque farei de ti o pai de uma multidão de povos.” (Gênesis 17:5). Uepa, pó-pará! Deus vai fazer de Abrão o pai de uma multidão de povos e dá de presente uma letra “a” para o nome dele?!? Não um cajado maneiro, ou um megafone, ou uma conta no twitter. Não. Um “a”. Desculpe, mas isso Abrão poderia ter feito sozinho. Eu admito que Abraão soa mais musical, tem mais ritmo. Abra-ão. Parece que escorrega da língua. Mas só. E o Senhor continua: “Darei a ti e a teus descendentes depois de ti a terra em que moras como peregrino, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o teu Deus." (Gênesis 17:8). É a danada da Terra Prometida.

Agora, amigo leitor, preste atenção, pois essa parte é do caralho: “Eis o pacto que faço entre mim e vós, e teus descendentes, e que tereis de guardar: Todo homem, entre vós, será circuncidado. Cortareis a carne de vosso prepúcio, e isso será o sinal da aliança entre mim e vós.” (Gênesis 17:10-11). Exatamente! Deus, em sua glória, decidiu que o sinal que marcaria seu povo escolhido seria ter a chapeleta cortada. O Senhor, por ser Todo-Poderoso, deve ter visão de raio-x, e pode ver a benga de qualquer homem quando bem entender. Para os homens se reconhecerem, entretanto, a coisa fica mais constrangedora: “Com licença, amigo. Podes levantar sua toga para que eu averigue se és um dos escolhidos?”. E tem mais. “Todo homem, no oitavo dia do seu nascimento, será circuncidado entre vós nas gerações futuras, tanto o que nascer em casa, como o que comprardes a preço de dinheiro de um estrangeiro qualquer, e que não for de tua raça.” (Gênesis 17:12). Ou seja, até escravos, comprados de um “estrangeiro qualquer”, entram na jogada. “Circuncidar-se-á tanto o homem nascido na casa como aquele que for comprado a preço de dinheiro. Assim será marcado em vossa carne o sinal de minha aliança perpétua (Deus gosta de se repetir, como já vimos). O varão (ou varinha! há!) incircunciso, do qual não se tenha cortado a carne do prepúcio, será exterminado de seu povo por ter violado minha aliança."(Gênesis 17:13-14). Não entendi muito bem esse “exterminado de seu povo”. Se “exterminar” é o mesmo verbo usado pelo Arnold Schwazenegger e por empresas de dedetização, então significa matar. O homem que tiver seu bilau encapuzado, como se não bastasse ter um maior risco de infecções genitais, ainda será jurado de morte pelo povo escolhido? Ô castigo!

Como reconhecer as mulheres, como sempre, não importa. Apesar de que, neste caso específico, acho que as mulheres se deram bem por serem esquecidas. Escaparam de rituais de mutilação numa época em que não havia bisturis e a anestesia era tomar um porre. Ufa!

O Senhor Javé, que parece que acordou com siricutico, continua a dar decretos: “Não chamarás mais tua mulher Sarai, e sim Sara. Eu a abençoarei, e dela te darei um filho. Eu a abençoarei, e ela será a mãe de nações e dela sairão reis." (Gênesis 15:16). Ótimo, Abra-a-ão ganhou uma letra e Sara-i perdeu uma. E que delicadeza, né? “Dela sairão reis”. Espero que não estejam usando coroa quando saírem.

Abraão, mesmo com seu novo nome, sabe que a pipa do vovô não sobe mais não segura a risada. “Abraão prostrou-se com o rosto por terra, e começou a rir (pf... pf, pf... pfahahahaha!), dizendo consigo mesmo: ‘Poderia nascer um filho a um homem de cem anos? Seria possível a Sara conceber ainda na idade de noventa anos?’" (Gênesis 17:17). Teria o Senhor Javé comido cocô? "Oxalá que Ismael viva diante de vossa face!" (Gênesis 17:18), disse Abraão. Mas a Deus tudo é possível, e não seriam meros casos de paumolecência e esterilidade que impediriam o plano divino de se concretizar! “Não, é Sara, tua mulher que dará à luz um filho, ao qual chamarás Isaac. Farei aliança com ele, uma aliança que será perpétua para sua posteridade depois dele. Eu te ouvirei também acerca de Ismael. Eu o abençoarei, torná-lo-ei fecundo e multiplicarei extraordinariamente sua descendência: ele será o pai de doze príncipes, e farei sair dele uma grande nação. Mas minha aliança eu a farei com Isaac, que Sara te dará à luz dentro de um ano, nesta mesma época." (Gênesis 17:19-21). Ou seja, amigo Abraão, assim que a piroca cicatrizar já pode começar a trabalhar na madeira, meu caro.

Abraão tomou então Ismael, seu filho, assim como todos os homens nascidos em sua casa e todos aqueles que tinha comprado a preço de dinheiro (que jeito mais chato de dizer “escravos”!), tudo o que havia de varões em sua casa, e circuncidou-se no mesmo dia, como Deus lhe havia ordenado.” (Gênesis 17:23). Abraão, com um cutelo enferrujado na mão: “Minha gente, todos com os varões pra fora! Ordens divinas!”. Assustador, heim? “(...) e todos os homens de sua casa, nascidos em sua casa ou comprados a preço de dinheiro a estrangeiros (argh!), foram circuncidados ao mesmo tempo.” (Gênesis 17:27). Sorte nossa que Abraão não resolveu fazer um churrasco em oblação ao Senhor com tanta carne sobrando. Eca.